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1511 | I Série - Número 037 | 19 de Setembro de 2002

 

E se muitas vezes prestamos testemunho às ideias, as ideias seguem caminho por si; se muitas vezes prestamos testemunho às obras, as obras também continuam quando são grandes, e algumas das obras que ela deixa continuarão o seu caminho.
Uso da palavra principalmente para deixar um testemunho à pessoa, e essa não estará mais senão na nossa memória. E tenho, para mim, que o maior património que somamos na vida é o das vivências que colhemos ao longo da vida, é o das amizades que fazemos ao longo da vida. Helena Vaz da Silva foi uma pessoa que me marcou e queria, por isso, em meu nome pessoal e do Governo, associar-me a este voto.

O Sr. Presidente: - Sr.as e Srs. Deputados, sobre esta matéria, gostava de acrescentar, relativamente ao texto do voto que eu próprio subscrevi e apresentei, que a Mesa se associa às palavras sentidas proferidas por todas as bancadas sobre Helena Vaz da Silva, de quem admirei a capacidade de cidadania e a grande energia, e que também tenho o gosto de me contar entre os seus amigos.
Srs. Deputados, segue-se o voto n.º 17/IX, de pesar pela morte do pintor Fernando de Azevedo, que passo a ler: «A Assembleia da República, reunida em Plenário pela primeira vez depois da morte do pintor Fernando de Azevedo, quer manifestar publicamente o seu pesar e associar-se à homenagem devida a uma figura singular da cultura portuguesa contemporânea.
O pintor Fernando de Azevedo - que foi membro fundador do movimento surrealista português - manifestou as suas qualidades e o seu talento artístico através de uma actividade multifacetada no campo da arte contemporânea, como criador, como crítico e como divulgador, através de numerosas iniciativas que afirmaram a arte portuguesa entre nós e no estrangeiro.
Durante as últimas décadas foi Presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes. Essa permanência atesta bem o respeito e a consideração que, dos mais diversos quadrantes políticos e estéticos, Fernando de Azevedo mereceu.
Nesse exercício, como aliás ao longo de toda a sua vida, Fernando de Azevedo, a par da sua própria obra - que justificará um maior reconhecimento e divulgação -, dedicou-se, com grande sensibilidade e generosidade, a divulgar e aprofundar a obra dos seus contemporâneos, através de uma notável produção teórica e crítica de que poderemos constantemente beneficiar.
À família enlutada, endereça a Assembleia da República sentidas condolências.»
Para intervir sobre este voto de pesar, tem a palavra a Sr.ª Deputada Manuela Melo.

A Sr.ª Manuela Melo (PS): - Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Lembramos hoje, brevemente, Fernando de Azevedo, que nos deixou quase octogenário, mas com as mesmas capacidades de criação, de crítica e de intervenção que marcaram a sua vida de pintor e ensaísta.
Foi com colegas de curso da Escola António Arroio, como Pomar e Vespeira, que começou a mostrar, pública e insolitamente, com uma exposição no atelier forrado de páginas do Diário da Manhã, a sua decisiva contribuição para o movimento surrealista em Portugal.
A criação do Grupo Surrealista de Lisboa, em 1947, a que pertenciam também Cesariny, Dacosta, António Pedro e Alexandre O'Neil marcou o seu trajecto de «pintor sabendo pintar com o saber ver que os outros pintavam», como disse dele José Augusto França.
Há em Fernando de Azevedo três facetas de trabalho criativo e de intervenção cultural igualmente importantes: o artista plástico de grande sensibilidade; o cultivador do insólito e do onírico, do carácter ilusionista, conseguidos pela mistura de métodos tradicionais de representação com elemento novos, utilizando técnicas como a colagem, a incisão, a ocultação de partes de imagens pré-existentes.
Tão importante como o artista plástico é o Fernando de Azevedo ensaísta, crítico de arte, o pensador que tanto reflectiu e esclareceu sobre o surrealismo e a sua importância em Portugal.
E foi também o organizador, o dinamizador de projectos no Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, que dirigiu, mas também no seu grupo de bailado, na Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), na Colóquio Artes, na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Foi ilustrador, foi cenógrafo, foi cúmplice de muitos artistas da sua e das novas gerações, concretizador de intenções e de projectos com uma abertura assinalável.
Como ele próprio escreveu, «As ortodoxias de grupo são concebidas como casulos para acabarem como mausoléus. Ora, um casulo não é isto, o casulo é uma casa sua que um bicho qualquer faz só com o propósito de por ela sair transformado».
É por tudo isto, Sr. Presidente, e por muito que fica por dizer de Fernando de Azevedo, que o Grupo Parlamentar do PS acompanha sentidamente o voto de pesar formulado.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra a Sr.ª Deputada Luísa Mesquita.

A Sr.ª Luísa Mesquita (PCP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Morreu Fernando de Azevedo, Presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes desde 1979, mas vive o pintor das ocultações, da dialéctica que oculta e desvenda, como ele próprio afirmava, na procura de um sentido na vida e na arte.
Estudante de um processo de ensino profissionalizante que se inicia na Escola de Artes Decorativas António Arroio e termina na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, Fernando de Azevedo é um nome incontornável do surrealismo português.
Foi um dos fundadores do Projecto Surrealista de Lisboa, de 1947. A sua produção, toda ela, da escrita à pintura, à crítica, liberta a imaginação para uma busca sem fronteiras, ultrapassando sempre circunstancialismos históricos.
A instabilidade e mesmo a efemeridade do movimento surrealista terão determinado, provavelmente, outros importantes percursos artísticos de Fernando de Azevedo: o mundo da ilustração, o teatro, a ópera, o bailado e tantos outros.
Mas não menos importante foi a sua intervenção na divulgação da arte portuguesa e estrangeira, mesmo no espaço da crítica artística, onde a observação e a construção discursiva era inúmeras vezes a desconstrução acessível do bem simbólico.
Fernando de Azevedo, o artista e o cidadão, convergiam sempre na arte e na vida. Foram ambos membros activos do Movimento Democrático dos Artistas Plásticos, encontraram-se ambos no colectivo de 48 artistas que, em