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19 DE MAIO DE 2012

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Srs. Deputados, vamos apreciar o voto n.º 64/XII (1.ª) — De pesar pelo falecimento de Bernardo Sassetti

(PS).

Tem a palavra a Sr.ª Deputada Inês de Medeiros, para proceder à leitura do voto.

A Sr.ª Inês de Medeiros (PS): — Sr.ª Presidente, Sr.as

e Srs. Deputados, o voto é o seguinte:

«Eu tenho uma visão musical muito imagética. Dedico-me tanto à fotografia como me dedico à música.

Preciso da imagem. Coisas que vi, ou que fotografei. Pessoas desfocadas a falarem. Mas ninguém tem de

saber que imagens são essas. Aliás, os músicos em geral não gostam de falar sobre música ou sobre os

significados que ela pode ter. Gostam de a fazer. E o significado que se procura é musical. Mas eu gosto

também de dissecar, de analisar, de me interrogar sobre o sentido de certas coisas. Essa é provavelmente a

minha maior ligação ao cinema.».

Assim, de forma sintética e apaixonada, descrevia Bernardo Sassetti a relação entre as três grandes

paixões que o animavam: a música, a fotografia e o cinema.

Pianista e compositor de exceção, Bernardo Sassetti nasceu a 24 de Junho de 1970, em Lisboa. Oriundo

de uma família com grandes tradições musicais, para Bernardo Sassetti a aprendizagem da música era uma

evidência, mas é com a descoberta do jazz, ao ouvir e ver tocar Bill Evans, como gostava de relembrar, que, já

adolescente, decide que será pianista.

Estudou com músicos como Horace Parlan e Sir Roland Hanna e começou a tocar com o quarteto de

Carlos Martins e o Moreiras Jazztet.

Durante a sua carreira, tocou também com músicos como Al Grey, Frank Lacy ou Paquito D'Rivera, na

United Nation Orchestra. Com Guy Barker grava What Love Is, num projeto que juntou a London Philarmonic

Orchestra e Sting.

Já como compositor destacou-se com obras como Ecos de África, Sons do Brasil ou Entropé, sendo que o

seu primeiro trabalho como líder, em 1994, intitulava-se Salsetti.

Fascinado pelo cinema, Bernardo Sassetti torna-se um dos «irredutíveis adolescentes da cinemateca

portuguesa» dos anos 80 e dizia ter sido nessa altura que se apercebeu da beleza e da intensidade do papel

da música nos filmes. Rapidamente é convidado para compor para o cinema, tendo trabalhado com Eduardo

Guedes em Facas e Anjos, José Álvaro de Morais em Quaresma, Margarida Cardoso na Costa dos Murmúrios

e Marco Martins em Alice ou Como desenhar um círculo perfeito, entre outros. Destacou-se ainda pela

contribuição musical para o filme O Talentoso Mr. Ripley, do realizador Anthony Minghella.

Do seu trabalho como compositor para cinema importa ainda recordar a peça para orquestra e canto que

compôs para acompanhar o filme mudo de Leitão de Barros, Maria do Mar.

Desde 2006, integrava, com Mário Laginha e Pedro Burmester, o projeto Três Pianos.

Ultimamente, apresentou-se em piano a solo ou em trio com Carlos Barreto e Alexandre Frazão.

Bernardo Sassetti era um ser à parte. Pelo seu talento, pelo seu impressionante percurso como compositor

e pianista e por conjugar de forma tão harmoniosa e leve a espontaneidade e o rigor absoluto, a jovialidade e a

densidade, a aparente ingenuidade e o conhecimento profundo.

Definia-se como «um homem de extremos» que vivia «entre o estado de incógnita e de dúvida e o

entusiasmo absoluto pelo ser e pelo fazer». Admirava os que duvidavam e que por isso sentiam a necessidade

da procura, pois «as coisas nunca têm um fim e há sempre mais e mais por descobrir.»

Esta incessante procura deste músico sem preconceitos sempre variou de registo, com a mesma mestria,

do fado ao hip-hop, trabalhando com músicos tão diversos como Carlos do Carmo, Sérgio Godinho e Da

Weasel. Tudo interessava Bernardo Sassetti, que sempre surpreendeu pela sua criatividade e inventividade.

Bernardo Sassetti faleceu a 11 de maio de 2012. Portugal perdeu um dos seus mais talentosos e

generosos artistas.

A Assembleia da República manifesta o seu pesar pelo falecimento de um grande pianista e compositor e

apresenta a toda a sua família e amigos as suas sinceras condolências, juntando-se a todos os que lamentam

a perda desta figura única da cultura portuguesa.

A Sr.ª Presidente: — Srs. Deputados, vamos proceder à votação do voto que acabámos de apreciar.

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