I SÉRIE — NÚMERO 122
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Temos a confiança e a expetativa de que o nível local da administração pública será um dos primeiros a
perceber esse enorme desiderato nacional e que o cumprirá com conhecimento e empenho, num ambiente em
que se deve saber conjugar o melhor do passado com a mudança necessária para alcançar o muito que ainda
falta fazer no futuro.
Aplausos do PSD e do CDS-PP.
O Sr. Presidente (António Filipe): — Sr. Secretário de Estado, inscreveram-se, para lhe pedir
esclarecimentos, o Sr. Deputado José Luís Ferreira e a Sr.ª Deputada Paula Santos.
Tem a palavra, para pedir esclarecimentos, o Sr. Deputado José Luís Ferreira.
O Sr. José Luís Ferreira (Os Verdes): — Sr. Presidente, Sr. Secretário de Estado da Administração Local
e Reforma Administrativa, recentemente, o Governo apresentou uma proposta de lei que aprova o regime
jurídico da atividade empresarial local e das participações sociais. O que resulta desta proposta de lei é, entre
outras coisas, a diminuição do número de trabalhadores da administração local, sendo mais um contributo do
Governo para aumentar o desemprego, que não para de crescer em Portugal, como se sabe.
Ao apresentar a proposta de lei em discussão, diz o Governo que tem especialmente em conta a
importância das economias locais para a retoma sustentada do tecido económico. Ou seja, numa semana, o
Governo apresenta uma proposta que levará ao despedimento de muitos funcionários da administração local
e, na semana seguinte, vem dizer que está preocupado com as economias locais. Ora, isto é no mínimo
contraditório, para não dizer mais.
O Governo sentiu agora a necessidade de os municípios se vincularem ao cumprimento das metas de
redução do défice inscritas no Programa de Assistência Económica e Financeira, ou seja, no Memorando de
Entendimento assinado com a troica. Diz o Governo que encetou com a Associação Nacional de Municípios
Portugueses um processo para identificação das soluções para os problemas financeiros de alguns municípios
e, até, que o fez num clima de franca e mútua colaboração com esta Associação, mas toda a gente sabe que a
maioria dos municípios não votou a favor do memorando de acordo entre a associação de municípios e o
Governo — ou votou contra ou absteve-se, Sr. Secretário de Estado, a maioria não votou a favor!
Os municípios que não alinharam têm, a nosso ver, mais do que razões para isso. Então, o Governo
pretende criar uma linha de crédito até 1000 milhões de euros para o pagamento das dívidas dos municípios
quando é o próprio Estado que está em dívida, em milhões de euros, para com os municípios? Quando obriga
os municípios a aumentarem todas as tarifas e taxas para o máximo, agravando ainda mais a vida das
famílias? Quando só há financiamento — porque o Governo fá-lo depender disso — se os municípios
prescindirem de 5% da receita do imposto municipal sobre imóveis (IMI), que será usado pelo Estado para a
consolidação orçamental, com o pretexto da avaliação geral dos prédios humanos? Quando obriga os
municípios a desistirem de todos os processos judiciais que tenham contra o Estado? Isto parece-nos
inqualificável!
A Sr.ª Heloísa Apolónia (Os Verdes): — E é!
O Sr. José Luís Ferreira (Os Verdes): — Esta proposta é, antes de mais, uma inadmissível intromissão e
violação da autonomia do poder local. Não estranhamos, por isso, que muitos municípios continuem a não se
rever neste acordo que a Associação Nacional de Municípios Portugueses estabeleceu com o Governo.
Sr. Secretário de Estado, de facto, muitos municípios vivem hoje com problemas financeiros, e alguns deles
muito graves. Gostaria, assim, Sr. Secretário de Estado, que nos dissesse se reconhece ou não que o
Governo tem também responsabilidades na situação em que se encontram muitos municípios. E porquê?
Desde logo, devido às restrições e cortes que o Governo impôs aos municípios e às autarquias na sequência
do Memorando que celebrou com a troica; devido à Lei dos Compromissos e Pagamentos em Atraso que o
Governo impôs às autarquias locais; devido à retenção de 5% do imposto municipal sobre imóveis; e devido
ao sucessivo incumprimento da Lei das Finanças Locais por parte deste Governo, que não a está a cumprir.
Sr. Secretário de Estado, face ao que referi, considera ou não que o Governo também contribuiu, e muito,
para a atual situação financeira de muitos municípios?