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I SÉRIE — NÚMERO 28

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sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do

mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein».

Com o advento da ditadura militar, a sua militância comunista de sempre acabaria por determinar a

hostilidade das novas autoridades, a sua ostracização profissional e, no final, o seu exílio a partir de 1966,

instalando-se em Paris. Desenvolve, então, um conjunto riquíssimo de projetos em vários países europeus e

vizinhos, com destaque para a sede do Partido Comunista Francês, em Paris, a Universidade de Constantine,

na Argélia, o Centro Cultural de Le Havre ou a sede da Editora Mondadori, em Itália, datando ainda desta fase

da sua carreira a sua única obra edificada em Portugal, o Casino Park do Funchal.

Regressado ao Brasil, com o início da abertura que culminaria no retorno à democracia, Niemeyer continua

a assinar de forma intensa dezenas de arrojados projetos, muitos deles no seu Rio de Janeiro natal, como o

Sambódromo do Rio de Janeiro ou o assombroso Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói,

combinando, uma vez mais, as curvas naturais da Baía de Guanabara com a curva desenhada pela sua mão.

Até ao final da vida, durante a qual se manteve profissionalmente ativo e criativo, continuaria também a

contribuir com novos projetos para o enriquecimento da nova capital brasileira, a projetar equipamentos

públicos, culturais e particulares um pouco por todo o globo e a receber inúmeras provas de reconhecimento

do seu talento à escala global, tornando-se ele próprio um património insubstituível do Brasil.

Engajado politicamente desde jovem e interventivo na vida do seu país e do mundo, Niemeyer marcou o

seu tempo e sempre foi capaz de revelar a sua imensa dimensão humanista e a riqueza da sua personalidade

nas tomadas de posição públicas de que nunca abdicou e que a autoridade de um grande criador lhe

permitiram assumir.

Em diversas entrevistas foi marcando a centralidade que os seres humanos adquiriam na sua obra,

afirmando mesmo, de forma iconoclasta e provocatória, que «a arquitetura não interessa, o que interessa é a

vida». Nas palavras da nota oficial emitida pela Presidente Dilma Rousseff, «o Brasil perdeu um dos seus

génios. É dia de chorar a sua morte. É dia de saudar a sua vida». Neste ano em que assinalamos os imensos

laços culturais que nos unem ao Brasil e em que estamos ligados pelo mar que antes separava, Portugal

partilha este imenso sentimento de perda, bem como o desejo de recordar e celebrar o legado de Óscar

Niemeyer.

No momento do seu falecimento, a Assembleia da República dirige sentidos votos de pesar à sua família e

amigos e aos cidadãos da República Federativa do Brasil, recordando a sua marca indelével e o carácter

sempre universal, atual e arrojado do seu traço.»

A Sr.ª Presidente: — Srs. Deputados, vamos votar o voto n.º 89/XII (2.ª), que acabou de ser lido.

Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade.

Passamos ao voto n.º 90/XII (2.ª) — De pesar pelo falecimento do arquiteto Óscar Niemeyer (PCP), que vai

ser lido pelo Sr. Secretário Jorge Machado.

O Sr. Secretário (Jorge Machado): — Sr.ª Presidente e Srs. Deputados, o voto é do seguinte teor:

«Óscar Niemeyer é certamente uma maiores figuras do séc. XX. Para a arquitetura, em muitos aspetos,

pode dizer-se que o século XX é o século Niemeyer. Obras como o conjunto de Pampulha, o Congresso

Nacional de Brasília, os Palácios do Planalto, do Itamaraty, da Alvorada, da Universidade de Constantine, a

sede da ONU em Nova Iorque, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, entre tantas outras, são não

apenas obras cimeiras, são obras que, de uma ou outra forma, influenciaram e inovaram toda a arquitetura.

Óscar Niemeyer marca de forma particularmente impressiva o século que viveu, que projetou e construiu

alguns dos mais importantes e certamente perduráveis edifícios do século XX. Reconhecido como uma muito

destacada referência moral e ética na defesa das causas da emancipação humana, sempre assumiu com

simplicidade e modéstia, mas também com exemplares coerência e determinação, a sua inserção na longa

trajetória da História. É ele quem afirma, em diversas ocasiões, que «o importante é a vida, não a arquitetura»,

acrescentando, ainda: «e a vida é um instante». Foi um longo instante: uma vida de 105 anos, mas trata-se de

um pequeno período para quem compreendia a longa marcha histórica da humanidade tal como Niemeyer a

entendia.

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