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I SÉRIE — NÚMERO 75

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cultura do protesto; fizeram-se, passo a passo, com a cultura do compromisso entre empregadores e

empregados e com a cultura do equilíbrio possível entre as gerações de ativos e asa gerações de idosos.

Estes factos, sendo de preclara inspiração, não nos chegam, porém, para enfrentar um mundo que

ultrapassou vertiginosamente os dogmas da ideologia e as certezas da tecnocracia.

Há cerca de 100 anos, a esperança de vida à nascença para as mulheres era de 40 anos; hoje, felizmente,

é de 83 anos. Para os homens, estava nos 36 anos e, hoje, afortunadamente, está nos 77 anos.

As questões pertinentes são, portanto, muito mais complexas do que a ladainha dos direitos adquiridos

permite alcançar.

Multiplicam-se, por isso, exemplos que deviam convocar a nossa inquietação. Pode um sistema de segurança

social continuar a ser essencialmente de repartição, ou seja, os trabalhadores de hoje descontam para financiar

as pensões de hoje, quando Portugal, ainda por cima com a economia em valores preocupantemente modestos

e a demografia em valores polares, está longe de ter os ativos necessários para pagar com segurança cada vez

mais pensionistas que vivem, felizmente, cada vez mais anos?

Como se organizam as famílias, as empresas e as leis para a nova duração do trabalho ao longo da vida,

quando a perceção sobre a idade da reforma vem associada, pelo menos culturalmente, a um efeito guilhotina,

como se a experiência, o saber e a maturidade da chamada «geração grisalha» fossem qualidades dispensáveis

ou quantidades desconfortáveis numa civilização inclinada para heroicizar em demasia o que é efémero?

Estão os dispositivos legais e os sistemas judiciais apetrechados, por exemplo, no domínio dos direitos penal

e sucessório, para lidar com fenómenos, frequentemente invisíveis e, às vezes, grotescos, de abandono ou

maus-tratos face a idosos que vivem mais longamente e que, quando são dependentes, dependem mais

acentuadamente?

Podem os governos considerar-se arrogantemente autossuficientes, como se o Estado tivesse meios ou

méritos para invadir, de forma totalizante, os factos e as surpresas da vida, quando o envelhecimento da nossa

sociedade recomenda, se não for por convicção que o seja por prudência, a opção por políticas de

contratualização com quem está no terreno, com quem conhece os contextos familiares e com quem oferece

respostas concretas?

O aviso à navegação é este: se insistirmos em pôr a ideologia à frente da realidade, acabaremos a produzir

ilusões e não a fazer aquele que é o nosso primeiro dever, o de melhorar, na medida do possível, as políticas

que são viáveis para as pessoas em concreto.

Aplausos do CDS-PP.

Se acrescentarmos a estes dilemas, que já de per si são difíceis, as novidades da globalização, que mudam

a natureza da economia e impactam na organização do trabalho, veremos como, por vezes, o determinismo das

esquerdas, aqui em maioria, pode ir literalmente em contramão face à economia global e à competição de todos

os países com todos, ao mesmo tempo que a caracteriza.

Os erros que cometermos nestes fundamentais pagam-se caros, tanto no emprego dos mais novos como na

tranquilidade dos mais velhos.

Sem querer, Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, dramatizar, mas apenas para exemplificar, o mundo em

que vivemos é certamente perplexizante, mas esquecemos com frequência que não o controlamos. Só

controlamos o realismo com que nos adaptamos ao mundo em que vivemos.

Aplausos do CDS-PP.

Se não queremos que o País que, por acaso, fez a primeira globalização colapse melancolicamente, por

inadaptação funcional às circunstâncias e também às oportunidades da economia aberta e da sociedade digital,

temos de mudar de atitude.

De novo, exemplificamos com a pragmática dos casos: no mundo em que vivemos, a maior companhia de

táxis não é proprietária de táxis — Uber; o maior fornecedor de alojamento não tem casas — Airbnb; a maior

companhia de telecomunicações não tem infraestruturas próprias — Skype; o retalhista mais poderoso não tem

inventário — Alibaba; um dos mais populares proprietários de novos media não cria conteúdos — Facebook; o

mais procurado distribuidor de filmes não tem cinemas — Netflix; e assim por diante.

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