O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

3 DE DEZEMBRO DE 2022

53

Tinha 25 anos quando publicou o seu primeiro romance, Terra do Pecado. Nas décadas seguintes, foi

funcionário público, tradutor e crítico literário na Seara Nova, publicou poemas e foi jornalista, no Diário de Lisboa

e no Diário de Notícias, onde exerceu as funções de diretor-adjunto.

Em 1977, José Saramago publicaria o romance Manual da Pintura e da Caligrafia. A partir daí, seguiu-se

uma impressionante produção literária que viria a abrir horizontes para a compreensão do nosso País e do seu

povo. Tornando-se escritor a tempo inteiro, publicou, em 1980, Levantado do Chão; em 1982, Memorial do

Convento, obra que deu a Saramago uma projeção internacional; em 1984, o Ano da Morte de Ricardo Reis;

dois anos mais tarde, Jangada de Pedra; em 1989, publicou História do Cerco de Lisboa; e, em 1991, o

Evangelho Segundo Jesus Cristo, obra que foi incompreensivelmente excluída do Prémio Literário Europeu

pelas autoridades, motivando o protesto magoado de Saramago, que mudou de residência para Lanzarote, em

Espanha. Em 1995, Saramago dá à estampa uma das suas obras-primas, Ensaio Sobre a Cegueira, ampliando

o universo efabulatório e reflexivo do autor. Todos os Nomes (1997), A Caverna (2000), O Homem Duplicado

(2002), Ensaio Sobre a Lucidez (2004), As Intermitências da Morte (2005), A Viagem do Elefante (2008) e Caim

(2009) completam a lista de romances publicados pelo autor.

A sua obra, que inclui também ensaio, como Viagem a Portugal (1984), peças de teatro, como In Nomine Dei

(1993), ou diarística, como os cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote (1994-1998), espelha algumas

características da sua biografia, como as suas convicções e militância política como membro do Partido

Comunista Português, desde antes do 25 de Abril. Não por acaso, são centrais em Saramago o tratamento das

pessoas comuns como sujeitos, assim como um questionamento da religião, da nossa cultura e da própria

história, bem como da forma como o indivíduo se relaciona com a sociedade. Esta capacidade de questionar,

invertendo os termos, contrariando os pressupostos, é essencial na leitura da obra saramaguiana.

José Saramago recebeu múltiplas distinções ao longo da vida, em Portugal e no estrangeiro, denotando o

reconhecimento que a sua obra de cariz universalista mereceu, destacando-se entre aqueles a atribuição, em

1998, do Nobel da Literatura, por, como explicou a Academia Sueca, “com parábolas portadoras de imaginação,

compaixão e ironia torna[r] constantemente compreensível uma realidade fugidia”.

A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, evoca o escritor José Saramago, saudando, na

data em que se comemora o centenário do seu nascimento, a sua memória, bem como a grandeza e a

singularidade da sua obra.»

O Sr. Presidente: — Muito obrigado, Sr.ª Secretária.

Haverá intervenções dos grupos parlamentares e peço a todos que se contenham nos 2 minutos regimentais.

Começo por dar a palavra ao Sr. Deputado Alfredo Maia, do PCP.

O Sr. Alfredo Maia (PCP): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: O voto de saudação pelo centenário do

nascimento de José Saramago celebra a sua obra literária, profundamente marcada por um humanismo de

intervenção e pelo pensamento e a ação do intelectual empenhado na emancipação dos trabalhadores, numa

visão universal e progressista da história e fiel, como militante do Partido Comunista Português, ao projeto de

transformação socialista da sociedade.

Esses elementos não são estranhos à criação romanesca nem à riqueza e à profundidade da galeria

saramaguiana de personagens: dos trabalhadores rurais, de Levantado do Chão, da Blimunda Sete-Luas, do

Memorial do Convento, da Joana Carda, de A Jangada de Pedra, à família de oleiros, de ACaverna, para referir

algumas de natureza ficcional, mas que são produto de uma aguda observação do real.

Esse ideal não esmoreceu com o prestígio global a que foi definitivamente alçado com o Prémio Nobel,

porque era de aço de boa têmpera comprovado desde os tempos em que enfrentou o tenebroso aparelho

repressivo fascista, como militante comunista, e com as suas crónicas em A Capital, no Jornal do Fundão e no

Diário de Lisboa.

Vejam-se os volumes de Deste mundo e do outro, A Bagagem do Viajante e as opiniões que no Diário de

Lisboa teve, ao subscrever o corajoso abaixo-assinado contra o projeto da lei de imprensa de 1971 e ao

apresentar no III Congresso da Oposição Democrática, em 1973, a tese para o estudo da cultura e da informação

em Portugal.

As crónicas, género maior do jornalismo, foram a sua trincheira também em democracia, praticamente até

ao fim da vida, em inúmeros jornais e revistas recolhidos em apontamentos e folhas políticas, destacando-se na

Páginas Relacionadas
Página 0038:
I SÉRIE — NÚMERO 62 38 Sr. Presidente, Srs. Deputados, o Plano chamad
Pág.Página 38
Página 0039:
3 DE DEZEMBRO DE 2022 39 para governar bem. Governar é difícil, porque governar é p
Pág.Página 39