14 DE DEZEMBRO DE 2022
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A proposta de diretiva europeia não tem esta figura, que Portugal inventou, do intermediário. Regula, por
isso, uma relação a dois — a plataforma e o trabalhador — e não a três, ao contrário do que acontece aqui.
Aliás, as decisões de tribunais na Europa, mais de 200, têm vindo a reconhecer esta relação a dois, uma relação
de trabalho.
Na passada quinta-feira, o Conselho da União Europeia reuniu os ministros do Trabalho e a presidência
checa tentou enfraquecer e desfigurar a proposta que vinha da Comissão, propondo dificultar a presunção de
laboralidade e introduzindo a figura do intermediário.
Ora, Portugal, pela voz da Sr.ª Ministra Ana Mendes Godinho, votou contra a proposta que era apresentada
pela presidência checa. Aliás, Espanha também o fez, e a proposta checa não passou. Foi uma boa posição e
uma boa notícia para os trabalhadores das plataformas.
Ontem, no Parlamento Europeu, houve também uma discussão em que foi aprovada a proposta da Comissão
Europeia, com as alterações de uma relatora socialista, Elisabetta Gualmini, que também não inclui a figura do
intermediário — e muito bem, porque não incluir a figura do intermediário significa não ceder ao lobby das
multinacionais, que procuravam, assim, libertar-se das suas responsabilidades.
Em contraste com a proposta da Comissão Europeia e com a posição do Parlamento Europeu, a proposta
apresentada pelo Governo e pelo Partido Socialista neste Parlamento insiste na figura do intermediário.
A proposta de diretiva está contra a figura do intermediário; os coordenadores do Livro Verde sobre o Futuro
do Trabalho, nomeados pelo Governo, estão contra a figura do intermediário; a Autoridade para as Condições
do Trabalho veio a este Parlamento dizer que era contra a figura do intermediário; em outubro de 2021, o Sr.
Primeiro-Ministro apresentou uma proposta, que foi publicada no Boletim do Trabalho e Emprego, que não previa
a figura do intermediário, e portanto presumo que o Sr. Primeiro-Ministro era contra esta figura.
Só o lobby das multinacionais é que é a favor da figura do intermediário.
Por isso, Sr. Primeiro-Ministro, pergunto-lhe: concorda com a proposta de diretiva da Comissão Europeia?
Concorda com a posição que a Sr.ª Ministra do Trabalho tomou? Concorda com a decisão do Parlamento
Europeu, que aprovou, ontem, uma regulação do trabalho em plataformas que não tem este terceiro ente, esta
figura do intermediário?
Se concorda, como é que é possível, aqui, não serem coerentes com essa posição?
Aplausos do BE.
O Sr. Presidente: — Para intervir em nome do PAN, tem a palavra a Sr.ª Deputada Inês de Sousa Real.
A Sr.ª Inês de Sousa Real (PAN): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Sr. Primeiro-Ministro, Sr.ª Ministra: A primeira questão que gostaria de lhe colocar, Sr. Primeiro-Ministro, prende-se com o contexto difícil
que vivemos em Portugal, por força das cheias, em particular na Área Metropolitana de Lisboa.
Sabemos que há custos a ser contabilizados, mas também sabemos que, a este tempo, as famílias e os
comerciantes têm já a sua vida virada do avesso. Sem prejuízo da contabilização total dos custos, há mais
mecanismos para lá dos nacionais, nomeadamente o do Fundo de Solidariedade da União Europeia, que pode
ser solicitado por Portugal.
Portanto, pergunto-lhe se, à semelhança de outros países, e como ocorreu em 2017 e 2018, vai colocar esta
questão junto do Conselho Europeu.
A segunda questão que gostaria de lhe colocar prende-se com o gasoduto denominado «BarMar». Este
gasoduto, como sabemos, está incluído no chamado «novo corredor verde europeu» e, no entanto, numa
primeira fase vai servir para transportar gás fóssil. Ora, conforme já nos alertaram várias organizações não-
governamentais do ambiente, isto põe em causa algumas questões, nomeadamente a possibilidade de ser
incluído no âmbito do programa REPowerEU ou até mesmo de estar alinhado com o Pacto Ecológico Europeu.
Por isso, Sr. Primeiro-Ministro, importa perceber o porquê desta opção, que não só contém custos
económicos de alguma forma ainda não totalmente quantificados — nomeadamente na transição para o
hidrogénio verde —, como também vai afetar zonas de biodiversidade. Antes que nos diga que não é em
Portugal, não podemos esquecer-nos de que o Golfo de Leão tem uma biodiversidade que é das mais ricas do
Mediterrâneo e, estando no âmbito desta solução, Portugal tem também o dever de acautelar a biodiversidade.