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Sexta-feira, 10 de março de 2023 I Série — Número 99

XV LEGISLATURA 1.ª SESSÃO LEGISLATIVA (2022-2023)

REUNIÃOPLENÁRIADE9DEMARÇODE 2023

Presidente: Ex.ma Sr.ª Edite Fátima Santos Marreiros Estrela

Secretárias: Ex.mas Sr.as Maria da Luz Gameiro Beja Ferreira Rosinha Lina Maria Cardoso Lopes Palmira Maciel Fernandes da Costa Helga Alexandra Freire Correia

S U M Á R I O

A Presidente (Edite Estrela) declarou aberta a sessão às

15 horas e 5 minutos. Deu-se conta da retirada, pelo PSD, dos Projetos de

Resolução n.os 527 e 528/XV/1.ª e dos Projetos de Lei n.os 633 a 639/XV/1.ª

No âmbito da ordem do dia fixada a requerimento do

CH, sobre o «combate ao abuso sexual de menores em Portugal», procedeu-se ao debate conjunto, e posterior votação, na generalidade, das seguintes iniciativas:

Projeto de Lei n.º 150/XV/1.ª (CH) — Impede a suspensão da execução da pena em caso de condenação por crime de abuso sexual de crianças ou outros conexos,

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que foi rejeitado; Projeto de Lei n.º 600/XV/1.ª (CH) — Aumenta a

proteção das vítimas de abuso sexual de menores, para tanto alterando o Código Penal, que foi rejeitado;

Projeto de Lei n.º 601/XV/1.ª (CH) — Altera o Código Penal, agravando as penas aplicáveis aos crimes de abuso sexual de crianças e outros conexos, que foi rejeitado;

Projeto de Resolução n.º 461/XV/1.ª (CH) — Recomenda ao Governo o reforço do combate ao abuso sexual de crianças, que foi rejeitado;

Projeto de Resolução n.º 504/XV/1.ª (CH) — Proceda a um inquérito nacional de vitimação e assegure a criação de um canal permanente de denúncia de abusos sexuais, que foi rejeitado;

Projeto de Lei n.º 8/XV/1.ª (PAN) — Alarga os prazos de prescrição de crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual de menores e do crime de mutilação genital feminina, procedendo à alteração do Código Penal, que foi aprovado;

Projeto de Lei n.º 610/XV/1.ª (IL) — Aumenta o prazo de prescrição para denúncia de abuso sexual de menor, alterando o Código Penal, que, a requerimento apresentado pelo proponente, baixou à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, sem

votação, por 60 dias; Projeto de Lei n.º 611/XV/1.ª (BE) — Altera o Código

Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 400/82, de 23 de setembro, alargando o prazo prescricional dos crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual de menores e do crime de mutilação genital feminina sendo a vítima menor, que foi aprovado.

Usaram da palavra, a diverso título, os Deputados André Ventura (CH), Inês de Sousa Real (PAN), Patrícia Gilvaz (IL), Pedro Filipe Soares (BE), Fernando Negrão (PSD), Cláudia Santos (PS), Rui Tavares (L), Alma Rivera (PCP), Cristiana Ferreira (PSD), Isabel Alves Moreira (PS), Pedro dos Santos Frazão (CH), Sara Madruga da Costa (PSD), João Cotrim Figueiredo (IL), Filipe Melo (CH), Marta Temido (PS), Eurico Brilhante Dias (PS) e Pedro Pinto (CH).

Foi anunciada a entrada na Mesa da Proposta de Lei n.º 65/XV/1.ª, do Projeto de Deliberação n.º 11/XV/1.ª, dos Projetos de Resolução n.os 520 a 522, 524 a 526, 529 a 534 e 542/XV/1.ª e dos Projetos de Lei n.os 612 a 618, 620 a 625, 627 a 632 e 641/XV/1.ª

O Presidente encerrou a sessão eram 17 horas e 42 minutos.

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A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Muito boa tarde, Sr.as Deputadas e Srs. Deputados, Sr.as e

Srs. Funcionários, Sr.as e Srs. Jornalistas, Sr.as e Srs. Agentes da autoridade, está aberta a sessão.

Eram 15 horas e 5 minutos.

Peço o favor de abrirem as galerias ao público.

Temos quórum, pelo que estamos em condições de dar início à nossa sessão plenária, que consta de um

ponto único, seguido de votações.

No primeiro ponto, temos a fixação da ordem do dia, requerida pelo Chega, sobre o tema «Combate ao

abuso sexual de menores em Portugal»…

Pausa.

A Sr.ª Secretária da Mesa Maria da Luz Rosinha não me avisou de que tinha expediente para anunciar,

pois estava ao telefone, mas tem agora a palavra para o efeito.

A Sr.ª Secretária (Maria da Luz Rosinha): — As minhas desculpas, Sr.ª Presidente.

Muito boa tarde a todas e a todos, trata-se de um breve anúncio para informar a Câmara da retirada dos

Projetos de Resolução n.os 527/XV/1.ª e 528/XV/1.ª e dos Projetos de Lei n.os 633/XV/1.ª, 634/XV/1.ª,

635/XV/1.ª, 636/XV/1.ª, 637/XV/1.ª, 638/XV/1.ª e 639/XV/1.ª, todos do PSD.

É tudo, Sr.ª Presidente.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Agora sim, entramos na fixação da ordem do dia, requerida pelo

Chega, sobre o tema «Combate ao abuso sexual de menores em Portugal», com a discussão conjunta, na

generalidade, dos Projetos de Lei n.os 150/XV/1.ª (CH) — Impede a suspensão da execução da pena em caso

de condenação por crime de abuso sexual de crianças ou outros conexos, 600/XV/1.ª (CH) — Aumenta a

proteção das vítimas de abuso sexual de menores, para tanto alterando o Código Penal, 601/XV/1.ª (CH) —

Altera o Código Penal, agravando as penas aplicáveis aos crimes de abuso sexual de crianças e outros

conexos, bem como a apreciação dos Projetos de Resolução n.os 461/XV/1.ª (CH) — Recomenda ao Governo

o reforço do combate ao abuso sexual de crianças e 504/XV/1.ª (CH) — Proceda a um inquérito nacional de

vitimação e assegure a criação de um canal permanente de denúncia de abusos sexuais, juntamente com, na

generalidade, os Projetos de Lei n.os 8/XV/1.ª (PAN) — Alarga os prazos de prescrição de crimes contra a

liberdade e autodeterminação sexual de menores e do crime de mutilação genital feminina, procedendo à

alteração do Código Penal, 610/XV/1.ª (IL) — Aumenta o prazo de prescrição para denúncia de abuso sexual

de menor, alterando o Código Penal e 611/XV/1.ª (BE) — Altera o Código Penal, aprovado pelo Decreto-Lei

n.º 400/82, de 23 de setembro, alargando o prazo prescricional dos crimes contra a liberdade e

autodeterminação sexual de menores e do crime de mutilação genital feminina sendo a vítima menor.

Para apresentar as iniciativas do Chega, tem a palavra o Sr. Deputado André Martins.

O Sr. André Ventura (CH): — André Martins?! Esse não sou eu.

Pausa.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Sr.as e Srs. Deputados, agradeço que façam silêncio para que o

orador possa usar da palavra.

Faça favor, Sr. Deputado.

O Sr. André Ventura (CH): — Só para esclarecer, Sr.ª Presidente, o meu nome é André Ventura.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Sr. Deputado, desculpe… Não é o Sr. Deputado que vai fazer…

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O Sr. André Ventura (CH): — Sou sim, Sr.ª Presidente, só que a Sr.ª Presidente chamou ao púlpito da

Assembleia da República o Deputado André Martins, que não sei quem será…

Risos.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Ventura! Sr. Deputado André Ventura, peço imensa desculpa!

Tem a palavra, Sr. Deputado.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr.ª Presidente, Srs. Deputados: O debate que hoje temos deriva da

circunstância em que o País vive nos dias em que estamos. Passaram meses e anos em que Portugal viveu

meio a tentar esconder, meio a tentar ignorar, meio a tentar olhar para o lado, no âmbito do abuso sexual de

menores. Vários escândalos e vários casos foram alertando a alma nacional para um problema que era de

todos, a proteção das nossas crianças.

Desde o famoso caso do Ballet Rose, nos anos 60, passando pelo infame caso da Casa Pia de Lisboa,

com ramificações neste Parlamento, tivemos, no caso português, um escândalo ainda maior. Uns anos depois,

a Igreja Católica abriria o seu próprio período de autoavaliação com um relatório que certamente

envergonharia a todos, católicos e não católicos.

As nossas crianças têm de ser o nosso principal objeto de defesa. As nossas crianças têm de ser aquilo

que de mais importante temos para proteger num Estado de direito democrático. E meus amigos, Caros

Colegas, o Parlamento não tem protegido as crianças.

Ao permitirmos que agressores continuem em liberdade, ao permitirmos que apenas um número residual

de casos acabe em prisão efetiva, ao permitirmos que tantos tenham penas suspensas, não por culpa dos

juízes, não por culpa dos magistrados, mas por nossa tão grande culpa, neste Parlamento, devemos assumir a

nossa própria responsabilidade. E hoje é o dia de assumirmos essa própria responsabilidade.

Aplausos do CH.

Em dezembro, nesta Casa, o Chega defendeu o aumento dos prazos prescricionais para este tipo de

crime. O Partido Socialista e a extrema-esquerda opuseram-se. Uma grande parte da bancada do PSD opôs-

se. Mas depois de ouvirem a Comissão Independente, vários, curiosamente, começaram a aparecer pelas

televisões nacionais a dizer que, afinal, até concordam com o aumento dos prazos de prescrição.

Vários, alguns na bancada socialista, depois de um debate intenso em que diziam que não se justifica, que

não faz sentido, dizem agora que é algo que pode ser ponderado. Mais vale tarde do que nunca e hoje é o

momento de darmos um grande salto em frente e de garantirmos, de uma vez por todas, que estas vítimas são

efetivamente protegidas.

Hoje, ninguém terá desculpa para não votar. As propostas estão aqui e são muito claras.

O Parlamento debaterá se devemos, ou não, permitir que o prazo de prescrição comece apenas a contar

quando a vítima tiver já 35 anos. Agora, não há volta a dar. É uma escolha política, escusamos de encontrar

argumentos mais frágeis ou argumentos políticos. É o momento da decisão: vamos dar seguimento ao que o

relatório da Comissão Independente disse ou, mais uma vez, como fizemos no caso Casa Pia de Lisboa,

vamos fechar-nos sobre nós, ignorar o que se está a passar e proteger a pedofilia em Portugal.

Aplausos do CH.

Sr.ª Presidente e Srs. Deputados, o parecer do Conselho Superior de Magistratura é claro, também, neste

âmbito e neste domínio.

Não há um único parecer que tenhamos a obstaculizar severamente as iniciativas aqui em discussão, o

que significa que é única e exclusiva responsabilidade deste Parlamento querer agora, verdadeiramente,

tomar uma decisão sobre o futuro nesta matéria.

Temos sempre muitos motivos e muitas desculpas. Há uns dias, o País ficou, e bem, chocado, com casos

de centenas de menores violados às mãos de clérigos, de leigos e de outros. Há 20 anos, ficámos chocados

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como políticos, empresários, médicos abusaram de crianças, no caso Casa Pia de Lisboa. Há 70 ou há 60

anos, ficámos chocados com a forma como políticos, administradores de bancos e outros abusaram de

crianças, no caso Ballet Rose.

Sistemática e ciclicamente ficamos chocados, sistemática e ciclicamente optamos por não fazer nada. Este

não pode ser o papel do Parlamento, pois o seu papel tem de ser o de dizer à sociedade que enfrentaremos,

olhos nos olhos, este problema, sem medo do politicamente correto, com leis à medida daquilo de que

precisamos e de que as nossas crianças precisam.

Nenhuma tarefa mais sagrada teremos de enfrentar algum dia, nem nenhuma nos terá dado maior honra e

dignidade do que salvar das mãos dos pedófilos as nossas crianças. Este é o nosso objetivo, este é o nosso

valor, esta é a nossa ambição neste debate.

Aplausos do CH.

Quando este debate terminar, Sr.ª Presidente, teremos, ou não, aprovado um pacote legislativo não só no

seguimento do que defendeu a Comissão Independente, mas também daquilo que o País verdadeiramente

quer ver tratado neste Parlamento.

Bem sabemos que alguns se apressaram a criar grupos de trabalho e a avançar com iniciativas, apenas

para esconder e atirar poeira, mais uma vez, para os olhos dos portugueses. Meus amigos, os portugueses

não querem mais grupos de trabalho para esconder o problema, os portugueses não querem mais palavras

bonitas do direito europeu, os portugueses não querem mais conversa. Os portugueses querem, por uma vez

na vida, que este Parlamento decida pôr na prisão aqueles que nunca de lá deveriam ter saído.

Aplausos do CH.

É isso que os portugueses querem deste Parlamento.

Vamos deixar de dizer que os juízes são os culpados, vamos deixar de dizer que os magistrados são os

culpados, vamos deixar de dizer que a culpa está na polícia e na falta de formação dos polícias. Vamos, por

uma vez na vida, reconhecer que o problema está aqui dentro, entre nós, e que só nos cabe a nós resolvê-lo,

porque foi a nós que o povo soberano confiou esta enorme missão de defender as crianças. E se não o

fizermos hoje, vergonha, vergonha tremenda de nós que falhámos ao nosso papel.

Aplausos do CH, de pé.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Para apresentar o Projeto de Lei n.º 8/XV/1.ª,, do PAN, tem a palavra

a Sr.ª Deputada Inês de Sousa Real.

A Sr.ª Inês de Sousa Real (PAN): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Este não é um debate para

populismos. Nenhum debate o é, mas este muito menos. Para o debate sério, o PAN esteve, está e estará

sempre disponível.

O Sr. Bruno Nunes (CH): — Hipocrisia!

A Sr.ª Inês de Sousa Real (PAN): — Conhecemos os dados que o trabalho da Comissão Independente

para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja nos mostram. São esmagadores e devem envergonhar-nos

profundamente, principalmente sabendo que as crianças ou jovens que foram e são vítimas deste tipo de

abusos apenas denunciam os crimes e procuram ajuda, no mínimo, 20 anos após o abuso, com todo o efeito

devastador que isso teve nas várias dimensões da sua vida e também com a ocultação que ao longo dos anos

se tem vindo a permitir na nossa sociedade e, em particular, agora, no caso da Igreja.

Mesmo sabendo isso, temos ainda uma lei que despoja a vítima da possibilidade de pedir justiça muito

antes de estar preparada emocionalmente, e que, por isso mesmo, beneficia claramente quem abusa.

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O PAN há muito que tem vindo a lutar pelo alargamento dos prazos de prescrição destes crimes e tem

vindo a esbarrar recorrentemente no conservadorismo do PS, do PSD e do PCP que, ainda na Legislatura

passada, rejeitaram uma proposta do PAN nesse mesmo sentido.

Perante os quase 5000 casos que agora consternaram a sociedade, é positivo que, finalmente, haja

abertura para viabilizar este tipo de iniciativas e para acompanhar estas alterações. É preciso, sem dúvida

nenhuma, promover a mudança efetiva da lei e foi por isso que o PAN apresentou uma nova iniciativa;

inicialmente, com uma data de previsão até aos 45 anos, mas tendo em conta o relatório da Comissão

Independente alterámos o nosso texto, precisamente para que acompanhemos os 30 anos propostos,

considerando o consenso social que essas mesmas propostas têm merecido.

É preciso criar também mecanismos de compensação às vítimas. Não basta pedir perdão, não basta dizer

que a lei tem de ser alterada, a reparação também tem de ter um mecanismo de compensação e, por isso

mesmo, demos entrada de uma iniciativa que visa criar estes mecanismos.

Os casos agora revelados são apenas a ponta do iceberg. É necessária uma análise profunda, um debate

alargado à sociedade civil e é por isso mesmo que o PAN integra também a iniciativa conjunta com as demais

forças políticas para que seja criado um grupo de trabalho e, de forma séria e sensata, possam ser

concretizadas medidas de prevenção e combate aos crimes sexuais, em particular de menores.

A violação dos direitos das crianças e jovens não pode ser respondida com subserviência, inércia e

encobrimentos. Estas situações pedem intervenção urgente, Sr.as e Srs. Deputados, pedem uma revisão de

laços, pedem reparação e prevenção, não pedem populismos.

Aplausos do L.

O Sr. Bruno Nunes (CH): — Populismo foi o que acabou de fazer!

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Para apresentar o Projeto de Lei n.º 610/XV/1.ª, da Iniciativa Liberal,

tem a palavra a Sr.ª Deputada Patrícia Gilvaz.

A Sr.ª Patrícia Gilvaz (IL): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O relatório final da Comissão

Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa contém

conclusões absolutamente aterradoras que nos repugnam a todos. Esta Comissão fez um trabalho

independente, célere e abrangente que não nos merece qualquer reparo.

A natureza dos relatos, o detalhe e a objetividade da análise, bem como a caracterização deste fenómeno,

são um murro no estômago para qualquer pessoa que o leia com atenção. É revoltante que estes

acontecimentos se passem no seio de uma instituição vista pelos seus crentes como orientadora da sua

espiritualidade e como protetora dos mais fracos. E é ainda mais revoltante a inércia da sua atuação.

Lê-se no relatório que alguns abusadores, para justificarem o abuso, recorriam à invocação verbal do que

surgia como um desígnio divino e a consequente necessidade de o mesmo ter de ser cumprido. Esta realidade

é particularmente perturbadora pela inocência das crianças, indefesas, que não saberiam como defender-se

destes abusos. O abuso do poder e do domínio que se tem sobre uma criança branqueado pelo perdão da

confissão é uma tremenda humilhação e cobardia.

O Sr. Rodrigo Saraiva (IL): — Muito bem!

A Sr.ª Patrícia Gilvaz (IL): — Crimes branqueados durante anos e anos, crimes impunes durante anos e

anos, principalmente porque as circunstâncias concretas desta realidade acabam por beneficiar os

abusadores. Uma dessas circunstâncias é o facto de as vítimas apenas denunciarem estes crimes já muito

tarde na sua vida adulta, mantendo o silêncio durante demasiado tempo.

Aplausos do Deputado da IL Rodrigo Saraiva.

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Podemos ler no relatório: «Habitualmente, são as vítimas a iniciar o silenciamento, por sentimentos de

medo, vergonha e culpa. Os que revelam as situações são uma expressiva minoria. Quando o fazem, não

existem quadros anteriores típicos, e concretizam-no junto de pessoas próximas».

Não podemos ignorar que, em muitos casos, a primeira vez que as vítimas falaram sobre o sucedido foi

nestas entrevistas, realizadas no âmbito da Comissão. Infelizmente, nestes casos, o silêncio dos inocentes é

uma realidade, uma realidade que perpetua estes abusos.

Por isso, deixo uma palavra de coragem para todas e todos aqueles que se libertaram e falaram. Por eles,

por quem já foi abusado e para que este fenómeno deixe de ser uma realidade, hoje, a Iniciativa Liberal

apresenta um projeto de lei que, em concreto, aumenta o prazo para que as vítimas possam denunciar estes

crimes, permitindo que o procedimento criminal não se extinga antes de as vítimas completarem 40 anos.

«E porquê?», perguntam os Srs. Deputados. Sabemos que a média da idade atual daqueles que

testemunharam a propósito dos abusos é de 52 anos. Sabemos que 77 % das vítimas nunca apresentaram

queixa a pessoas ou estruturas da própria Igreja e que só 4 % formalizaram a queixa em tribunal.

Sabendo que estes crimes ocorrem maioritariamente no seio familiar ou pessoal e sabendo que, hoje em

dia, os jovens saem cada vez mais tarde de casa dos pais, prolongando situações de dependência emocional

e financeira, propomos esta alteração do prazo especial de prescrição previsto para estes crimes.

Não posso deixar de referir que a reação da Conferência Episcopal Portuguesa, na passada sexta-feira,

ficou muito aquém das recomendações da Comissão Independente e completamente alheada da resposta que

deve ser dada. Não se focou na prevenção e não se focou nas vítimas.

A prioridade absoluta da Igreja deveria ser responder-lhes, compensá-las, repará-las, e essa deveria ser a

mensagem principal e inequívoca, mas não foi isso que fizeram.

Aplausos da IL e do L.

Já o poderíamos imaginar, mas o relatório concretiza que «os depoimentos testemunham o clima

emocional de terror, de uma verdadeira atitude de “banalidade do mal”». É com isto que a Igreja não pode

compactuar mais e é da sua responsabilidade corrigi-lo para o futuro, já que o passado ninguém pode apagar.

Aplausos da IL.

Não se compreende porque é que a Igreja não foi clara nem afastou os padres sinalizados, mas não

podemos deixar de saudar que algumas dioceses o tenham feito, como as de Angra do Heroísmo e Évora.

Sendo este crime de evidente continuidade, as medidas de prevenção são justificadas e devem ser

implementadas. A prioridade, nestes casos, deve ser claramente a proteção das vítimas e das potenciais

vítimas.

Não se pode tolerar a possibilidade de abuso por inércia e demora no afastamento dos abusadores. As

medidas preventivas visam precisamente prevenir que certos perigos se concretizem e, neste caso, tendo em

conta a sua continuidade no tempo e o seu grau de encobrimento, temos de ir mais longe.

Atentemos em algumas das recomendações da Comissão Independente: controlo dos antecedentes

criminais dos membros da Igreja que atuem junto de crianças; assegurar o afastamento físico entre o padre e

a criança, sobretudo durante a confissão; formação sobre o tema da sexualidade, em geral, e dos seus

aspetos fundadores na infância e adolescência; uma saudável abordagem destes temas junto de crianças e

adolescentes, no contexto e formas adequados, em ampla articulação e com total conhecimento das famílias;

informação sobre as diversas formas que constituem abuso sexual de crianças; atitudes-padrão de

abusadores; o empoderamento da criança enquanto agente ativo na sua própria defesa; e tantas outras.

Tudo isto vem em linha com o que a Iniciativa Liberal sempre defendeu: a educação sexual nas escolas é

fundamental e o seu reforço nestas matérias é necessário. Mas também os mecanismos judiciais que

permitem a proteção de menores dos agressores devem ser céleres na aplicação de medidas de proteção de

contacto e acompanhamento psicológico.

Não podemos deixar de assinalar que outra das recomendações da comissão independente é o aumento

da idade do ofendido, antes da qual o procedimento criminal não se extingue por efeitos de prescrição, que

acolhemos com a proposta que apresentamos.

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Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, a revelação da dura realidade sobre abusos sexuais de menores

convoca-nos para a necessidade de maior ação. Ação em relação às vítimas passadas e em relação às

vítimas futuras; ação na prevenção e na consagração de alterações legislativas que permitam que as vítimas

possam exercer os seus direitos daqui para a frente; ação na reparação, pois estes abusos criam marcas que

nunca mais se apagarão e, por isso, qualquer reparação ficará sempre muito aquém do dano sofrido.

Temos de fazer justiça por estas vítimas. Tem de existir uma reparação, que não pode ser apenas moral,

espiritual ou simbólica.

Uma indemnização não é uma ofensa. A posição da Igreja quanto a esta matéria não pode ser de

indiferença e de afastamento. Se os abusos relatados ocorreram no seio desta instituição e se houve

encobrimento, a Igreja deve participar na indemnização das vítimas, que é a única forma razoável e possível

de almejar alguma reparação daquilo que estas sofreram.

Aplausos do L.

Finalmente, em nome das vítimas, fica uma mensagem muito clara: as pessoas têm de ser

responsabilizadas pelos seus atos e, para isso, não basta ter fé, há que ter consequências.

Aplausos da IL.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — A Sr.ª Deputada tem um pedido de esclarecimento e para o formular

tem a palavra o Sr. Deputado André Ventura.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr.ª Presidente, Sr.ª Deputada Patrícia Gilvaz, na discussão que aqui

tivemos, em dezembro, a Sr.ª Deputada disse, e cito: «A dilatação e a suspensão dos prazos de prescrição

não pode ser encarada como uma linha de atuação e como o primeiro recurso da política criminal de um

sistema judicial lento, sob pena de essa lentidão se arrastar ainda mais, com o alargamento dos prazos

máximos de prescrição.»

Satisfeito fico que tenha repensado essa perspetiva em relação a crimes tão graves como os que aqui

temos e que hoje haja um consenso nesta Casa. Bom, já vamos ver se o PS voltou a esse consenso, depois

de ter dito, em dezembro, que não o tinha — e o próprio PSD também —, mas ficamos felizes que a Iniciativa

Liberal reconheça esse consenso e essa importância depois do relatório da Comissão Independente.

Sr.ª Deputada, quase metade dos casos de abusos sexuais de menores são arquivados. Nem estamos

ainda na condenação, estamos no arquivamento. Quase metade são arquivados.

Quase metade dos condenados, ou melhor, mais de metade dos condenados têm pena suspensa.

Agora, faça as contas a estas duas realidades, em que metade dos casos são arquivados e quase metade

dos condenados ficam em pena suspensa.

A Sr.ª Mónica Quintela (PSD): — E quem é que aplica a lei?

O Sr. André Ventura (CH): — Sr.ª Deputada Mónica Quintela, sei que gosta de criticar os juízes. Estará à

vontade para o fazer, mas nós achamos que os políticos é que têm aqui a responsabilidade. A Sr.ª Deputada

acha que são os juízes, nós achamos que são os políticos, que não fizeram o seu trabalho. Mas já teremos

oportunidade de debater, no seu tempo.

Protestos do Deputado do PS Pedro Delgado Alves.

O Sr. Deputado Pedro Delgado Alves também já terá tempo de falar, no seu momento.

Sr.ª Deputada Patrícia Gilvaz, já que reviu esse consenso, pergunto-lhe se também concorda com o

Chega, no projeto que apresenta, de impedir para uma grande parte destes crimes as penas suspensas e a

suspensão da sua execução. Ou seja, pergunto se a Iniciativa Liberal concorda que há ou não, neste

momento, um problema real com as penas suspensas nesta matéria de crimes, que não ajuda nem à

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prevenção nem à ressocialização ou à consciência social de que este é um crime grave e que deve ser,

efetivamente, combatido.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Claro!

O Sr. André Ventura (CH): — Portanto, a pergunta que lhe faço é esta: qual será a posição da Iniciativa

Liberal na proposta do Chega, que visa impedir a suspensão ou as penas suspensas numa série de crimes

como este?

Aplausos do CH.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Para responder, tem a palavra a Sr.ª Deputada Patrícia Gilvaz.

A Sr.ª Patrícia Gilvaz (IL): — Sr.ª Presidente, Sr. Deputado, efetivamente, revimos a nossa posição após

as informações e os dados concretos que vieram no relatório e, por isso mesmo, fizemos um projeto de lei que

revisse precisamente o prazo de prescrição quanto a estes crimes.

Relativamente ao projeto de lei sobre o qual o Sr. Deputado pergunta, não nos revemos totalmente naquilo

que afirma. Não concordamos com a suspensão da execução da pena porque, para isso, teríamos de rever a

harmonia total do direito penal, e isso o partido do Sr. Deputado não fez.

A faculdade está no juiz e, por isso, não poderemos acompanhar, mas acompanharemos naturalmente o

aumento do prazo de prescrição.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Para apresentar o Projeto de Lei n.º 611/XV/1.ª, do Bloco de

Esquerda, tem a palavra o Sr. Deputado Pedro Filipe Soares.

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: A Comissão Independente

para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa expôs uma realidade hedionda,

um conjunto de crimes que nos deixaram a todos enojados e que devem merecer o sobressalto cívico desta

Assembleia da República e do País.

A essa Comissão devo, em primeiro lugar, dizer que temos todo o respeito pelo trabalho que fizeram, pela

seriedade com que trataram as vítimas e os crimes que sobre elas foram perpetrados e pela sensibilidade que

tiveram ao lidar com um tema tão difícil e tão complicado, mas também pela coragem que tiveram em levar por

diante o seu mandato. Esse respeito é também um agradecimento, portanto, que creio que lhes deve ser

reconhecido no espaço democrático.

Dessa Comissão surgiu um conjunto de indicações, em primeiro lugar à própria Igreja Católica. Se o País

ficou chocado com o que aconteceu no seio da Igreja Católica, e que foi exposto, por todos os crimes e por

todos os abusos que foram denunciados, creio que ficou também chocado com a reação da Igreja Católica a

todas as declarações e a todas as denúncias no relatório da Comissão Independente.

Há três propostas da Comissão Independente à Igreja que queria realçar. A primeira é a de uma nova

comissão, para dar continuidade a este processo, a este trabalho. E essa foi, curiosamente, a única das

recomendações que, aparentemente — aparentemente, porque ainda não vimos nenhum passo nesse sentido

—, terá sido aceite, por enquanto.

A segunda recomendação é a do reconhecimento pela Igreja da existência e extensão do problema e o

compromisso com a sua adequada prevenção futura. E creio que vergonha foi o que a Igreja respondeu,

perante esta recomendação.

Quando se fala do reconhecimento da existência e da extensão do problema, o que tivemos por parte da

Igreja Católica foi, em primeiro lugar, uma tentativa de negar a extensão do problema e uma tentativa de negar

a existência das pessoas que criaram o problema, que são estes abusadores de crianças.

O Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, referia o conjunto de abusadores que foram indicados

à Igreja Católica como uma lista de nomes sem qualquer tipo de acusação e à qual não conseguiriam dar

nenhuma sequência.

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Por isso, a recomendação do reconhecimento da existência e da extensão do problema começa pela

incompreensão da recomendação, logo no mais óbvio e mais puro dos seus sentidos: suspender todos os

padres que estejam sob suspeita de ter cometido algum abuso sobre crianças. Não é eliminar o princípio da

presunção da inocência, é proteger o maior bem em cima da mesa, que é a defesa intransigente do direito das

crianças.

O Sr. André Ventura (CH): — Estamos totalmente de acordo!

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — E a suspensão, curiosamente, foi a tal lista de nomes que o Cardeal-

Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, usou para não fazer absolutamente nada.

Por isso, Sr. Deputado André Ventura, quando diz que os culpados somos todos nós, há uns muito mais

culpados do que outros. É curioso como na sua declaração não teve uma única palavra sobre a suspensão de

padres — uma única! —, aqueles que são quem abusou das crianças, quem está suspeito dessa realidade e

quem deveria merecer, da parte da Igreja Católica, a primeira e a mais exigente voz a dizer «suspenda-se o

seu trabalho, garanta-se a proteção das crianças, investigue-se e retirem-se daí conclusões».

A Sr.ª Joana Mortágua (BE): — Muito bem!

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Vergonha, Sr. Deputado, é vir aqui à tribuna e não ter coragem de dizer

o mais óbvio, que a Igreja Católica falhou no passado e está a falhar no presente.

Aplausos do BE.

O Sr. Bruno Nunes (CH): — Já foi dito!

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Uma outra recomendação — e esta até dentro dos cânones da Igreja

— é o cumprimento do conceito de «tolerância zero», proposto pelo Papa Francisco.

Pergunto: onde fica a tal tolerância zero, quando se duvida da tal lista de nomes, quando não se leva por

diante a suspensão de padres e quando se tenta colocar em causa o trabalho da Comissão Independente?

É que isto é negar as recomendações da própria comissão, mas é isto que atualmente está a fazer a Igreja

Católica.

Já foi referido que não serão todos iguais. As dioceses são diferentes, haverá casos diferentes e há

reações diferentes no seio da Igreja, mas a Igreja é una, é única e, enquanto órgão dirigente, está a falhar,

porque não está a assumir as suas únicas responsabilidades na defesa das crianças.

Sobre um tema tão simples e tão direto, de saber se a Igreja está disponível para pagar indemnizações a

estas vítimas, D. José Ornelas teve uma tirada que é lamentável. Disse ele: «Não vou pôr um preço ao

sofrimento.»

D. Manuel Clemente disse que as indemnizações seriam insultuosas para as vítimas. Mas, então, e a Igreja

Católica na Irlanda, em França, nos Estados Unidos, na Alemanha, no Chile, na Austrália, que indemnizou as

vítimas de abusos sexuais? A Igreja Católica portuguesa é diferente? Vive à margem dessa obrigação? Não

tem essa consciência moral? Percebemos: a referência moral, pelo menos, parece que deixou cair, e essa é

inequívoca.

Por isso, não é por acaso que o Bloco de Esquerda traz a este debate a proposta da Comissão

Independente para a revisão dos prazos de prescrição. Fazemo-lo não correndo atrás de um qualquer ímpeto

populista, mas tendo reconhecido anteriormente que era necessário rever os prazos de prescrição e tendo

esperado pelo trabalho da Comissão para garantir uma proposta que fosse sensata, que fosse justa, que não

fosse uma corrida para ver quem é que apresentava mais, mas que tivesse uma garantia de idoneidade, e é

por isso que trazemos a este debate exatamente a mesma proposta que a Comissão Independente propôs.

Mas fazemo-lo também conscientes de que o Estado deve proteger as crianças também pela informação

que lhes passa, pela educação sexual que, adequada às suas idades, se dá nas escolas. E é curioso como

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nós vimos na Igreja Católica, mas também partidos aqui na Assembleia da República, chamar à educação

sexual nas escolas «ideologia de género».

A Sr.ª Rita Matias (CH): — É o que é!

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Tão iguais que eles são! Tão iguais que eles são!

Aplausos do BE e de Deputados do PS.

Os mesmos padres que não querem defender as crianças e os mesmos que aqui, falsamente, dizem que

as defendem.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Que vergonha o que está a dizer!

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Quem nas escolas dá educação para a cidadania, quem nas escolas…

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Tenha vergonha!

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Vergonha tenha o Sr. Deputado! Vergonha tenha o Sr. Deputado!

Aprenda, aprenda: quem nas escolas dá educação para a cidadania…

Protestos do CH.

Sr.ª Presidente, se quiser suspender os trabalhos para o Chega se acalmar, por mim, está à vontade.

Vozes doCH: — Acalmar?!

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Faça favor de continuar, Sr. Deputado.

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — A quem nas escolas tem contacto com as crianças é exigido um registo

criminal que atesta a sua capacidade para trabalhar com menores. É assim na Igreja? Não é.

Quem nas escolas informa as crianças dos seus direitos sobre si próprios, sobre o seu corpo, sobre o que

não lhes podem fazer é quem as defende, não é quem as ataca. E quem nega essa proteção é quem, de

facto, está ao lado dos abusadores.

Aplausos do BE, do PS e do L.

Protestos do CH.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr.ª Presidente, peço a palavra.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — O Sr. Deputado André Ventura pede a palavra para que efeito?

O Sr. André Ventura (CH): — Sr.ª Presidente, pedindo desculpa a si e também ao Sr. Deputado Pedro

Filipe Soares, porque não me inscrevi a tempo, gostaria de saber se posso fazer um pedido de

esclarecimento.

Não fui a tempo e, se não for possível, não haverá problema, mas deixo ao critério do Sr. Deputado.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — As inscrições para pedidos de esclarecimento devem ser feitas

durante a intervenção do orador.

Tem a palavra o Sr.ª Deputado Pedro Filipe Soares.

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O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Sr.ª Presidente, da nossa parte, tudo bem e até aceitaria o tempo que o

Chega me desse para a resposta, dado que tem uma imensidão de tempo. Assim, poderia organizar a

resposta com a profundidade, o que, creio, o Deputado André Ventura quererá. Por isso, se me ceder 2

minutos para essa resposta, aceitarei.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Srs. Deputados, vamos seguir o Regimento, portanto não há pedidos

de esclarecimento.

Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Fernando Negrão.

O Sr. Fernando Negrão (PSD): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O conjunto de iniciativas

legislativas postas hoje e agora em discussão plenária têm como ponto comum e exclusivo a perspetiva

securitária no que aos abusos sexuais praticados contra menores diz respeito, partindo do valioso trabalho

levado a cabo pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja

Católica.

Todas elas são exequíveis e sem dificuldade de maior se podem aumentar as penas, alterar a idade das

vítimas para efeitos de prescrição, promover inquéritos, criar meios de denúncia ou impedir a suspensão da

execução de uma pena.

Importa, contudo, ter em conta que o Código Penal se constitui como uma unidade, no sentido em que é

construído para responder, em determinado momento histórico, aos anseios das populações, aos problemas

concretos da vida em toda a sua amplitude, em dar-lhe a possibilidade de perdurar no tempo e, assim,

evitando desestabilização, desequilíbrio e ausência de segurança jurídica.

O cidadão deve ter uma relação com as suas leis penais de modo a não ser surpreendido, ou seja, de

modo a que tenha uma ideia do que lhe possa acontecer se levar a cabo determinada conduta que ele sabe

poder constituir um crime e evitar vir a ser punido com uma pena inesperada ou desproporcionada.

Não resulta daquilo que acabo de dizer que Código Penal aprovado, Código Penal para sempre.

Bem sabemos de muitas alterações penais produzidas por iniciativas de várias origens, através do órgão

próprio, que é esta Casa, e, principalmente, feitas após reflexão profunda acerca das razões das alterações

propostas, da sua real necessidade, da técnica legística mais adequada e do momento mais certeiro para a

sua entrada em vigor.

Aplausos do PSD.

Toda esta transformação deverá ser sempre acompanhada pelo cidadão, de modo a que interiorize as

alterações, as respetivas razões e, querendo, dar o seu contributo para esse efeito.

À semelhança do equilíbrio sempre instável entre a liberdade e a segurança, a alteração dos principais

Códigos deve saber esperar pelo momento mais adequado para a sua alteração, que é aquele que

corresponde à aceitação dos destinatários, que somos todos nós. Ou seja, é necessário fazer o equilíbrio entre

o tempo de vigência daquilo que se pretende alterar e o tempo da entrada em vigor das alterações que se

pretendem introduzir. Estas são as regras do sistema penal no mundo democrático.

Cito o Dr. Laborinho Lúcio, figura maior da justiça: «O Estado de direito é um estado com mãos largas, que

deixa fugir por entre os dedos várias situações que gostaríamos de ver punidas, mas que não podemos.

Porque há regras e a alternativa a isto é muitíssimo pior: é tornar sistémico um sistema autocrático, totalitário,

em que em nome de uma qualquer ideia de moralidade púbica desatamos a punir toda a gente sem quaisquer

garantias».

Aplausos do PSD e de Deputados do PS.

Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Não podendo deixar de ser dito, a Igreja Católica, apesar de várias

reportagens nos media, de declarações por vezes caóticas e contraditórias de alguns bispos e do apelo papal

no sentido da tolerância zero no que respeita a abusos sexuais praticados contra menores no seu âmbito, só

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recentemente decidiu constituir a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra Crianças

na Igreja Católica.

Mais valendo tarde que nunca, foi a mesma constituída formalmente, integrando figuras da nossa

sociedade, representando o melhor que temos em saber, seriedade e credibilidade.

Apesar disso, continuaram a ouvir-se comentários acerca da velha fama das comissões, nomeadamente

que tarde ou nunca acabam os seus trabalhos e, se acabam, já ninguém se recordará das razões que levaram

ao seu tardio resultado.

Com esta Comissão, criada por iniciativa da Igreja, repito, aconteceu precisamente o contrário, ou seja, o

prazo proposto de um ano, foi, de facto, de um ano, as diligências levadas a cabo foram de enorme

profundidade e os resultados obtidos estão fundamentados com o maior cuidado.

O seu trabalho foi aplaudido por todos os setores do País, incluindo a própria Igreja. A expectativa acerca

do que fazer com esses resultados era e é grande.

Esta é uma oportunidade que todos, principalmente a hierarquia da Igreja, terá a obrigação de agarrar com

veemência, tomando medidas claras e fortes no sentido de ser percebida a existência de vontade real para

apoiar as vítimas, de começar a afastar os agressores e, assim, fazer mudar a imagem da Igreja de modo a

recuperar a confiança, o prestígio e o respeito à Igreja e aos seus membros.

A Comissão deu conta ao Ministério Público das situações em que detetou indícios consistentes de

natureza criminal, reuniu com os membros do Governo competentes em razão da matéria e entregou e

conversou com a Igreja, dando-lhe conta do conteúdo do relatório final da Comissão.

A Igreja, infelizmente, manteve-se silenciosa, transmitindo a ideia de que, provavelmente, nada faria. Bem

sabemos que nem ela, nem a Comissão são tribunais, mas todos sabemos que existem comportamentos que

devem ser objeto de medidas preventivas por parte das instituições onde aconteceram.

Os factos em causa — crimes sexuais contra menores — são suficientemente graves para exigirem uma

resposta assertiva, determinada e eficaz. Tal não sucedeu, ou tal ainda não aconteceu.

Este é o momento da Igreja Católica, o momento em que a sua hierarquia deverá ter o aconselhamento

dos seus melhores, o momento em que deve tomar medidas como sinais de que os comportamentos de

abusos a crianças devem, como diz o Papa Francisco, ser objeto de grande transparência na sua vigilância e

de tolerância zero na sua reparação e castigo. Acreditamos que assim venha a acontecer.

Se assim não for, é porque a Igreja Católica não percebeu ainda o risco que corre pela não adaptação aos

novos tempos, nos quais, deste modo, não conseguirá repetir o que de bom deu à cultura ocidental,

designadamente em termos de identidade e valores, por não ter querido repensar a distorção comportamental

causada de motu proprio a esses valores.

Por isso, é urgente a ação. E a ação passa pelo exemplo e este pela exigência de começar a castigar os

agressores, primeiro afastando-os, através de medidas administrativas cautelares, depois, e com celeridade,

iniciar o respetivo processo com o óbvio exercício do contraditório.

A hierarquia da Igreja Católica não pode deixar-se paralisar por divisões internas, fazendo o seu povo

assistir a declarações contraditórias e divergentes dos seus bispos e, assim, contribuindo, ela própria, para a

desvalorização do trabalho competentemente realizado pela Comissão que ela própria criou.

Aplausos do PSD.

Só agindo com urgência, a Igreja Católica voltará a ser exemplo. E exemplo também para instituições

sociais, associações ligadas ao apoio às crianças e aos jovens, aos espaços fechados como lares, hospitais

psiquiátricos ou estabelecimentos prisionais.

Não podendo deixar de se falar na família, uma vez que é no seu seio que ocorre a maioria dos abusos de

natureza sexual e que a sociedade sempre silenciou em nome de razões incompreensíveis e com

consequências nefastas e, muitas vezes, irreversíveis.

Não agindo, não julgue a Igreja que é também por acontecer noutros locais, e são muitos, que a sua

responsabilidade se dissipará.

A sua longa existência, a sua influência no mundo em aspetos espirituais, religiosos, morais, políticos e

socioculturais dá solidez e esperança de longa vida, mas, ao mesmo tempo, foi sendo dada cada vez mais

responsabilidade e sentido de urgência num mundo novo que se move a velocidade difícil de acompanhar.

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Terminando, entre ontem e hoje surgiram alguns avanços positivos, mas ainda notoriamente insuficientes.

Deve, por isso, a hierarquia da Igreja, por tudo o que fica dito, assumir as suas responsabilidades, com

equilíbrio e urgência, sob pena de, não o fazendo, desiludir os seus crentes e afastar os que nela se abrigam

nos momentos mais difíceis das suas vidas.

Aplausos do PSD.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Inscreveu-se para formular um pedido de esclarecimento o Sr.

Deputado André Ventura, a quem dou a palavra.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr.ª Presidente, Sr. Deputado Fernando Negrão, saúdo a sua intervenção.

Mas o Sr. Deputado compreenderá que, depois de uma longa intervenção sobre o papel da Igreja Católica no

cristianismo ocidental e a sua importância na construção das instituições europeias e da moralidade pública

atual, os portugueses têm de perguntar: «E agora?»

No fundo, o que o Sr. Deputado disse foi: «Era importante que a Igreja fizesse o seu trabalho, era

importante que o relatório da Igreja fosse mais longe.» Tudo certo! E nós, Sr. Deputado? E nós?

Ontem, ouvi o líder do PSD dizer que agora concorda com o aumento do prazo de prescrição para este tipo

de crimes. Que eu saiba, não há dois PSD, há um. É o que diz o seu líder, e que penso que este Parlamento

acompanhará.

Protestos do Deputado do PSD Fernando Negrão.

Por isso, é legítimo que lhe pergunte se o PSD vai ou não — conforme disse ontem Luís Montenegro —

acompanhar o aumento do prazo de prescrição destes crimes. Sr. Deputado, não basta dizermos que a Igreja

devia fazer isto e aquilo — tudo certo, estamos todos de acordo. Aliás, foi o Chega o primeiro a chamar a

cúpula da Igreja ao Parlamento.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Exatamente, muito bem!

O Sr. André Ventura (CH): — Não foi nenhum outro partido, foi o Chega. O primeiro partido a chamar a

cúpula da Igreja ao Parlamento foi o Chega!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Exatamente!

O Sr. André Ventura (CH): — Mas acha que é isso que os portugueses estão à espera que nós façamos,

ou seja, chamar bispos e cardeais aqui ao Parlamento? Temos de ir muito mais longe.

Pergunto: está ou não o PSD de acordo, como disse ontem Luís Montenegro, de que é tempo de mudar a

lei em matéria de prescrição destes crimes? Vai ou não o PSD mudar a posição que teve em dezembro para

acautelar aquilo que ontem mesmo ouvi do Presidente do PSD, Luís Montenegro?

Aplausos do CH.

Protestos do PSD.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Para responder, tem a palavra o Sr. Deputado Fernando Negrão.

O Sr. Fernando Negrão (PSD): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Sr. Deputado André Ventura, o

Sr. Deputado gosta muito de invocar o povo português, como parecendo até que o representa. Mas o que eu

acho das suas perguntas é que o senhor representa só aqueles que são militantes do seu partido.

Aplausos do PSD.

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Protestos do CH.

Isto é o costume, Sr.ª Presidente…

Protestos do Deputado do CH André Ventura.

Continua…

O Sr. André Ventura (CH): — É o mesmo modelo de militância!

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Srs. Deputados, estou farta de dizer que os apartes são regimentais,

mas o ruído não é aparte.

Portanto, agradeço que criem condições para que todos os oradores se possam exprimir.

Tem a palavra, Sr. Deputado Fernando Negrão.

O Sr. Fernando Negrão (PSD): — Muito obrigado, Sr.ª Presidente.

Por isso, Sr. Deputado André Ventura, quero dizer-lhe que não tomo a sua pergunta como uma pergunta

feita como reflexo daquilo que sente a população portuguesa, obviamente que não.

Quero dizer-lhe ainda que, relativamente às declarações do líder do PSD, Dr. Luís Montenegro, o que ele

disse foi que precisávamos de refletir sobre as medidas em causa.

Protestos do Deputado do CH André Ventura.

Não faça esses gestos, que lhe ficam mal. Não é gritando nem fazendo esses gestos que o senhor

consegue os tais milhares de militantes que pretende. Assim não chega lá. Tem de ter mais calma,

Sr. Deputado André Ventura. Tem de ter mais calma.

Protestos do CH e contraprotestos do PSD.

Quero dizer-lhe ainda, Sr. Deputado André Ventura, que nem devia responder à sua pergunta. Sabe

porquê? O senhor está sempre a criticar os Deputados, aliás, cada Deputado que faz uma intervenção o

senhor decide fazer-lhe uma pergunta, sempre a mesma.

Protestos do Deputado do CH André Ventura.

É sempre a mesma pergunta!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Só se nos der um grupo de trabalho!

O Sr. Fernando Negrão (PSD): — O Sr. Deputado não sabe o que é que tem feito. O Sr. Deputado, hoje,

deu entrada na Comissão de um requerimento — que já foi distribuído a todos, é por isso que eu sei — em

que pede a constituição de um grupo de trabalho. Então como é?!

Aplausos do PSD.

Então, mas porque é que critica os outros partidos por terem feito isso, quando o senhor veio fazer

rigorosamente o mesmo?

Vozes do PSD: — Muito bem!

O Sr. Fernando Negrão (PSD): — É incompreensível, Sr. Deputado André Ventura. É incompreensível!

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O Sr. André Ventura (CH): — É incompreensível, é!

O Sr. Fernando Negrão (PSD): — E está a concordar comigo. Está a ver como está a concordar comigo?

Risos de Deputados do PSD.

Portanto, queria dizer-lhe isso mesmo. O senhor está a concordar comigo, folgo por isso. E digo-lhe, Sr.

Deputado André Ventura, que o seu requerimento, à semelhança do requerimento anterior, será discutido na

próxima reunião da Comissão.

Aplausos do PSD.

Protestos do CH.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Para uma intervenção, tem a palavra a Sr.ª Deputada Cláudia Santos,

do Grupo Parlamentar do PS.

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Vamos falar sobre vítimas de

crimes sexuais contra crianças e o assunto exige-nos todo o respeito e toda a contenção.

As crianças vítimas de crimes sexuais são instrumentalizadas por adultos que se aproveitam da sua

vulnerabilidade. Aquilo que hoje temos o dever de evitar é que voltem a ser instrumentalizadas para a

obtenção de ganhos políticos.

Aplausos do PS, do L e de Deputados do BE.

Temos o dever de contribuir para um debate centrado no reconhecimento destas vítimas, no horror por que

passaram e na valentia com que sobreviveram. É-nos exigido, por isso, um debate sereno e, sobretudo, um

debate que não seja em vão.

Trata-se de um agendamento do Chega e o assunto é sem dúvida pertinentíssimo, mas aquilo que salta à

vista é que as propostas que o Chega nos traz não foram verdadeiramente inspiradas pelo relatório da

Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica.

O Chega propõe-nos, sobretudo, alterações das leis penais sob o lema do endurecimento punitivo: mais

pena de prisão. Todavia, nenhuma dessas alterações traria consequências para os agressores das vítimas

que agora quebraram o silêncio, porque as alterações à lei penal só valem para o futuro. Para as vítimas

destes crimes, que testemunharam agora, zero respostas.

Protestos do CH.

O Chega foi buscar à gaveta algumas daquelas que já eram as suas ideias e voltou a apresentá-las: penas

de prisão mais longas, prazos de prescrição mais longos, proibição de penas de substituição. Por esta via, o

Chega não está a querer corresponder às recomendações da Comissão. Está, isso sim, a puxar pelo seu

próprio programa político-criminal.

Protestos do Deputado do CH Pedro Pinto.

Se queremos mesmo ter em conta o relatório da Comissão Independente, primeiro temos de o ler de fio a

pavio nas suas quase 500 páginas.

A Sr.ª Rita Matias (CH): — Mas isso dá muito trabalho!

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Risos do CH.

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — Se o fizermos, descobriremos a seguinte conclusão, que vou citar,

sublinhando a traço muito grosso: «Do presente estudo, entretanto, não resulta evidente a necessidade de

propor qualquer alteração ao nível tanto das penas previstas, entre nós, para os crimes sexuais, como dos

prazos de prescrição do respetivo procedimento criminal».

Aquilo que se recomenda é apenas — e volto a citar — «uma alteração ao artigo 118.º, n.º 5, do Código

Penal, aumentando para 30 anos (atualmente 23) a idade do ofendido antes da qual o procedimento criminal

não se extingue por efeitos da prescrição».

O Chega, ao contrário daquilo que nos é recomendado, propõe o aumento das penas de prisão num dos

seus projetos. No outro projeto pretende o alargamento dos prazos de prescrição previstos no n.º 1 do artigo

118.º e, apesar de terem querido passar a ideia contrária, não há nenhuma semelhança entre o Projeto de Lei

n.º 360/XV/1.ª (CH), o projeto de lei que hoje apresentam e a recomendação da Comissão Independente.

Finalmente, o Chega quer impedir a aplicação de penas de substituição.

O Sr. André Ventura (CH): — Suspensas!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — Este é o único projeto do Chega relativamente ao qual os conselhos

superiores já se pronunciaram. Sobre os outros projetos, que deram entrada há poucos dias, não houve tempo

para pronúncia nem do Conselho Superior da Magistratura, nem do Conselho Superior do Ministério Público.

Os pareceres que recebemos não poderiam ser mais arrasadores. Não me lembro de pareceres dos

Conselhos mais arrasadores com uma iniciativa legislativa. Vou citar o que diziam os pareceres do Conselho

Superior do Ministério Público e do Conselho Superior da Magistratura: proposta «inadequada», «irrazoável»,

inconstitucional por violação de vários princípios.

Para nós, pelo contrário, é muito claro que as vítimas têm direito à justiça penal. Estando em causa crimes

tão graves, as vítimas têm direito a que todo o aparelho punitivo do Estado seja posto a funcionar com o

objetivo de descobrir a verdade e condenar os agentes destes crimes.

Aplausos do PS.

Mas a nossa ambição não pode ser apenas que as nossas crianças, décadas depois de terem sido

abusadas durante semanas, meses ou anos, tenham direito a um processo penal de desfecho improvável.

O Sr. André Ventura (CH): — É deixá-los à solta!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — O que ambicionamos é muito mais: é que as nossas crianças não sejam

vítimas de crimes ou que, sendo vítimas, haja imediata denúncia dos agressores e proteção das vítimas. E

quem tiver lido o relatório de fio a pavio concluirá que é também isso que lá está. Vou citar: «À justiça exige-se

investigação rápida e decisão célere, dado o sofrimento das vítimas e a possibilidade de o agressor repetir o

seu crime.»

E são essas a respostas que todos nós, Deputados nesta XV Legislatura, temos o dever de procurar. Ter

empatia por quem sofre é fundamental, mas não chega. Temos de fazer mais.

O Grupo Parlamentar do Partido Socialista iniciou essa reflexão e identificou alguns rumos de mudança.

Primeiro, temos de investir na prevenção dos crimes sexuais contra crianças, e isso deve passar pela

obrigatoriedade da criação de programas de compliance nas organizações que acolhem crianças. Esses

programas pressupõem que cada organização seja caracterizada sob o ponto de vista da avaliação dos riscos

e que sejam aprovadas medidas orientadas para a sua mitigação. Devem existir pessoas externas à

organização com poderes de fiscalização e devem existir canais internos de denúncia, assim como códigos

deontológicos, guias de boas práticas, controlo no recrutamento.

Em segundo lugar, deverá ponderar-se a alteração do regime de denúncia obrigatória previsto no Código

de Processo Penal. Hoje, os deveres de denúncia são definidos em função das características dos

denunciantes — funcionários, por exemplo —, mas admitimos que qualquer pessoa que tenha contacto com

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crianças no âmbito das organizações que as acolhem passe a ter o dever de denúncia. Isto deve valer não só

para vítimas crianças, mas também para vítimas que sejam adultos especialmente vulneráveis.

Em terceiro lugar, admitimos revisitar o regime da prescrição dos crimes sexuais contra crianças, tendo em

conta as recomendações da Comissão e os compromissos internacionais a que estamos vinculados.

E termino: a instrumentalização política das vítimas está estudada há muito tempo noutros países. Um dos

melhores livros sobre o assunto chama-se Victims in the war on crime: the use and abuse of victims' rights, e é

de Markus Dubber, que estuda os países que adotaram programas político-criminais voltados para o

endurecimento da repressão criminal. Os resultados são conhecidos: muito mais presos, muito mais

criminalidade, menos reparação para as vítimas, menos apoios sociais.

O que nós achamos é que os direitos das vítimas devem ter relevância por si próprios e não como uma

arma política na guerra contra o crime.

Aplausos do PS.

Chegou o tempo de transformarmos a defesa dos direitos das vítimas numa causa que merece ser

perseguida por si própria.

No relatório, encontramos o testemunho de um homem que era uma criança quando foi vítima de abusos

praticados por um padre num colégio. A certa altura, diz: «Eu, que tenho péssima memória para episódios

felizes passados nesse colégio, tenho vívidas memórias dessas sessões que aconteciam não na Igreja, mas

num gabinete do colégio.»

O que nos é exigido é que ajudemos as nossas crianças a construírem mais memórias felizes.

Aplausos do PS e de Deputados do PSD e do BE.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Rui Tavares, do

Livre.

Protestos do CH e contraprotestos do PS.

Neste momento, assumiu a presidência o Presidente, Augusto Santos Silva.

O Sr. Presidente: — Srs. Deputados, peço silêncio.

Sr. Deputado Rui Tavares, tem a palavra.

O Sr. Rui Tavares (L): — Sr. Presidente: Aqueles e aquelas a quem devemos a coragem de terem

entregado os seus testemunhos à Comissão Independente foram abusados. Mas, antes disse, houve quem os

e as usasse, manipulasse, chantageasse.

O nosso dever perante estas pessoas, estes nossos concidadãos, e a sua coragem é levá-los a sério, é

trabalhar para sermos consequentes, para que não volte a acontecer e jamais — jamais! — consentir que

voltem a ser usados, manipulados ou chantageados, que jamais voltem a ser objeto de interesses particulares.

É por isso que este debate é um de muitos de uma caminhada que esta Assembleia vai fazer. Mas tenho

orgulho em que o Livre, como outros partidos, do Bloco de Esquerda à Iniciativa Liberal, tenham decidido criar

um grupo de trabalho para encarar este problema.

Não vale a pena vir com o populismo, que existe agora, contra grupos de trabalho e comissões, como foi

dito aqui hoje: «Ah, mais um grupo de trabalho». Mas estamos aqui reunidos porque houve uma comissão que

trabalhou e porque essa comissão pediu que se fizesse outra comissão mais transversal.

Protestos do CH.

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Nos grupos de trabalho, trabalha-se, e neste vai trabalhar-se muito. Não é apenas com uma medida avulsa

que se acaba com os abusos; é juntando as ideias válidas de todos os que estiverem a trabalhar com

seriedade.

O Sr. Presidente: — Sr. Deputado, tem de fazer o favor de concluir.

O Sr. Rui Tavares (L): — Temos orgulho de estar junto daqueles, todos, do Bloco de Esquerda à Iniciativa

Liberal, que estão ao serviço, e não a servir-se, das vítimas.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Batam palmas, senão ele fica triste!

O Sr. Presidente: — Para intervir, em nome do Grupo Parlamentar do PCP, tem a palavra a Sr.ª Deputada

Alma Rivera.

Protestos do CH e contraprotestos do L.

Srs. Deputados, agora é a vez da Sr.ª Deputada Alma Rivera. Faça favor.

A Sr.ª Alma Rivera (PCP): — Sr. Presidente, Sr.as e Sr. Deputados: Com a divulgação do relatório da

Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa,

foram de conhecimento público factos muito graves, de prática reiterada de crimes de abuso sexual de

crianças e jovens por parte de membros da Igreja.

É necessário dirigir uma palavra de solidariedade às vítimas, mas também de saudação pela sua coragem

em romper o silêncio. Que o seu contributo ajude outras vítimas a fazer esse caminho. É, também, necessário

fazer um reconhecimento ao trabalho feito pela Comissão Independente e aos autores do seu relatório, que

carregarão consigo também as marcas da dor que testemunharam.

Tudo o que foi conhecido é absolutamente chocante, revoltante. Tanto mais porque o próprio relatório

indica que as situações de abuso não são algo distante, mas tiveram lugar num passado recente, envolvendo

pessoas no ativo e que podem ter continuidade, se não forem adotadas as medidas necessárias.

Nesse sentido, reiteramos que as conclusões da Conferência Episcopal Portuguesa, até agora conhecidas,

não correspondem à gravidade da situação e, tal como muitos católicos e mesmo padres têm dito, esperam-se

da Igreja Católica medidas preventivas e administrativas que, até às conclusões judiciais e canónicas,

permitam retirar os presumíveis abusadores da vida pública.

Da parte das autoridades judiciárias, havendo suspeitas da prática de crimes, é obrigatório que todas as

responsabilidades sejam apuradas até às últimas consequências. Se faltam meios para uma célere ação,

então têm de passar a ter esses meios.

Esta é uma situação intolerável que, quer pela sua gravidade, quer pela frequência e duração, quer pelo

dever moral que demasiadas vezes se calou, quer pelos impactos dilacerantes que tiveram na vida das

vítimas, tem de ser combatida. Das conclusões retiradas pela Comissão Independente, todas nos merecem

aprofundada reflexão e ação.

Hoje, estão em debate algumas propostas que vão ao encontro da recomendação feita pela Comissão

Independente, de alterar, no Código Penal, a idade do ofendido a partir da qual começam a contar os prazos

de prescrição: dos atuais 23 para os 30 anos. Isto prende-se com a idade a partir da qual as vítimas se

dispõem a denunciar os crimes, mas, também, com a necessidade de conceder um tempo mais alargado de

maturação sobre as possíveis consequências de uma denúncia.

Acompanharemos a proposta que adota esta recomendação, mas, da parte da Assembleia da República,

do Governo, de todos os poderes de decisão, é preciso mais e é preciso que as várias conclusões

apresentadas tenham uma consequência.

Antes de mais, é preciso evitar que existam vítimas e que os abusos sexuais de menores aconteçam, e não

atuar só depois, porque isso é o mais fácil. Neste sentido, queremos chamar a atenção para outros aspetos

que foram alvo de atenção nas conclusões do relatório da Comissão Independente. Desde logo, a

consciencialização para a transversalidade do fenómeno dos abusos sexuais de menores, que não só pode

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abranger crianças de diversas idades, géneros, meios sociais, culturais e económicos, como tem especial

incidência no próprio meio familiar, restrito e alargado.

Este é um problema que a sociedade tem de encarar e que não se circunscreve à Igreja. É necessária a

realização de um estudo nacional, com uma amostra representativa, sobre abusos sexuais de crianças nos

seus vários espaços de socialização, para se fazer a estruturação de medidas preventivas e de resposta

multidisciplinar, assim aponta a Comissão.

É necessário, tal como nos diz a Comissão, um empoderamento da criança, para ser agente da sua própria

defesa: noções do corpo e seus limites, conceitos de intimidade e privacidade, capacidade de verbalizar e

nomear o sucedido junto dos que lhe são afetivamente mais próximos ou aos quais se sente mais ligada.

Nisso, não só os pais têm um grande papel, sendo capacitados para promover a confiança e uma boa

comunicação sobre sexualidade e afetos e conhecer as respostas existentes, como é determinante reforçar o

papel da escola e da educação para a sexualidade.

A educação sexual nas escolas, tal como consagrada na lei, tem de ser uma realidade. Não pode haver

secundarização dessa dimensão da escola. Uma lei de 2009, pela qual o PCP se bateu, a lei da educação

sexual em contexto escolar, está tão longe de ser verdadeiramente efetivada, em boa parte porque a escola

está estrangulada de problemas. Que seja isso também alvo de reflexão.

Não é tornando os assuntos um sussurro, não é varrendo as questões para debaixo do tapete, que se

promove uma vivência da sexualidade saudável e feliz, que se protegem as crianças e, muito menos, que se

combate o abuso sexual. É debatendo, naturalmente, os assuntos, é ensinando às crianças e aos jovens que

são donas do seu próprio corpo, dos seus afetos e da sua vida, que têm direitos, que há comportamentos que

não são aceitáveis e que devem ser contados a alguém de confiança, que as coisas têm nomes e não há mal

em falar delas.

Aplausos do PCP.

E, depois, é preciso acreditar nas crianças; acreditar nas crianças e dar consequência ao seu relato. É

preciso dotar os mecanismos existentes, como as CPCJ (Comissões de Proteção de Crianças e Jovens), de

meios para acompanhar as situações de risco e detetar problemas. É preciso colocar toda a celeridade na

avaliação e nas respostas do sistema de justiça, fazer uma rápida avaliação psicológica, proteger a criança do

contacto com o agressor e apoiar a família.

Também é preciso garantir mecanismos prioritários para um suporte terapêutico continuado, universal e

gratuito a crianças vítimas, para que dele possam beneficiar ao longo da vida, dando capacidade ao SNS

(Serviço Nacional de Saúde) para o fazer.

Sr.as e Srs Deputados, é preciso proteger as crianças do abuso sexual, de todo o tipo de abusos, e é

preciso cumprir os seus direitos. Infelizmente, há tantas crianças cuja sua ainda curta vida é marcada por

múltiplas formas de negação de direitos, violência e discriminação.

Nenhuma deve passar por nada disso e, tal como a nossa Constituição impõe e a Convenção das Nações

Unidades sobre os direitos das crianças dispõe: todas as crianças devem ver assegurado o direito a serem

desejadas, o direito ao amor e ao afeto, o direito à proteção e a cuidados especiais, ao respeito pela sua

identidade própria e ao desenvolvimento integral, o direito à participação e à opinião, à sua integridade física, a

uma alimentação adequada, ao vestuário, à habitação, à saúde, à segurança, à instrução e à educação, ao

bem-estar e ao conforto.

Têm o direito a brincar, o direito a serem felizes e o direito a serem crianças protegidas. Que todas o

possam ser!

Aplausos do PCP.

O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, em nome do Grupo Parlamentar do PSD, tem a palavra a Sr.ª

Deputada Cristiana Ferreira.

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A Sr.ª Cristiana Ferreira (PSD): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: As nossas palavras são,

naturalmente, dirigidas às crianças, jovens e adolescentes e aos que, hoje adultos, foram ou são vítimas de

abusos sexuais, a todas as vítimas que deram voz ao silêncio e a todas as que permanecem no silêncio.

As especiais fragilidades das crianças associadas à gravidade dos danos causados, de tão hediondas

agressões, justificam amplamente o choque e a revolta que sentimos.

A verdade é que esta matéria, que merece, desde sempre, a nossa total reprovação e incompreensão,

conheceu um longo período de desvalorização e desconsideração.

Malogradamente, em razão da sua natureza, os abusos sexuais de menores tendem a ser acompanhados

de índices muito baixos de participação, seja por serem ainda um tema tabu, seja pelos sentimentos de

vergonha, medo e culpa que provocam, mas também pela ocultação sistémica e pelo silêncio que perpetua

por tempo indeterminado, e talvez interminável, o sofrimento das vítimas.

Por isso, é tão importante desvendar, descobrir e dar voz ao silêncio, para que possamos todos refletir e

agir. Impõe-se uma palavra de reconhecimento para o trabalho exaustivo elaborado pela Comissão

Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

Neste relatório, constam duas questões paradigmáticas sobre o silêncio, que se revelou uma verdadeira

arma nos abusos sexuais de menores. Cito a primeira: «O que lhe dizia a pessoa abusadora para se

aproximar de si?». Muitos inquiridos responderam: «Nada». Aparentemente redutor, este «nada» é bem

revelador da perceção do direito/poder que o adulto sente em relação à criança, sem que nada lhe seja devido

verbalizar. O «nada» demonstra, ainda, a sua proximidade silenciosa, não comunicada, também ela, desde

logo, incomunicável por parte da criança que a sofre. É um «nada» que assenta numa estrutura de poder e de

domínio do adulto sobre ela.

E cito também a segunda: «E o que lhe dizia depois do abuso?». Na maioria dos casos, as vítimas

sublinharam que após o abuso ter ocorrido lhes era expressamente pedido ou dada ordem de segredo, sendo

comum que a pessoa abusadora recorresse, por vezes, a diversas formas de chantagem sobre a criança.

E é do silêncio, antes e depois dos abusos sexuais, que ficam perguntas por responder: porque não falam

do que sofreram? Quando o fazem, como e a quem o revelam? Qual a atitude predominante de quem os

ouve?

Existem vários fatores que poderão ter impacto na vontade da criança, ou jovem, para revelar a situação de

que foi vítima, mas há uma conclusão que nos parece óbvia: a esmagadora maioria destes crimes graves

cometidos contra crianças não são punidos, também, porque não chegam sequer ao conhecimento das

autoridades judiciárias ou policiais de investigação.

Isto acontece, não só por ausência de manifestação da vítima, mas também por omissão de alguém com

deveres de denúncia, por desvalorização, por encobrimento, por cobardia, o que se censura.

Aplausos do PSD.

Falamos, pois, de uma assustadora ponta do iceberg. É preciso um quadro jurídico forte para a proteção

das crianças, que facilite uma abordagem coordenada entre os vários atores envolvidos na sua proteção e

apoio, e que aposte na prevenção, para que todo o sistema possa, efetivamente, transmitir à vítima a

confiança e a segurança necessárias à sua iniciativa e intervenção processuais.

Nalguns casos, só anos mais tarde, quando a vítima inicia a sua vida sexual, ou quando outro

acontecimento a faz reviver essas memórias, é que surge a necessidade de revelar a situação de violência

sexual na infância ou adolescência.

Por esse facto, considerando, por um lado, a enorme gravidade dos crimes em causa, o sentimento

generalizado de reprovação que provocam na comunidade, e por outro, a certeza de que a vontade de

denunciar tais crimes não se forma, nestas vítimas, como nas demais incriminações, precisando de mais

tempo de maturidade, suficiente para tomar consciência do que lhe aconteceu e ganhar a força necessária, a

ponderação sobre a contagem do prazo de prescrição pode, e deve, ser feita, assegurando-se também que a

perseguição criminal do agressor, após a vítima ter atingido a maioridade, ocorre por um período mais lato.

Nada, nem ninguém, poderá nunca apagar o sofrimento e a memória efetiva desses momentos e, nessa

medida, são danos irreparáveis e incuráveis.

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Mas é possível compreender o que se pode fazer pelas vítimas. É necessário encontrar soluções de

prevenção de crimes futuros e de reparação. É necessário promover a descoberta da verdade com meios e

instrumentos disponíveis e eficazes.

É aqui, dentro da Casa da democracia, que se deve iniciar o percurso legislativo, porque é ao Estado de

direito que compete dar repostas, e o PSD estará presente e disponível!

Aplausos do PSD e dos Deputados do PS Isabel Alves Moreira e Pedro Delgado Alves.

O Sr. Presidente: — Para uma intervenção em nome do Grupo Parlamentar do Chega, tem a palavra o

Sr. Deputado André Ventura.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Podemos sempre arranjar todas as

desculpas que quisermos para não fazer o que tem de ser feito. Podemos dizer o que quisermos do que disse

a Comissão, mas os resultados são muito claros: a Comissão recomenda que a idade máxima para apresentar

queixa suba para os 30 anos. Podem dar a volta que quiserem, está aqui. Está à frente de todos para verem.

O orador exibiu um documento.

A proposta do Chega é exatamente nesse sentido, de permitir que o prazo comece a contar aos 30 anos.

Agora é que vamos ver se o Bloco de Esquerda, o Partido Socialista, o Partido Social Democrata, estão, ou

não, de acordo com isto, porque o que o Chega aqui apresenta é o que recomenda a Comissão.

Sr. Deputado Fernando Negrão, podemos dizer o que entendermos sobre o que disse, ou não disse, o líder

do PSD, mas eu fui confirmar se estava enganado em relação àquilo que disse.

Diz aqui que Luís Montenegro defende o aumento dos prazos para crimes deste tipo.

O orador exibiu cópia de uma notícia de jornal.

Sr. Deputado, está aqui! Não fui eu que inventei. A não ser que haja outro Luís Montenegro, que esteja por

aí e que também se chame Luís Montenegro!

Volto a ler: «Luís Montenegro defende aumento do prazo de prescrição de crimes de abuso de menores».

Primeira notícia.

Outra notícia: «Luís Montenegro disponível para aumentar prazo de prescrição de crimes de abuso

sexual». Luís Montenegro! É outro Luís Montenegro? Quantos Luís Montenegro existem?! Está aqui!

O orador exibiu cópia de uma notícia de jornal.

Mas ontem, e cito: «Luís Montenegro vai ser implacável…» — diziam as notícias — «… e quer já aumento

dos prazos de prescrição dos crimes sexuais». Ó meus senhores, desculpem lá, não pode haver outro Luís

Montenegro a andar por aí sozinho, não é? Um que faça campanha, com as bandeiras do PSD, e tal!…

Risos do Deputado do CH Pedro Pinto.

Não! Ele, o Presidente do PSD, defendeu isto ontem!

Protestos da Deputada do PSD Sónia Ramos.

Por isso, hoje, temos aqui a proposta que eleva para 30 anos o início da contagem desses prazos.

Como é que o PSD vai votar?! É que, se não votar a favor, mais vale dizerem a Luís Montenegro para

arrumar as coisas todas, pôr as coisas na mala e ir-se embora!

Vozes do CH: — Muito bem!

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O Sr. André Ventura (CH): — Porque já não há um PSD. Há o PSD do Parlamento e há o PSD da feira,

que anda por aí. Não é?

Aplausos do CH.

Portanto, o Sr. Deputado pode dizer: «Ah, o Dr. Luís Montenegro disse que íamos fazer uma reflexão». Ó

Sr. Deputado, não é isso que está aqui!

O orador exibiu cópia de uma notícia de jornal.

Portanto, o Sr. Deputado pode querer que se faça uma reflexão, mas o Sr. Deputado não foi eleito líder do

PSD, nem representa o PSD enquanto presidente — nem quer, bem sei! —, mas a verdade é que o seu líder

disse que defendia o que nós hoje aqui propomos.

É que, dali, daquele lado, nós já não temos grande esperança, Sr. Deputado. Aliás, a esperança daquele

lado da humanidade, para nós, já se perdeu. A nossa esperança é que, deste lado da bancada, ainda haja o

mínimo de bom senso para perceber que as vítimas estão a precisar de nós e querem mudanças legislativas.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Exatamente!

O Sr. André Ventura (CH): — E não é amanhã, nem é um grupo de trabalho, nem dois. É hoje! É como

dizia o apóstolo: «É hora!» É hora de mudarmos a lei, e podemos fazê-lo!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Muito bem!

O Sr. André Ventura (CH): — Só depende de nós, só depende de termos essa vontade.

Finalmente, Sr. Presidente, podemos sempre dizer que isto vai piorar a proteção das vítimas, desproteger

as vítimas, etc. Sr. Deputados, no Reino Unido, no Canadá, na Nova Zelândia, não há prazo de prescrição

para estes crimes. Não há! Nem sequer existe.

Na Alemanha, o prazo é de 20 anos contados a partir dos 30 anos da vítima. A Alemanha, da dignidade da

pessoa humana. Mãe do céu! A Alemanha, da dignidade da pessoa humana, começa a contar o prazo aos 30

anos da vítima! Em Espanha, a lei foi mudada recentemente para começar a contar o prazo aos 35 anos. Nos

Países Baixos não há prescrição.

Srs. Deputados, para onde é que querem caminhar? Querem aproximar-se da Venezuela ou querem

aproximar-se dos melhores exemplos que temos na Europa?

Aplausos do CH.

Portanto, é isso que está em causa aqui! É isso que está em causa! É aproximarmo-nos dos melhores da

Europa ou, como sempre, ficarmos para trás, com os piores da Europa e os piores do mundo.

Agora, a palavra é do Parlamento!

Aplausos do CH.

O Sr. Presidente: — O Sr. Deputado Joaquim Miranda Sarmento está a pedir a palavra para que efeito?

O Sr. Joaquim Miranda Sarmento (PSD): — Para uma interpelação à Mesa sobre a condução dos

trabalhos, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: — Faça favor, Sr. Deputado.

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O Sr. Joaquim Miranda Sarmento (PSD): — Creio que é importante, Sr. Deputado André Ventura, ler

exatamente aquilo que disse o Presidente do PSD, Luís Montenegro.

Eu sei que tem alguma fixação com o PSD, inclusive com Luís Montenegro. Aliás, consta que tem um

romance escrito por si em que a personagem até se chama Luís Montenegro.

Aplausos do PSD.

O Sr. Bruno Nunes (CH): — A interpelação é à Mesa!

O Sr. Presidente: — Sr. Deputado, tem de dirigir a interpelação à Mesa.

O Sr. Joaquim Miranda Sarmento (PSD): — Peço desculpa, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: — Faça favor.

Peço silêncio, Srs. Deputados.

O Sr. Joaquim Miranda Sarmento (PSD): — Gostaria de dizer que seria importante que todos tivessem

acesso às declarações exatas do Presidente do PSD sobre esta matéria.

Aplausos do PSD.

O Sr. Presidente: — O Sr. Deputado fará o favor de indicar à Mesa qual é o link digital a que se pode

recorrer para distribuir a informação referida pelos grupos parlamentares.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Nem ele sabe!

O Sr. Presidente: — O Sr. Deputado André Ventura também deseja tomar a palavra para uma interpelação

à Mesa?

O Sr. André Ventura (CH): — Sim, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: — Faça favor, Sr. Deputado.

O Sr. André Ventura (CH): — É uma interpelação à Mesa, Sr. Presidente, com dois pontos. O primeiro é

para deixar claro e tranquilizar a Câmara toda, e o Sr. Presidente também, que eu não tenho nenhuma fixação

pessoal com o Dr. Luís Montenegro, nem nenhuma obsessão pessoal com o Dr. Luís Montenegro.

O Sr. Presidente: — Sr. Deputado, isso não é uma interpelação à Mesa. É apenas uma piada de mau

gosto!

O Sr. André Ventura (CH): — Não, não! Mas, em relação ao que disse o líder da bancada do PSD, o

Chega pede, também, a distribuição da notícia onde se pode ler: «Se houver diligências para que na lei penal

possam ser alargados os prazos de prescrição, acompanharemos essa evolução». Isto foi o que disse Luís

Montenegro ontem, e eu vou pedir para que seja distribuído por todos.

Aplausos do CH.

O Sr. Presidente: — Tem, agora, a palavra, em nome do Grupo Parlamentar do PS, a Sr.ª Deputada Isabel

Moreira.

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A Sr.ª Isabel Alves Moreira (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Começo por agradecer aos

membros da Comissão Independente e a todas as vítimas que deram voz ao silêncio. Falar é um ato de

coragem, é reviver o trauma, e só vale a pena se essa partilha for compensada com empatia e com mudança.

Na Igreja, isso não aconteceu. Nem empatia, nem compromisso imediato com as mudanças propostas.

Mas o Estado tem muito a aprender com as recomendações dadas à Igreja e à sociedade em geral.

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — E o PS também!

A Sr.ª Isabel Alves Moreira (PS): — A análise do relatório e das suas recomendações ajuda-nos,

enquanto titulares de órgãos de soberania, a agir.

A maior percentagem de crianças foi abusada entre os 10 e os 14 anos. A maior parte dos abusadores são

homens, adultos, heterossexuais.

Precisamos de canais de denúncia.

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Muito bem!

A Sr.ª Isabel Alves Moreira (PS): — O abusador tenta neutralizar o aspeto patológico e criminoso do ato,

normalizando-o diante da criança, dando-lhe um falso significado ou negando o seu acontecimento, projetando

para o outro, incluindo a figura ou vontade de Deus, a sua hipotética causa e concretização.

Isto é particularmente violento, porque o abuso é cometido por quem, para a criança, representa Jesus na

Terra. É, por isso, um duplo abuso, porque os sacerdotes são, para as crianças e jovens crentes, lugar de

desabafo, confissão e perdão.

Noutras, o abuso é imputado à criança como sendo afinal uma vontade a sua, algo que deseja ou que vai

valorizar positivamente no futuro.

Na maioria dos casos, as vítimas sublinharam que, após o abuso ter ocorrido, lhes era expressamente

pedido ou dada ordem de segredo, sendo comum que a pessoa abusadora recorresse, por vezes, a diversas

formas de chantagem sobre a criança, por exemplo, com a ameaça de divulgação do seu comportamento a

outros membros da família ou amigos.

«O desprezo e humilhação, ridicularizando-a na sua sempre mais frágil relação com o adulto, aumentam os

sentimentos de solidão e de abandono […] Os depoimentos testemunham o clima emocional de terror, de uma

verdadeira atitude de “banalidade do mal”», nas palavras do relatório.

O número maioritário dos inquiridos diz que, sobre o sucedido, não há reparação possível, mas há uma

expetativa: a da necessidade de apoio psicológico, psiquiátrico, atual e futuro, pedido de perdão e desejo de

compromisso de respostas futuras, de prevenção e intervenção adequadas.

Os abusos sexuais de crianças na Igreja Católica portuguesa existiram no passado, e existem ainda no

presente, e sabemos que a Comissão captou a ponta de vários icebergs respeitantes a vertentes deste

fenómeno, vividos em certos tempos históricos e lugares institucionais.

A ocultação foi sistémica.

Perante isto, se a Igreja está a braços com as conclusões do relatório, o Estado e a sociedade não estão

de fora.

Queremos que os crimes ocorridos sejam investigados pelo Estado de direito, no respeito pela separação

de poderes. Queremos alargar os deveres de participação e queremos que nada disto volte a acontecer.

É nosso dever acatar a apontada necessidade de realização de um estudo nacional sobre os abusos

sexuais de crianças nos seus vários espaços de socialização.

Temos de ser firmes no reconhecimento inequívoco dos direitos da criança, refletindo mais, ouvindo quem

mais sabe, fiscalizando todos os espaços de risco, sem exceções e sem subserviência.

É nosso dever pôr fim ao medo e à subjugação sexual, precisamente empoderando as crianças e famílias

sobre o tema. A escola tem de educar para uma sexualidade livre, saudável e para a capacitação das crianças

acerca dos seus direitos.

Que mal que estão os que combatem o que diz a Comissão, em nome da chamada ideologia de género.

Que mal que estão!

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Aplausos do PS, do BE e do L.

Também aqui, no Parlamento, saberemos ouvir a Comissão Independente e todos e todas que nos possam

ajudar a melhorar a resposta do Estado na proteção dos direitos das crianças, que são direitos humanos.

Será criado um grupo de trabalho, por iniciativa de todos os grupos parlamentares, à exceção do Chega.

A justiça não pode ser lenta, e ficou claro o papel fundamental da comunicação social na investigação e

tratamento do tema, que deve ser protegido e reforçado.

Nada poderá ficar como dantes. Enquanto debatemos, há vítimas a reviver o trauma, o que pode ter

consequências terríveis, e há vítimas ofendidas e desiludidas.

Da parte do Estado de direito, da nossa parte, não pode haver nem subserviência nem inconsequência.

Tudo faremos para combater a iliteracia emocional sobre as verdadeiras necessidades do desenvolvimento

infantojuvenil, sobretudo no campo afetivo e sexual.

A erradicação do abuso sexual de crianças tem de ser um desígnio da democracia e, portanto, um desígnio

dos democratas e das democratas.

Aplausos do PS, do BE e do L.

O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, em nome do Grupo Parlamentar do Chega, tem a palavra o Sr.

Deputado Pedro Frazão.

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Como pai, como tio, como

professor, como português, este tema é-me particularmente difícil de endereçar. Mas vamos ver, Srs.

Deputados.

Há que registar que o PS e alguma esquerda estão a tentar fazer com que todo este debate seja apenas

sobre a Igreja. Mas este debate não é só sobre a Igreja, Srs. Deputados.

O problema dos abusos sexuais vai muito para além da Igreja. Existem números da Polícia Judiciária que

referem cerca de 2500 casos, em média, de abusos sexuais, nos últimos cinco anos. Portanto, não estamos a

falar de nenhuma estimativa para 72 anos, estamos a falar de casos reais. Nos últimos cinco anos, foram

denunciados cerca de 2500 casos, em média, na Polícia Judiciária. No ano passado, foram presas apenas 92

pessoas. Repito, houve apenas 92 detidos. Portanto, o que temos é uma enorme impunidade em relação

àquilo que se está a passar em Portugal.

Os Srs. Deputados da esquerda — e aqui incluo também a Iniciativa Liberal — querem pôr o foco em cima

da Igreja Católica. A Igreja Católica, com certeza, tem as suas responsabilidades, e aqui as chamámos, para

que elas sejam assacadas. Mas isto, Srs. Deputados, é um problema que vai muito além.

Vamos ver! A César o que é de César e aos homens o que é dos homens.

Aplausos do CH.

O Sr. Pedro Delgado Alves (PS): — «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus».

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Somos um órgão soberano, e somos um órgão soberano para

legislar, e é com legislação que podemos dar armas aos Srs. Magistrados da Nação para que, com todos,

como sociedade, possamos proteger as nossas crianças.

Uma sociedade que não protege as nossas crianças, os nossos filhos — e já são tão poucos, Srs.

Deputados —, é uma sociedade que está muito perto, mesmo muito perto, da sua destruição.

O que pedem à Igreja, Srs. Deputados, é o que deve ser pedido a todas as organizações da sociedade

civil.

A Sr.ª Rita Matias (CH): — Muito bem!

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O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Devemos, até, lembrar alguém que já presidiu a esta Câmara e

que, quando se referia a um caso de pedofilia, dizia que se estava a «piii» para o segredo de justiça.

Aplausos do CH.

Dever-se-iam lembrar muito bem os políticos do partido envolvido nesse caso.

Querem fazer comissões independentes? Muito bem, vamos a isso. Façam comissões independentes para

os vossos partidos; façam comissões independentes para as instituições que estão sob a tutela do Ministério

da Educação; façam comissões independentes sob a tutela do Ministério da Saúde, do Ministério do Trabalho,

Solidariedade e Segurança Social; façam comissões independentes para as federações desportivas, e vamos

ver quantos milhares de casos vamos ter denunciados na sociedade portuguesa.

Aplausos do CH.

Srs. Deputados, temos de ser corajosos e, de facto, não podemos vir aqui aproveitar-nos dos abusos

sexuais da Igreja para lavar a face de alguns e de algumas neste Parlamento, porque aqui, pela nossa

bancada, esses não passarão.

Quero também dizer, muito claramente, que se, de facto, um padre é a imagem de Jesus Cristo na terra,

um pedófilo é o Anticristo na terra — seja padre, seja professor, seja político, seja apresentador de televisão,

seja embaixador, seja aquilo que for, seja médico, seja enfermeiro, onde quer que seja, é a imagem do

Anticristo e deve ser castigado e duramente castigado.

Aplausos do CH.

E quero também dizer que educação sexual é uma coisa que se faz nas famílias. As famílias é que têm o

direito e a honra e é que sabem o que devem fazer com as suas crianças.

Protestos da Deputada do BE Joana Mortágua.

Dizer nas escolas que um menino não nasce menina nem uma menina nasce menino e que, uma coisa ou

outra, pode ser tudo misturado na panela e sabe-se lá o que vai dar, isso, sim, é abuso, isso, sim, são maus-

tratos, isso, sim, é ideologia e doutrinação.

Aplausos do CH, de pé.

Protestos do Deputado do PS Pedro do Carmo e contraprotestos do CH.

O Sr. Presidente: — Srs. Deputados, peço silêncio.

Para uma intervenção, em nome do Grupo Parlamentar do PSD, tem agora a palavra a Sr.ª Deputada Sara

Madruga da Costa.

A Sr.ª Sara Madruga da Costa (PSD): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Choque, revolta,

indignação, repúdio, estupefação, monstruosidade, estas são algumas das palavras que nos ocorrem e que

suscitam uma legítima indignação por parte de todos nós.

É bastante difícil, Sr.as e Srs. Deputados, expressar por palavras as notícias vindas a público nos últimos

dias e que abalaram os portugueses. Falamos de atos e de crimes hediondos, absolutamente chocantes e

totalmente inaceitáveis, perpetrados contra crianças inocentes.

Sr.as e Srs. Deputados, 20 anos depois do choque revelado com a Casa Pia, voltamos a ser confrontados

com notícias igualmente chocantes relativas a abusos sexuais reiteradamente cometidos contra crianças. É

muita a revolta, é muita a indignação, é muita a estupefação perante estes factos, Sr.as e Srs. Deputados.

A nossa primeira palavra é, por isso, de condenação, de condenação implacável de todos os responsáveis

pela prática destes crimes repugnantes.

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Aplausos do PSD.

Sr.as e Srs. Deputados, não pode haver qualquer tolerância, nem hoje, nem ontem, nem amanhã, nem

nunca, perante tamanha monstruosidade. Todos os responsáveis devem ser severamente punidos, ninguém

está acima da lei. Esta é uma exigência de toda a sociedade, mas, mais do que isso, é uma obrigação que

todos temos para com as vítimas de crimes tão hediondos.

Sr.as e Srs. Deputados, queremos também deixar uma palavra de solidariedade às vítimas e enaltecer a

coragem que tiveram em denunciar os abusos de que sofreram. Todos estamos conscientes das dificuldades

e dos constrangimentos que dificultam este processo — circunstâncias, estas, que são agravadas quando os

crimes ocorrem em regiões mais pequenas e isoladas, onde a proximidade com o agressor é maior e a

denúncia se torna muito, mas muito mais difícil — e da especial vulnerabilidade das vítimas, Sr.as e Srs.

Deputados. Falamos de crianças e de jovens que, durante anos e anos, foram remetidos ao silêncio e

sofreram danos irreparáveis, que, porventura, teremos muita dificuldade em avaliar.

Sr.as e Srs. Deputados, destacamos também a criação da Comissão Independente e a divulgação pública

dada ao relatório dos abusos cometidos na Igreja Católica portuguesa. As conclusões deste relatório são

devastadoras. Dão conta de que, entre 1950 e 2022, pelo menos 4815 crianças, repito, pelo menos 4815

crianças foram abusadas sexualmente por padres e outros membros da Igreja Católica, foram molestadas por

quem tinha a especial responsabilidade de as proteger e que contou com o silêncio conivente de altos

responsáveis, o que é verdadeiramente inaceitável.

Aplausos do PSD.

Sr.as e Srs. Deputados, além de toda a sua dimensão jurídica, este processo convoca-nos uma dimensão

ética e moral a que ninguém pode ficar indiferente. Independentemente da justiça que venha a ser feita, os

portugueses esperam e exigem mais desta instituição; não se contentam com um mero pedido de perdão às

vítimas, exigem medidas imediatas, medidas concretas, consentâneas e consequentes com a gravidade dos

atos em causa. Sem prejuízo do princípio da presunção de inocência, os portugueses consideram que têm de

existir consequências internas e procedimentos preventivos que restaurem a confiança e assegurem a

tranquilidade de todos. Sim, consideram que a Igreja tem o dever e a obrigação de procurar compensar todas

as vítimas, pois é disso que se trata, Sr.as e Srs. Deputados, já que a dor destas é simplesmente irreparável.

Aplausos do PSD.

Sr.as e Srs. Deputados, conforme verificamos com este debate, a generalidade das forças políticas está

preocupada com este assunto, que abalou e chocou o País. Aliás, todos temos uma responsabilidade coletiva

para com estas crianças e para com estes jovens.

A gravidade dos testemunhos apresentados, a extensão dos abusos e o sofrimento das vítimas exigem

uma reflexão séria e profunda. Uma reflexão acerca de futuras alterações legislativas e do reforço das políticas

públicas, sempre na perspetiva da prevenção destas ocorrências; uma reflexão acerca dos meios, do

acompanhamento e da fiscalização nas instituições; uma reflexão em torno da reparação dos danos e da

prevenção de novos crimes no futuro; uma reflexão que decorra com o respeito e com a dignidade que o

assunto nos merece, por forma a que situações destas nunca mais voltem a acontecer e nunca mais se

repitam.

Sr.as e Srs. Deputados, todos temos o dever de continuar a dar voz ao silêncio; todos temos o dever de

criar condições para que a cultura do silêncio nunca mais se volte a repetir e nunca mais se volte a instalar,

onde quer que seja.

Aplausos do PSD.

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O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, em nome do Grupo Parlamentar da Iniciativa Liberal, tem a

palavra o Sr. Deputado João Cotrim de Figueiredo.

O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Esta fixação da ordem do dia

pelo Chega é uma boa oportunidade para falar de hipocrisia na vida pública.

Sobre a hipocrisia da parte da hierarquia da Igreja Católica, faço minhas as palavras da Deputada Patrícia

Gilvaz, e de tantos outros Deputados, porque, depois de décadas de encobrimentos e conivência, a Igreja

Católica ainda tem, neste momento, a oportunidade de fazer o que está certo e, de caminho, também, acabar

com a profunda tristeza e desilusão de milhões de fiéis que esperam que a sua Igreja tome uma posição clara

e sem tibiezas sobre os abusos. Não começou bem, mas ainda vai a tempo.

Há, no entanto, outra hipocrisia óbvia neste agendamento, que é a hipocrisia do Chega.

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Ah!

O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — É que o Chega tenta, neste debate, fazer um aproveitamento

político do sofrimento das vítimas e da condenação generalizada que estes crimes horríveis geraram na

sociedade portuguesa.

Protestos do Deputado do CH Pedro dos Santos Frazão.

Tenta aproveitar o justificado alarme social para dar espaço às pulsões vingativas típicas das conversas de

café.

Protestos do Deputado do CH Bruno Nunes.

Na vossa visão de sociedade, mandam os impulsos mais torpes; na nossa, a dignidade da pessoa humana

manda mais do que as conversas de café.

Aplausos de Deputados do PS.

Protestos do CH.

O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — O exemplo desta hipocrisia não está só nos diplomas de inspiração

securitária que hoje discutimos, está também na proposta de castração de pedófilos, já várias vezes trazida a

Plenário e agora constante do projeto de revisão constitucional do Chega.

Protestos da Deputada do CH Rita Matias.

A proposta começou por ser de castração física, e constava até do projeto de revisão constitucional de

2020.

Depois, a proposta passou a ser de castração química e, na última versão, já é de castração química

voluntária.

O Chega sabe bem que a castração química não resolve nada, só pode ser aplicada durante a duração da

pena, que coincide, normalmente, com o período de encarceramento, e não impede reincidências.

Protestos dos Deputados do CH Pedro dos Santos Frazão e Rita Matias.

Mas, mesmo assim, o Chega insiste com várias versões desta proposta, não porque esteja

verdadeiramente preocupado com a proteção das crianças, mas porque quer ser visto a defender qualquer

coisa que contenha a palavra «castração». E porquê? Porque, simplesmente, um focus group qualquer, uma

sondagem qualquer, lhes disse que era uma medida popular.

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O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Oh!

O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — Respostas simples para questões complexas, posições políticas

para satisfazer a turba: eis a essência do populismo!

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Tenha vergonha!

O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — Os senhores estão no vosso direito de fazer política assim, não

esperem é que mais alguém — e, certamente, não a Iniciativa Liberal — vos acompanhe.

A Sr.ª Patrícia Gilvaz (IL): — Muito bem!

O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — E não esperem que vos reconheçam autoridade, quando criticarem

o PS por governar por focus groups, ao sabor das sondagens de opinião, porque já não é só o estatismo que

une o Chega e o PS, é também a maneira de fazer política.

Risos do CH.

O Sr. André Ventura (CH): — Mas eles até vos bateram palmas! Bateram-vos palmas!

O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — Apetece-me dizer que vocês estão muito bem um para o outro.

Aplausos da IL.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Batam lá palmas, agora!

O Sr. Presidente: — Sr. Deputado, tem um pedido de esclarecimento, mas não tem tempo para responder.

Para, querendo, fazer o pedido de esclarecimento, tem a palavra o Sr. Deputado André Ventura, do Chega.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr. Presidente, Sr. Deputado João Cotrim de Figueiredo, como a Iniciativa

Liberal sabe, para nós, este é um tema mesmo muito importante, muito importante.

Nós não temos dúvidas: lugar de pedófilo é na prisão, e é aí que o queremos manter.

Aplausos do CH.

Não temos dúvidas: lugar de pedófilo é na prisão.

Sabemos que a IL não pensa assim. É legítimo! Mas não venham com sondagens, assuma: «nós achamos

que os pedófilos devem andar aí à solta.» Assuma: «nós somos tão liberais que achamos que os pedófilos

devem andar à solta.» É uma opção, Sr. Deputado, mas não é a nossa.

O que não se compreende é o Chega trazer este assunto a debate, a Iniciativa Liberal vir aqui dizer que é

um tremendo populismo e que não se aproveitam das vítimas e, depois, fazer um arrastamento para debater

aqui, hoje, neste Plenário, o mesmo assunto. Ó Sr. Deputado, então, já não é só oportunismo nem hipocrisia,

é uma aselhice tremenda da parte da vossa bancada, desculpe lá!

Aplausos do CH.

É uma aselhice tremenda da parte da vossa bancada!

Mais: em dezembro, 2 de dezembro de 2022, dizem que a prescrição não vai resolver problema nenhum,

que mudar as regras da prescrição não resolve nada; hoje, apresentam uma proposta para alterar os prazos

de prescrição.

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Ó Sr. Deputado João Cotrim de Figueiredo, faça um favor à direita toda, faça um favor ao espectro político

da direita e, sobre estas matérias, faça como dizia Wittgenstein: sobre aquilo de que não se pode falar, deve-

se guardar silêncio. Guardem silêncio sobre isto.

Aplausos do CH.

Protestos do Deputado da IL João Cotrim Figueiredo.

O Sr. Rui Tavares (L): — Quem guardou silêncio foi o Chega!

O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, em nome do Grupo Parlamentar do Chega, tem a palavra o

Sr. Deputado Filipe Melo.

O Sr. Filipe Melo (CH): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Este, mais do que um debate como se tem

visto, devia ser um debate sem cores políticas.

Vozes do PS: — Ah!

O Sr. Filipe Melo (CH): — As crianças não escolhem a política A, B ou C; as crianças escolhem ser felizes,

respeitadas e verem os seus direitos salvaguardados.

Por isso, aquilo a que aqui assistimos hoje foi uma tremenda injustiça para com as nossas crianças. E

deixem-me dizer-vos que o Chega trouxe a debate o tema do combate ao abuso sexual de menores.

Por alguma conveniência, PS, PSD, extrema-esquerda, quiseram levar o tema para a Igreja. Infelizmente,

estes casos não ocorreram só no seio da Igreja. Infelizmente, estes casos ocorrem todos os dias nas várias

instituições, nas várias entidades da nossa sociedade civil. É com isto que queremos acabar, mas é isso que

vocês querem esconder, ao falar, neste debate, apenas e só na Igreja.

Aplausos do CH.

Srs. Deputados, este é um debate sério demais para assistirmos a intervenções como a do Sr. Deputado

Fernando Negrão, em resposta a uma questão colocada pelo Sr. Deputado André Ventura. Neste debate, o Sr.

Deputado Fernando Negrão devia-se centrar no respeito pelas crianças e esquecer as tricas partidárias, que

em nada contribuem para a felicidade e para a vida destas crianças.

Em relação ao Sr. Deputado do Bloco de Esquerda, que fala em educação sexual, vou-lhe dizer uma coisa

que o senhor não sabe, mas que deve registar: o papel da escola é educar, o da família tradicional é ensinar.

Risos do PS, do PSD, do BE e do PAN.

Perdão, é ao contrário, peço perdão: o papel da escola é ensinar, o da família é educar.

Aplausos do CH.

O senhor aprenda isto, de uma vez por todas! A escola tem a competência de ensinar e é na família que se

dá a educação. Só assim as crianças seguirão um bom caminho.

A Sr.ª Isabel Alves Moreira (PS): — Onde há mais abusos é na família!

O Sr. Filipe Melo (CH): — Deixem-me dizer-vos, Srs. Deputados, que as crianças de hoje são os homens

de amanhã e nós, enquanto políticos, temos o dever de as proteger, temos a obrigação de, nesta Casa,

legislarmos para as defender, para as proteger e não para alimentar os maus-tratos e para proteger quem faz,

com estas crianças, as barbaridades a que todos assistimos.

Termino, Sr. Presidente, com uma frase de Pitágoras, que diz…

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Vozes do PS: — Ah!…

O Sr. Filipe Melo (CH): — Sei que vos custa, mas têm de aceitar!

Como dizia, termino com uma frase de Pitágoras: «eduquem as crianças, para que não seja necessário

punir os adultos». E eu acrescentava algo mais à frase: responsabilizemos e punimos…

A Sr.ª Joana Mortágua (BE): — Punamos!

O Sr. Filipe Melo (CH): — … os adultos, para não punirem mais as nossas crianças.

Aplausos do CH.

O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, em nome do Grupo Parlamentar do PS, tem a palavra a

Sr.ª Deputada Marta Temido.

A Sr.ª Marta Temido (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O abuso sexual das crianças é,

seguramente, um dos crimes que mais choca as sociedades contemporâneas, que mais nos choca a todos.

Confronta-nos com o incumprimento do dever de cuidar e do compromisso de proteger, que é papel dos

adultos relativamente às crianças. Adultos que, em muitos dos casos, eram aqueles nos quais as crianças

mais confiavam, por razões afetivas e até institucionais.

Mas vale a pena recordar que, neste tema, como noutros, as perceções sociais se alteraram.

O relatório da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica

Portuguesa, que é, hoje, o pano de fundo da maioria das propostas em discussão — e quatro delas, do

Chega, têm esta referência —, revela-nos o silêncio da Igreja, mas, também, da sociedade em geral, referindo

que, e passo a citar, «não terá tido, a Igreja, omissão diferente da que tiveram as famílias e a sociedade (…)

protagonizando a cultura do tempo (…). A ocultação do fenómeno correspondia afinal a uma cultura. Errada

cultura, mas a uma cultura aceite».

Mais do que tudo, precisamos, portanto, que essa cultura mude. Aliás, terá sido a compreensão dessa

necessidade de mudança que levou o Papa Francisco a pedir, repetidas vezes, e desde há alguns anos,

tolerância zero neste campo, emitindo orientações claras quanto aos procedimentos a adotar perante

denúncias de abusos sexuais de crianças. São orientações que referem — e vale a pena recordar — que,

«sem prejuízo dos direitos e obrigações estabelecidos em cada local pelas leis estatais (…)», o clérigo que

«saiba ou tenha fundados motivos para supor» que foi praticado um delito, que consiste em «realizar atos

sexuais com um menor», tem a «obrigação de assinalar prontamente o facto ao Ordinário do lugar», dispondo-

se, ainda, que «se os factos ou as circunstâncias o exigirem, podem ser adotadas disposições ou medidas

cautelares apropriadas contra o investigado» e que as autoridades eclesiásticas se devem empenhar em

proporcionar aos ofendidos e famílias «assistência médica, terapêutica e psicológica». É esta vontade de

mudança, desta Igreja, que importa, porventura, apoiar.

Mas a mudança cultural de que precisamos é indissociável da necessidade de colocar as crianças vítimas

de abusos sexuais no centro da nossa ação, no centro das nossas preocupações. Ora, as vítimas ouvidas, no

âmbito do relatório independente, dizem-nos, claramente, que o reconhecimento dos abusos pelos abusadores

e pela sociedade é o primeiro passo no sentido da reparação possível de um trauma que não se apaga para o

resto das suas vidas. Dizem-nos, ainda, que há que criar condições para que o passado não se repita. E nós

— todos nós! — devemos-lhes uma resposta positiva.

Haverá espaço, certamente, para melhorias do quadro legal aplicável ao tipo de crime em causa, mas há

que ter presente que a alteração do respetivo quadro legal — mesmo sob a forma, que poderá ser importante,

e que a Comissão recomenda, de alteração da idade do ofendido para início da contagem do prazo de

prescrição — talvez não baste.

É mesmo preciso investir em mudanças sociais, que nos conduzam a uma sociedade mais igualitária,

porque quem abusa, os vários tipos de abusadores sentem-se sempre investidos de um poder que ninguém

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detém relativamente a outra pessoa. Devemos a esta ideia um firme combate, e o relatório da comissão

independente traz-nos várias armas para o realizar.

Aplausos do PS.

O Sr. Presidente: — A Mesa não regista mais pedidos de intervenção e, por isso, passamos…

Pausa.

Afinal, parece que o Sr. Deputado Pedro Delgado Alves pretende usar da palavra, pelo que tem a palavra.

Faça favor, Sr. Deputado.

Pausa.

O Sr. Bruno Nunes (CH): — Há pouco, cortaram-nos a palavra!…

O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, em nome do Grupo Parlamentar do Partido Socialista, tem a

palavra a Sr.ª Deputada Cláudia Santos.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Vejam lá se se decidem! São 120, são demasiados!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O Sr. Deputado André Ventura

disse, há pouco, que acreditava existirem vários Srs. Drs. Luís Montenegro e nós, no final deste debate,

receamos que existam vários Srs. Deputados André Ventura ou, pelo menos, dois. Portanto, a pergunta que

gostava de deixar à Câmara é a seguinte: em qual dos dois Srs. Deputados André Ventura podemos

acreditar?

O Sr. Deputado André Ventura falou, há pouco, defendendo a imprescritibilidade dos crimes ou a

agravação dos prazos de prescrição,…

O Sr. André Ventura (CH): — Disse que é assim na Alemanha!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — … mas o Sr. Prof. André Ventura, nas suas Lições de Direito Penal,

escreveu o seguinte, e vou citar: «Durante vários anos, alguns autores defenderam a ideia de crimes

imprescritíveis. Crimes estes que, pela sua natureza, fossem tão graves, tão hediondos, que nunca as

sociedades os devessem esquecer. Mas a comunidade rapidamente percebeu que o direito penal teria de ter

barreiras. Quer se queira, quer não, a sua natureza do direito penal é temporal, contextual, histórica e fáctica».

O Sr. André Ventura (CH): — Está na nossa proposta!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — A minha pergunta é a seguinte: devemos acreditar no Sr. Prof. André

Ventura ou no Sr. Deputado André Ventura?

Aplausos do PS e de Deputados do PSD.

A minha outra questão tem a ver com o aumento da duração das penas de prisão e com a castração

química, que voltou hoje, aqui, a defender. Isto foi o que defendeu o Sr. Deputado André Ventura. No entanto,

o Sr. Prof. André Ventura…

Protestos do Deputado do CH Bruno Nunes.

… escreveu enfaticamente sobre o princípio da humanidade das penas, dizendo assim: «o princípio da

humanidade das penas tem ainda uma outra dimensão relevante, que se prende com o limite absoluto imposto

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pela noção de dignidade da pessoa humana, fundamento último da ordem constitucional. Esta noção impede

as penas criminais de serem instrumentos de degradação da condição humana, mesmo quando estejam em

causa bens jurídicos de natureza superior. Por exemplo,…» — diz o Sr. Prof. André Ventura — «… não

poderia ser aplicada uma pena de prisão perpétua ou empregue qualquer forma de tortura, mesmo se, no

limite, tal facto pudesse salvar alguma vida humana».

Protestos do CH.

Nós concordamos, nós acompanhamos, nesta matéria, a opinião do Sr. Prof. André Ventura, que

gostaríamos de encontrar mais vezes nesta Câmara.

Aplausos do PS e de Deputados do PSD.

O Sr. Presidente: — A Sr.ª Deputada tem um pedido de esclarecimento. Para o formular, tem a palavra o

Sr. Deputado André Ventura, do Chega.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr. Presidente, eu acho que a Sr.ª Deputada percebe mais do que aquilo

que aqui quis trazer hoje, porque a Sr.ª Deputada sabe muito bem — como eu também sei — que todos os

exemplos que lhe dei, de castração química, nomeadamente no âmbito da revisão constitucional, foram

precisamente para demonstrar o contrário, ou seja, porque ocorreram em ordenamentos jurídicos que, tal

como o nosso, defendiam a dignidade da pessoa humana. É precisamente em razão da dignidade da pessoa

humana que nós defendemos a castração química de pedófilos.

Na verdade, Sr.ª Deputada, há duas interpretações.

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Há dois! Há dois Montenegros e dois Andrés Venturas!

O Sr. André Ventura (CH): — Há aqueles que querem pegar na dignidade da pessoa humana para dizer

que nada se pode fazer, que nada pode mudar na lei penal e há aqueles que, como nós, acreditam que pode

haver castração química, mesmo em ordenamentos onde há dignidade da pessoa humana.

Dei-lhe variadíssimos exemplos disso e, hoje, voltei a dar-lhe outros exemplos, que a Sr.ª Deputada podia

ler, além desses, como é o caso do Canadá, o caso dos Estados Unidos, o caso da Alemanha ou o caso da

França. Em todos eles há dignidade da pessoa humana e todos eles têm a imprescritibilidade destes crimes.

Por isso, Sr.ª Deputada, a nossa proposta não vai no sentido de criar a imprescritibilidade do crime de

abuso sexual de menores, vai no sentido de que, aos 30 anos, comece a contar o prazo de prescrição.

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Não é essa a vossa proposta!

O Sr. André Ventura (CH): — Isso é muito diferente daquilo que a Sr.ª Deputada aqui traz hoje.

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Não é essa a vossa proposta!

O Sr. André Ventura (CH): — Nós vamos exatamente ao encontro daquilo que a Comissão Independente

disse. O PS prefere arranjar desculpas, para não estar ao lado daquilo que a Comissão Independente disse.

O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Não é essa a vossa proposta!

O Sr. André Ventura (CH): — Nós estamos ao lado da justiça; vocês estão ao lado dos bandidos, como

sempre!

Aplausos do CH.

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O Sr. Presidente: — Para responder, tem a palavra a Sr.ª Deputada Cláudia Santos.

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, começo pela questão final,

suscitada pelo Sr. Deputado André Ventura.

Não é verdade que o Chega tenha apresentado projetos que coincidam exatamente,…

O Sr. André Ventura (CH): — É verdade, é!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — … nem de longe, nem de perto, com a proposta da Comissão

Independente. Aliás, hoje, fiquei sem perceber se o Sr. Deputado tinha compreendido qual é a proposta da

Comissão.

Protestos do CH.

Apresentaram um primeiro projeto de lei, que foi o Projeto de Lei n.º 370/XV/1.ª, em que defendiam que o

prazo de prescrição começasse a correr quando a vítima fizesse 30 anos; aquilo que a Comissão propõe é

que acabe quando a vítima faz 30 anos.

Vozes do CH: — Não é verdade!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — Portanto, não há semelhança possível!

Aplausos do PS.

Estou a falar do projeto de lei, e custa-me dizer que conheço melhor os projetos de lei do Chega do que o

próprio Chega.

Aplausos do PS.

Protestos do CH.

Mas, no primeiro projeto de lei, que era o n.º 370/XV/1.ª, era o que propunham. Neste, que agora

apresentam — o Projeto de Lei n.º 600/XV/1.ª —, deram um passo em frente, de facto, pois relativamente ao

n.º 5 do artigo 118.º do Código Penal têm uma proposta semelhante àquela que consta do relatório da

Comissão Independente. O problema, no entanto, está no n.º 1 do artigo 118.º,…

O Sr. André Ventura (CH): — Qual é o problema?!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — … que os Srs. Deputados querem alterar contra tudo aquilo que defende o

relatório da Comissão.

O Sr. André Ventura (CH): — Não é verdade!

A Sr.ª Cláudia Santos (PS): — Portanto, os Srs. Deputados ainda não conseguiram encontrar um projeto

que coincida com a proposta da Comissão Independente.

De qualquer maneira, voltando ao início da questão suscitada, o Sr. Deputado tentou dizer-nos uma coisa

que nunca pensei ouvir, isto é, tentou dizer que respeita a dignidade da pessoa humana e que defende a

castração química, porque ela é compatível com a defesa da dignidade da pessoa humana.

Perante isso, só me sobra uma dúvida: o que é que o Sr. Deputado acha que não é compatível com a

dignidade da pessoa humana?

Aplausos do PS.

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Espero não o ouvir dizer um dia que temos pelourinhos subaproveitados e que se podem pendurar

agressores sexuais em pelourinhos. Essa não é a nossa posição.

Acabo citando, mais uma vez, o Sr. Deputado André Ventura, que tem uma outra afirmação com a qual

concordo.

Protestos do CH.

O Sr. Prof. André Ventura tem uma outra afirmação com a qual concordo totalmente. O Sr. Prof. André

Ventura concorda com aquilo que Figueiredo Dias, mestre e decano da Faculdade de Direito de Coimbra, dizia

ser a defesa da nossa alma republicana, e diz: «Defender o espírito constitucional é defender as muralhas da

cidade. Defender as muralhas da cidade nem sempre é ganhar a guerra, muitas vezes é perdê-la, mas é

termos a convicção de que devemos lutar por elas, pelas muralhas da cidade.» Nós concordamos com isso,

Sr. Professor.

Aplausos do PS.

A Sr.ª Rita Matias (CH): — Vocês mentem à boca cheia!

O Sr. Presidente: — Tem agora a palavra, para intervir, em nome do Grupo Parlamentar do Chega, o Sr.

Deputado André Ventura.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: Sr.ª Deputada Cláudia Santos, para nós, de

facto, não há dúvida. Para nós, as muralhas da cidade são mesmo a justiça, e essas são as muralhas nas

quais nos revemos. É isso que nos distingue de um outro grupo.

Sim, nós acreditamos na dignidade da pessoa humana. Sim, nós acreditamos nas muralhas da cidade.

Mas, nestas muralhas da cidade, queremos a proteção de todos os cidadãos de bem. Os senhores querem é

fora das muralhas da prisão todos os pedófilos deste País!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Muito bem!

Protestos do PS e do Deputado do Livre Rui Tavares.

O Sr. André Ventura (CH): — Essa é a grande diferença entre nós, mas há outras também. Pergunta a

Sr.ª Deputada: «O que é compatível com a dignidade da pessoa humana?» Sabe o que não é compatível, Sr.ª

Deputada?! É que metade dos condenados por abusos sexuais estejam à solta — isso não é compatível com

a dignidade da pessoa humana! É que metade dos casos sejam arquivados, porque não houve meios por

parte de quem estava a investigar — isso não é compatível com a dignidade da pessoa humana! É haver

crianças abusadas e, 20 anos depois do Caso Casa Pia de Lisboa, este Parlamento ainda não ter mexido uma

palha para defender as nossas crianças.

Protestos da Deputada do BE Isabel Pires.

Essa é a diferença, quanto à dignidade da pessoa humana: nós aprendemos com o Caso Casa Pia de

Lisboa!

Portanto, não é só a Igreja. À Igreja, dizemos hoje: «Assumam as vossas responsabilidades.» E o Estado?!

E aqueles que, durante anos, em instituições do Estado, violaram e abusaram?! No Caso Casa Pia de Lisboa,

que envolveu políticos e altos dirigentes deste País, passados 20 anos, o que é a dignidade da pessoa

humana?! É bater-lhes palmas e deixar que andem à solta?!

Não, Sr.ª Deputada, para nós, as verdadeiras muralhas da cidade é quando esses homens e mulheres não

virem mais a luz do dia.

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Vozes do CH: — Muito bem!

O Sr. André Ventura (CH): — Portanto, em relação a citações, pode sempre usar esta no futuro: «Para

nós, pedófilo bom é pedófilo preso.»

Aplausos do CH.

O Sr. Presidente: — Para intervir, em nome do Grupo Parlamentar do PS, tem a palavra o Sr. Deputado

Eurico Brilhante Dias.

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Este debate chega ao fim.

Praticamente, termina.

Este debate foi suscitado, em grande medida, por algo muito grave, por algo que, na espuma dos dias, diz

respeito àquilo que aconteceu numa instituição importante deste País, algo que teve uma comissão

independente. Essa comissão independente trouxe à luz do dia vários aspetos, várias opiniões, mas, acima de

tudo, testemunhos, testemunhos esses que não deixam ninguém indiferente.

É por isso que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista, com outros grupos parlamentares deste

Hemiciclo, propôs, na 1.ª Comissão, um grupo de trabalho que pudesse ouvir não só a comissão

independente, mas também outras entidades,…

O Sr. André Ventura (CH): — Quando?! Hoje? Ontem?

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — … para refletir, de forma cuidada, sobre a legislação para o futuro,

sabendo sempre que este tema não se resolve apenas com a lei penal.

Este tema resolve-se com canais de denúncia adequados e faz-se com a intervenção social junto dos mais

vulneráveis, para que saibam que os abusos sexuais de menores não são admissíveis na sociedade de hoje e

não são admissíveis em qualquer circunstância. Devemos estar, hoje, ao lado das vítimas e produzir uma

legislação que as proteja no futuro, dentro de um marco constitucional que é o marco da defesa da dignidade

da pessoa humana,…

Aplausos do PS.

… dentro de um marco constitucional que defende a vítima, mas que não é um «rolo compressor» de

direitos, liberdades e garantias.

Nós somos um grupo parlamentar que está particularmente sensibilizado em relação aos mais

vulneráveis,…

O Sr. André Ventura (CH): — Sim, sim!

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — … que está focado nas vítimas e que está focado, também, nos

direitos de cada cidadão deste País, na sua defesa e na oportunidade que têm de se defender, assim como de

garantir que a justiça penal é aplicada de forma adequada a quem não cumpre a lei, a quem prevarica.

Termino a intervenção deste grupo parlamentar, dizendo que há muito trabalho a fazer em conjunto. Esse

trabalho em conjunto deve ser feito por todos os Deputados deste Hemiciclo, e contam com o nosso grupo

parlamentar para o fazer. Mas é preciso dizer, de forma clara e taxativa: este grupo parlamentar nunca se

somará àqueles que se aproveitam das vítimas para fazer a política do populismo, a política da punição, sem

nunca serem capazes, neste Hemiciclo, de falar dos fatores que levam ao abuso e das instituições que levam

ao abuso.

O Sr. Filipe Melo (CH): — Casa Pia!

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O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Chegámos ao limite de ter, neste Hemiciclo, durante este debate, um

Deputado da extrema-direita parlamentar a dizer que a esquerda parlamentar queria falar da Igreja, quando o

seu grupo parlamentar apresenta um conjunto de diplomas em que fazem uma referência direta à Igreja e à

comissão independente — apenas não o fazem em um. Se havia grupo parlamentar que queria falar da Igreja

e dos abusos sexuais na Igreja Católica, esse grupo parlamentar era o da extrema-direita parlamentar, que,

com vergonha, se escondeu lá atrás, para apontar o dedo acusador à esquerda e para ocultar que apenas

marcou este debate, neste Hemiciclo, não para salvaguardar as vítimas, mas para tentar subir mais algumas

décimas nas sondagens que são publicadas a cada semana.

Aplausos do PS.

Protestos do CH.

Se houvesse debate em que fosse possível traçar uma linha entre os democratas, entre aquilo que disse a

Iniciativa Liberal, o PSD, o PS, o PCP, o Bloco de Esquerda, o PAN e o Livre, e os outros, era este. De um

lado, está quem quer resolver problemas;…

Risos da Deputada do CH Rita Matias.

… do outro lado, só está quem quer viver dos problemas e crescer com os problemas.

Aplausos do PS.

Protestos do CH.

O Sr. Presidente: — O Sr. Deputado tem um pedido de esclarecimento. Para o formular, tem a palavra o

Sr. Deputado André Ventura, do Chega.

O Sr. André Ventura (CH): — Sr. Presidente, Sr. Deputado Eurico Brilhante Dias, foi preciso chegarmos ao

fim deste debate para que o PS, o seu líder parlamentar, assumisse a sua posição, já que o Governo,

vergonhosamente, optou por estar ausente num tema tão importante como este.

Vozes do CH: — Muito bem!

O Sr. André Ventura (CH): — A última nota que quero deixar, antes do encerramento deste debate, é

sobre a vergonhosa ausência do Governo em matéria de abuso sexual de menores. O Governo lá saberá

porquê!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Muito bem!

O Sr. André Ventura (CH): — Mas, Sr. Deputado, nós estamos muito à vontade nesta matéria, seja quanto

à Igreja Católica, seja fora dela.

Neste momento, o orador exibiu algumas notícias.

Olhe: «Chega defende a castração química de padres abusadores.» Muito antes de qualquer um dos

senhores defender o que quer que fosse sobre isto, aqui estava, claríssima, a nossa posição sobre a Igreja!

«Chega defende a suspensão preventiva dos padres abusadores.»

Aplausos do CH.

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Muito antes de qualquer conversa, já o Chega estava ao lado das vítimas, a pedir essa justiça.

Por isso, Sr. Deputado, a pergunta que fica é esta: porque é que só quando este debate já estava

agendado e marcado, só quando as iniciativas legislativas já estavam em cima da mesa é que o Partido

Socialista tentou lavar um bocadinho a cara e vir com um grupo de trabalho feito à última hora, excluindo o

único partido que, precisamente, trouxe este tema a debate?

Não, Sr. Presidente e Srs. Deputados! O PS não quer nem discutir, nem analisar o tema. O PS quer atrasar

essa análise, com mais grupos, com mais discussão, com mais legislação. Para quê?! Para que nunca haja

nenhuma solução sobre isto.

O PS e este grupo parlamentar sabem que, quanto mais se atrasar isto, melhor para alguns, em Portugal.

Vozes do CH: — Exatamente!

O Sr. André Ventura (CH): — Do lado da defesa desses interesses, estará o PS; do lado das vítimas,

firme, à espera de que esses interesses sejam vergados e que seja colocado na prisão quem tem de ser lá

colocado, estará o nosso grupo parlamentar.

Por isso, Sr. Deputado, se tem todo o espectro parlamentar consigo na defesa dessa matéria, ainda bem

que nós lá não estamos. Isso é sinal de que, orgulhosamente sós, conseguiremos e continuaremos a lutar

contra os pedófilos em Portugal.

Aplausos do CH.

O Sr. Presidente: — Para responder, tem a palavra o Sr. Deputado Eurico Brilhante Dias.

A Sr.ª Rita Matias (CH): — Um mea culpa ficava-lhe bem!

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, o Sr. Deputado André Ventura

não fez verdadeiramente uma pergunta. O Sr. Deputado André Ventura diz que constituímos, ou pretendemos

constituir, um grupo de trabalho que exclui o Chega.

Não. Nós fizemos uma proposta, que foi subscrita por diferentes grupos parlamentares, para constituir um

grupo de trabalho na 1.ª Comissão.

O Sr. Bruno Nunes (CH): — Isso é falso!

O Sr. André Ventura (CH): — Não nos chegou nenhuma proposta!

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — A ideia é tão boa que, como disse hoje o Sr. Deputado Fernando

Negrão, o Grupo Parlamentar do Chega já fez um outro requerimento, propondo um grupo de trabalho.

O Sr. André Ventura (CH): — Por causa de vocês!

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — É, por isso, com alguma preocupação que vejo que este debate, mais

uma vez, acaba por ser reconduzido não à proteção das vítimas — porque, como foi dito pela Sr.ª Deputada

Cláudia Santos, as vítimas, infelizmente, já não poderão usar a seu favor este quadro jurídico que seria

construído —, mas aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, acabando o Sr. Deputado André Ventura

e a extrema-direita parlamentar…

Protestos do Deputado do CH Bruno Nunes.

… por, nesta última intervenção, numa pergunta a esta bancada, voltar a falar daquilo que verdadeiramente

querem: ter penas que violam a dignidade do ser humano. É por isso que voltou a falar da castração química.

Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, entre a construção da Constituição, de uma Constituição

democrática que protege direitos, liberdades e garantias, e aquelas que são as propostas da extrema-direita

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parlamentar, há uma linha vermelha clara. É por isso, Sr. Deputado, que continua a dizer — como acabou de

dizer — uma frase que eu nunca diria, nesta bancada: «Orgulhosamente sós.» Para nós, o «orgulhosamente

sós», nunca mais! O «orgulhosamente sós», Sr. Deputado, nunca mais!

Aplausos do PS.

Protestos do CH.

O Sr. Presidente: — Tem de concluir, Sr. Deputado.

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Sr. Presidente, termino já.

Digo isto, porque, evidentemente, 25 de Abril, sempre!

Aplausos do PS.

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Onde estava no Caso Casa Pia?!

O Sr. Presidente: — Para encerrar o debate, em nome do Grupo Parlamentar do Chega, tem a palavra o

Sr. Deputado Pedro Pinto.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Gostaria de cumprimentar o Governo,

mas o desprezo que dão por este tema está bem à vista. O Governo esteve ausente deste debate, como

estiveram quase todos os partidos políticos.

Ontem, foi o Dia Internacional da Mulher. Estivemos todos aqui, a bater no peito, a elogiar as nossas

mulheres.

Protestos do PS, do PCP e do BE.

A Sr.ª Joana Mortágua (BE): — Vossas, o quê?! Não conte com isso!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — À hora que estávamos aqui…

Continuação dos protestos do PS, do PCP e do BE.

O Sr. Presidente: — Sr.as e Srs. Deputados, peço silêncio.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — As nossas mulheres, as mulheres portuguesas, as mulheres mundiais!

Protestos do PS e do BE.

O Sr. Presidente: — Peço perdão por interromper, Sr. Deputado.

Peço às Sr.as e aos Srs. Deputados…

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Estão muito nervosos, hoje. É bom sinal!

O Sr. Presidente: — … que sejam criadas as condições para que o debate possa ser encerrado. Uma

coisa é certa: o debate não será encerrado sem o grupo parlamentar que tem direito a encerrá-lo se poder

exprimir.

Faça favor, Sr. Deputado.

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O Sr. Pedro Pinto (CH): — Vou repetir aquilo que disse: estivemos aqui a homenagear as nossas

mulheres — a mulher portuguesa e a mulher mundial.

Aplausos do CH.

À hora em que estávamos aqui, estava a ser detido um violador em Loures. Estava a passear no metro.

Tinha violado uma mulher em 2020. Esta é a justiça que existe em Portugal. Deveria estar a cumprir quatro

anos de cadeia.

Protestos da Deputada do BE Joana Mortágua.

Quatro anos de cadeia para um violador!

Também no abuso sexual de menores, o Chega exige que se aumentem as penas. O combate aos abusos

sexuais de menores em Portugal tem de ser feito, tem de ser prático e efetivo, e, por isso, trouxemos este

tema a debate.

Como não perceberam o que é que se passou durante este debate,…

A Sr.ª Paula Cardoso (PSD): — Pois! Nós somos burros, vocês é que são espertos!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — … vou fazer um pouco de mímica.

O Paulo abusou sexualmente da Joana, que tinha 7 anos. O Paulo abusou sexualmente da Mariana, que

tinha 8 anos. O Paulo abusou sexualmente do João, que tinha 9 anos. O Paulo abusou sexualmente do

Eurico, que tinha 4 anos. O Paulo abusou sexualmente do Joaquim, que tinha 5 anos. O Paulo abusou

sexualmente do Rodrigo, que tinha meses.

Protestos de Deputados do PS e do BE.

O Paulo, hoje, está livre da cadeia, que era onde devia estar. Devia estar a apodrecer na cadeia. Aí é o

sítio dos pedófilos. Aí é o sítio onde têm de cumprir as penas pelos crimes.

Aplausos do CH.

Falaram todos. Blá-blá-blá, sim, senhor, estão todos muito preocupados com o tema, mas o que é certo é

que, na hora de se falar em castração química e na hora de se falar em prisão perpétua, não pode ser.

«Dignidade humana», dizem eles, «dignidade humana».

Alguém aqui hoje falou na dignidade das vítimas?!

A Sr.ª Rita Matias (CH): — Muito bem!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Fala-se muito na dignidade humana dos pedófilos, mas nós pensamos muito

na dignidade humana das vítimas, daqueles contra quem foram cometidos crimes. Nós estaremos sempre do

lado das vítimas, contra os criminosos.

Aplausos do CH.

São casos reais, casos de famílias devastadas, crianças traumatizadas. Não pensem que só acontece na

Igreja, ou aqui, ou ali. Acontece em muito lado. Por exemplo, em Évora, uma mãe, alegadamente, terá

impedido a filha de 8 anos de denunciar que era violada pelo padrasto; em Loures, houve um detido por

agredir toda a família e abusar de uma filha com 14 anos; um padrasto e um septuagenário foram detidos por

abuso sexual de crianças; um casal foi detido por violar a própria filha ao longo de 18 anos.

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Não é só na Igreja que acontece. Acontece na Igreja, e nós condenamo-lo veementemente, mas,

infelizmente, acontece diariamente no nosso País. É uma realidade que queremos ocultar, que não podemos

ocultar e que teremos de trazer aqui, sempre, a debate.

Sabemos que o Partido Socialista irá chumbar todas as nossas propostas, mas também sabemos que será

por mera ideologia — as tais «linhas vermelhas» que o Sr. Deputado Eurico Brilhante Dias tanto gosta de

traçar e de que tanto gosta de falar. Mas fica na vossa consciência.

Protestos de Deputados do PS.

A linha vermelha que estão a traçar é para com os menores vítimas de abusos sexuais, e não para com o

nosso partido. Se havia algum partido que devia estar ao lado do aumento das penas para crimes de abusos

sexuais, devia ser o Partido Socialista, até pelo seu passado, que envergonha toda esta Casa e que muitos

tentam ocultar.

Aplausos do CH.

Protestos do PS.

Os que hoje enchem a boca com os abusos sexuais na Igreja são os mesmos que tentaram ocultar o Caso

Casa Pia e que, ainda hoje, escondem a cara e escorregam nas cadeiras quando se fala nesse assunto.

Vozes do CH: — Muito bem!

Protestos do PS, tendo Deputados batido com os pés no chão.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Incompreensível é o PSD não apresentar uma proposta sobre este tema.

Incompreensível…

Continuação dos protestos do PS, com Deputados a bater com os pés no chão, e contraprotestos de

Deputados do CH.

Sr. Presidente, continuam a bater. Assim, não posso terminar.

Continuação dos protestos do PS.

O tempo continua a contar. Peço que…

Continuação dos protestos do PS.

Posso terminar?!

Pausa.

Incompreensível é o PSD aliar-se à extrema-esquerda para deixar o Chega de fora de um grupo de

trabalho. Incompreensível é esta forma de o PSD fazer oposição.

Do PS, ficámos a saber que a Sr.ª Deputada Cláudia Santos tem bom gosto de leitura. Já é um bom sinal,

mas só isso não chega.

Podem-nos meter fora dos grupos de trabalho, que apenas servem para tapar os olhos ao povo. Com

linhas ou sem linhas, a nós não nos calarão!

Vozes do CH: — Muito bem!

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O Sr. Pedro Pinto (CH): — Da nossa parte, não compactuamos com crimes de pedofilia. O lugar do

pedófilo é na prisão, seja ele padre ou juiz, político ou jornalista, alto ou baixo, gordo ou magro. Deve haver

tolerância zero ao abuso sexual de menores, combate sem tréguas e, enquanto houver um caso, isso significa

que a classe política não fez o seu trabalho.

Aplausos do CH, de pé.

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Sr. Presidente, peço a palavra.

O Sr. Presidente: — Sr. Deputado Eurico Brilhante Dias, pede a palavra para que efeito?

O Sr. Bruno Nunes (CH): — É para fazer uma intervenção política sobre fazer uma interpelação à Mesa!

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — É para a defesa da honra da bancada, Sr. Presidente.

Vozes do CH: — Ah!

O Sr. Presidente: — Faça favor, Sr. Deputado.

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, infelizmente, temia que este

momento chegasse. A extrema-direita parlamentar não tem limites e é por isso que as linhas vermelhas são

definidas. São traçadas porque, na política e na sociedade portuguesa, no quadro da convivência que a

comunidade tem, há princípios que são fundamentais.

Protestos de Deputados do CH.

O primeiro deles é não só a presunção de inocência, como o direito de todas as instituições terem a

possibilidade e a capacidade de se relacionarem com a justiça e de, sendo inocentadas, ou nem sequer

acusadas, manterem o seu bom nome preservado.

Vozes do PS: — Muito bem!

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Qualquer associação de qualquer crime desta natureza ao Partido

Socialista, só por si, é insultuosa.

Risos do Deputado do CH Pedro dos Santos Frazão.

É um insulto gratuito a uma instituição que vai fazer 50 anos este ano e que esteve sempre ao lado da

democracia,…

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Ao lado das bancarrotas, também!

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — … da liberdade, dos direitos, das liberdades e das garantias, e que

nunca, nunca deixou para trás nenhum cidadão.

Protestos do Deputado do CH Pedro dos Santos Frazão.

O Partido Socialista, partido de que tenho a honra de ser militante, dirigente e, neste caso, líder

parlamentar, é um pilar do regime democrático…

Aplausos do PS, de pé.

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… e não pode ficar, em nenhuma circunstância, associado a uma infâmia como esta.

As alusões que são feitas ao Caso Casa Pia, que transitou em julgado e que foi um caso muito difícil para a

comunidade no seu conjunto, são alusões que vêm hoje a terreiro porque a extrema-direita parlamentar não

tem nunca nem propostas, nem soluções.

A Sr.ª Rita Matias (CH): — Cinco propostas!

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — Só hoje, são cinco!

O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Tem apenas, na ponta da espingarda, o insulto infame.

Aplausos do PS.

Sr.as e Srs. Deputados, se era preciso uma prova de como, na política, há diferença entre democratas e

não democratas, hoje, isso ficou bem patente, depois desta última intervenção.

Aplausos do PS, de pé.

O Sr. Presidente: — Para dar satisfações, querendo, tem a palavra o Sr. Deputado Pedro Pinto, do Chega.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — Sr. Presidente, teve de ser esta intervenção do Sr. Deputado Eurico Brilhante

Dias para lhe baterem palmas de pé, coisa que não acontecia há muito tempo.

Risos do CH.

Tinha de vir dizer isso do Chega, essas coisas, essa retórica que gosta de dizer, essa homilia que gosta de

fazer mais ou menos a esta hora.

Ó Sr. Deputado Eurico Brilhante Dias, não se trata de presunção de inocência; trata-se do que foi público.

Houve escutas que todos os portugueses ouviram, houve escutas que envergonharam todos os portugueses e

todos os políticos portugueses, e que o senhor não pode ocultar.

Aplausos do CH.

O que não é democrata, Sr. Deputado, é tentar ocultar a verdade. O que não é democrata é tentar ocultar

factos que foram reais, tentar apagar escutas e todo o povo português saber disso.

Protestos do PS.

Sei que o Sr. Deputado Eurico Brilhante Dias não estava habituado a isto. Sei que a bancada do Partido

Socialista não estava habituada a ser confrontada, mas agora vai ter sempre confronto. Da parte da bancada

do Chega, vão ter sempre este confronto. Isto é o regime democrático a funcionar.

A Sr.ª Alexandra Leitão (PS): — Não é, não!

O Sr. Pedro Pinto (CH): — O Sr. Deputado Eurico Brilhante Dias, que gosta muito de dizer «25 de Abril,

nunca mais». Nós, daqui, dizemos…

Protestos do PS e do L, tendo Deputados batido com os pés no chão.

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O Sr. Pedro Pinto (CH): — Estão muito nervosos! Tenham calma, o Sporting ainda não começou! Tenham

calma!

O Sr. Presidente: — Peço silêncio à Câmara.

Sr. Deputado, faça favor de prosseguir.

O Sr. Pedro Pinto (CH): — O Sr. Deputado Eurico Brilhante Dias gosta de dizer «25 de Abril, sempre».

Nós, daqui, dizemos: «Casa Pia, nunca mais!»

Aplausos do CH.

O Sr. Presidente: — Chegamos, assim, ao final do primeiro ponto da nossa ordem do dia.

Antes de entrarmos no segundo ponto, uma vez que ainda não tive ocasião de o saudar e creio que é

adequado fazê-lo aqui, porque o farei, estou certo, em nome da Câmara, queria saudar o Deputado Pedro

Roque, nosso Colega, que foi, na semana passada, eleito Vice-Presidente da Delegação da Assembleia da

República à Assembleia Parlamentar do Mediterrâneo. O protagonismo internacional dos Deputados honra-

nos a todos.

Aplausos gerais, tendo Deputados do PSD aplaudido de pé.

Vamos, então, proceder às votações. Solicito aos serviços que façam a verificação do quórum.

Pausa.

Pergunto se alguma Sr.ª Deputada ou algum Sr. Deputado não conseguiu registar-se digitalmente.

Pausa.

Toda a gente conseguiu registar-se. Peço aos serviços que encerrem…

O Sr. José Carlos Barbosa (PS): — Sr. Presidente, peço a palavra.

O Sr. Presidente: — Faça favor, Sr. Deputado.

O Sr. José Carlos Barbosa (PS): — Não consegui registar-me, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: — Muito bem, fica registado manualmente.

Peço aos serviços que encerrem a verificação do quórum e publicitem o resultado.

Pausa.

Temos quórum, pelo que vamos proceder às votações.

Vamos votar, na generalidade, o Projeto de Lei n.º 150/XV/1.ª (CH) — Impede a suspensão da execução

da pena em caso de condenação por crime de abuso sexual de crianças ou outros conexos.

Submetido à votação, foi rejeitado, com votos contra do PS, do PSD, da IL, do PCP, do BE e do L e votos a

favor do CH e do PAN.

O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — Sr. Presidente, peço a palavra.

O Sr. Presidente: — Sr. Deputado João Cotrim de Figueiredo, pede a palavra para que efeito?

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O Sr. João Cotrim Figueiredo (IL): — É para anunciar que irei apresentar uma declaração de voto escrita.

O Sr. Presidente: — Fica registado, Sr. Deputado.

Segue-se a votação, na generalidade, do Projeto de Lei n.º 600/XV/1.ª (CH) — Aumenta a proteção das

vítimas de abuso sexual de menores, para tanto alterando o Código Penal.

Submetido à votação, foi rejeitado, com votos contra do PS e do PCP, votos a favor do CH, da IL e do BE e

abstenções do PSD, do PAN e do L.

O Sr. Joaquim Miranda Sarmento (PSD): — Sr. Presidente, peço a palavra.

O Sr. Presidente: — Sr. Deputado Joaquim Miranda Sarmento, pede a palavra para que efeito?

O Sr. Joaquim Miranda Sarmento (PSD): — É para anunciar que apresentaremos uma declaração de

voto por escrito sobre este projeto de lei.

O Sr. Presidente: — Fica registado, Sr. Deputado.

Votamos, agora, na generalidade, o Projeto de Lei n.º 601/XV/1.ª (CH) — Altera o Código Penal, agravando

as penas aplicáveis aos crimes de abuso sexual de crianças e outros conexos.

Submetido à votação, foi rejeitado, com votos contra do PS, do PSD, do PCP e do BE, votos a favor do CH

e da IL e abstenções do PAN e do L.

O Sr. Deputado João Cotrim de Figueiredo informa a Mesa de que vai apresentar uma declaração de voto,

por escrito, em nome da bancada.

Vamos votar o Projeto de Resolução n.º 461/XV/1.ª (CH) — Recomenda ao Governo o reforço do combate

ao abuso sexual de crianças.

Submetido à votação, foi rejeitado, com votos contra do PS e do PCP, votos a favor do PSD, do CH, da IL,

do BE e do PAN e a abstenção do L.

Segue-se a votação do Projeto de Resolução n.º 504/XV/1.ª (CH) — Proceda a um inquérito nacional de

vitimação e assegure a criação de um canal permanente de denúncia de abusos sexuais.

Submetido à votação, foi rejeitado, com votos contra do PS e do PCP, votos a favor do PSD, do CH e do

BE e abstenções da IL, do PAN e do L.

Passamos à votação, na generalidade, do Projeto de Lei n.º 8/XV/1.ª (PAN) — Alarga os prazos de

prescrição de crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual de menores e do crime de mutilação

genital feminina, procedendo à alteração do Código Penal.

Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade.

Este projeto baixa à 1.ª Comissão.

Votamos agora o requerimento, apresentado pela IL, solicitando a baixa à Comissão de Assuntos

Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, sem votação, por 60 dias, do Projeto de Lei n.º 610/XV/1.ª

(IL) — Aumenta o prazo de prescrição para denúncia de abuso sexual de menor, alterando o Código Penal.

Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade.

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De seguida, votamos, na generalidade, o Projeto de Lei n.º 611/XV/1.ª (BE) — Altera o Código Penal,

aprovado pelo Decreto-Lei n.º 400/82, de 23 de setembro, alargando o prazo prescricional dos crimes contra a

liberdade e autodeterminação sexual de menores e do crime de mutilação genital feminina sendo a vítima

menor.

Submetido à votação, foi aprovado por unanimidade.

O projeto baixa à 1.ª Comissão.

Chegamos, assim, ao fim das votações.

A Sr.ª Deputada Susana Amador pediu a palavra para que efeito?

A Sr.ª Susana Amador (PS): — Sr. Presidente, é para informar que iremos apresentar uma declaração de

voto relativamente à votação dos Projetos de Lei n.os 8/XV/1.ª (PAN) e 611/XV/1.ª (BE).

O Sr. Presidente: — Muito bem, fica registado.

Vamos agora proceder à leitura do expediente, que, desde já aviso, é um pouco volumoso.

Para o efeito, dou a palavra à Sr.ª Deputada Maria da Luz Rosinha.

A Sr.ª Secretária (Maria da Luz Rosinha): — Sr. Presidente e Srs. Deputados, deram entrada na Mesa, e

foram admitidas pelo Sr. Presidente, várias iniciativas legislativas.

Em primeiro lugar, refiro a Proposta de Lei n.º 65/XV/1.ª (ALRAM), que baixa à 1.ª Comissão e o Projeto de

Deliberação n.º 11/XV/1.ª (PSD).

Refiro ainda os Projetos de Resolução n.os 520/XV/1.ª (PSD), que baixa à 6.ª Comissão; 521/XV/1.ª (PS);

522/XV/1.ª (PS), que baixa à 12.ª Comissão; 524/XV/1.ª (PAN), que baixa à 11.ª Comissão; 525/XV/1.ª (IL),

que baixa à 6.ª Comissão; 526/XV/1.ª (L); 529/XV/1.ª (PS), que baixa à 10.ª Comissão; 530/XV/1.ª (CH) e

531/XV/1.ª (CH), que baixam à 6.ª Comissão; 532/XV/1.ª (IL) e 533/XV/1.ª (IL), que baixam à 9.ª Comissão;

534/XV/1.ª (PSD), que baixa à 1.ª Comissão; e 542/XV/1.ª (PCP), que baixa à 6.ª Comissão.

Deram também entrada, e foram admitidos, os Projetos de Lei n.os 612/XV/1.ª (BE), que baixa à 7.ª

Comissão; 613/XV/1.ª (PCP) e 614/XV/1.ª (CH), que baixam à 14.ª Comissão; 615/XV/1.ª (CH), que baixa à

13.ª Comissão; 616/XV/1.ª (CH), que baixa à 10.ª Comissão; e 617/XV/1.ª (CH), que baixa à 3.ª Comissão.

O Sr. Presidente: — Sr.ª Deputada Lina Lopes, peço-lhe que continue a leitura do expediente.

A Sr.ª Secretária (Lina Lopes): — Sr. Presidente e Srs. Deputados, deram ainda entrada na Mesa, e foram

admitidas pelo Sr. Presidente, os Projetos de Lei n.os 618/XV/1.ª (PCP), que baixa à 13.ª Comissão;

620/XV/1.ª (L), que baixa à 9.ª Comissão; 621/XV/1.ª (L), que baixa à 13.ª Comissão; 622/XV/1.ª (L) e

623/XV/1.ª (L), que baixam à 8.ª Comissão; 624/XV/1.ª (PAN), que baixa à 13.ª Comissão; 625/XV/1.ª (PAN),

que baixa à 1.ª Comissão; 627/XV/1.ª (PAN), que baixa à 8.ª Comissão; 628/XV/1.ª (CH), que baixa à 10.ª

Comissão; 629/XV/1.ª (CH), que baixa à 8.ª Comissão; 630/XV/1.ª (IL), que baixa à 6.ª Comissão;

631/XV/1.ª (L) e 632/XV/1.ª (L), que baixam à 5.ª Comissão; e 641/XV/1.ª (PSD), que baixa à 1.ª Comissão.

É tudo, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: — Sr.as e Srs. Deputados, chegamos ao fim dos nossos trabalhos.

O Plenário de amanhã consta, no primeiro ponto da ordem do dia, do debate de urgência, requerido pela

Iniciativa Liberal, sobre o tema «O estado do transporte ferroviário em Portugal», seguindo-se, no segundo

ponto, a apreciação da Proposta de Lei n.º 62/XV/1.ª (GOV) — Estabelece o regime jurídico das sociedades

desportivas.

No terceiro ponto discutir-se-á a Conta Geral do Estado de 2021, seguindo-se, no quarto ponto, a

apreciação da Petição n.º 31/XV/1.ª (Grupo Cimeira de Motoristas) — Profissão de desgaste rápido para todos

os motoristas de veículos pesados, em conjunto com o Projeto de Lei n.º 588/XV/1.ª (BE) — Redução da idade

de acesso à pensão de velhice dos motoristas de veículos pesados e os Projetos de Resolução n.os 398/XV/1.ª

(PSD) — Recomenda ao Governo a realização de um estudo para definir os critérios que identifiquem

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profissões de desgaste rápido bem como a sua regulamentação, 432/XV/1.ª (PCP) — Recomenda ao Governo

que proceda à definição e regulamentação de um regime laboral e de aposentação específico para os

trabalhadores do setor dos transportes, 459/XV/1.ª (CH) — Recomenda ao Governo que a profissão de

motorista de veículos pesados de mercadorias e de passageiros seja considerada de desgaste rápido, e

460/XV/1.ª (CH) — Recomenda ao Governo que proceda ao levantamento de todas as profissões que devem

ser consideradas de desgaste rápido.

No quinto e último ponto teremos votações regimentais.

Está encerrada a sessão.

Até amanhã.

Eram 17 horas e 42 minutos.

———

Declarações de voto enviadas à Mesa para publicação

Relativa ao Projeto de Lei n.º 601/XV/1.ª:

No passado dia 9 de março, a Assembleia da República votou o Projeto de Lei n.º 601/XV/1.ª (CH) —

Altera o Código Penal, agravando as penas aplicáveis aos crimes de abuso sexual de crianças e outros

conexos. A Iniciativa Liberal votou a favor do referido projeto de lei, tendo anunciado a apresentação de uma

declaração de voto, que agora concretiza.

Este projeto de lei surge na sequência da apresentação e divulgação do Relatório Final da Comissão

Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que concluiu

pela existência de abusos sexuais no seio desta instituição.

Como tal, a Iniciativa Liberal apresentou, por sua vez, um projeto de lei que aumenta o prazo para

denunciar estes crimes, considerando tratar-se de um passo necessário para a realização da justiça em casos

como estes.

Neste contexto, o partido Chega veio propor um aumento das penas aplicáveis aos crimes de abuso sexual

de crianças e outros conexos.

O partido Chega já havia apresentado um projeto de lei semelhante na Legislatura passada, tendo a

Iniciativa Liberal votado também favoravelmente.

Considerando que as molduras penais vigentes apresentam algumas incoerências, por isso equacionámos

possíveis alterações no caso concreto do abuso sexual de menores.

A título de exemplo, o artigo 204.º do Código Penal estabelece no seu n.º 2 que

«Quem furtar coisa móvel ou animal alheios:

a) De valor consideravelmente elevado;

b) Que possua significado importante para o desenvolvimento tecnológico ou económico;

c) Que por sua natureza seja altamente perigosa;

d) Que possua importante valor científico, artístico ou histórico e se encontre em colecção ou exposição

públicas ou acessíveis ao público;

e) Penetrando em habitação, ainda que móvel, estabelecimento comercial ou industrial ou outro espaço

fechado, por arrombamento, escalamento ou chaves falsas;

f) Trazendo, no momento do crime, arma aparente ou oculta; ou

g) Como membro de bando destinado à prática reiterada de crimes contra o património, com a colaboração

de pelo menos outro membro do bando;

é punido com pena de prisão de 2 a 8 anos.»

Por sua vez, o crime de abuso sexual de criança é punido pelo artigo 171.º com uma moldura penal que

varia de 1 a 8 anos.

Concordamos com o sinal de clara censura social transmitido pelo aumento da moldura penal, embora

plenamente conscientes de que a justiça não equivale a vingança e de que o aumento das penas, por si só,

não soluciona todos os problemas da criminalidade.

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10 DE MARÇO DE 2023

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Não obstante este aumento de penas em concreto poder contribuir para a prevenção geral no combate ao

crime, consideramos que esta deve ser a última linha de intervenção do direito penal.

Os Deputados da Iniciativa Liberal, Bernardo Blanco — Carla Castro — Carlos Guimarães Pinto — Joana

Cordeiro — João Cotrim Figueiredo — Patrícia Gilvaz — Rodrigo Saraiva — Rui Rocha.

———

Relativa ao Projeto de Lei n.º 150/XV/1.ª:

No passado dia 9 de março de 2023, a Assembleia da República votou o Projeto de Lei n.º 150/XV/1.ª (CH)

— que visava impedir a suspensão da execução da pena em caso de condenação por crime de abuso sexual

de crianças ou outros conexos. A Iniciativa Liberal votou contra o referido projeto de lei e anunciou a

apresentação de uma declaração de voto, que agora concretiza.

A Iniciativa Liberal condena veementemente todos os crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual.

Consideramos indispensável tomar medidas para diminuir estes crimes, que geram alarme social e produzem

uma justificada reação emocional junto dos portugueses.

Por tal motivo, a Iniciativa Liberal tem estado sempre na primeira linha deste debate, com a apresentação

de várias propostas relacionadas com este tipo de crime.

Contudo, a Iniciativa Liberal não pode concordar com os termos e soluções apresentadas pelo referido

Projeto de Lei n.º 150/XV/1.ª

A possibilidade de suspensão da execução da pena existe porque, em determinados casos concretos,

atendendo à personalidade do agente, às condições da sua vida, à sua conduta posterior ao crime e às

circunstâncias deste, a ameaça de prisão realiza de forma adequada e suficiente as finalidades da punição.

Na base da decisão de suspender a execução da pena encontra-se um juízo de prognose favorável de que

o arguido entenderá a condenação como uma séria advertência que previna a reincidência, cumprindo assim a

finalidade de prevenção especial.

A suspensão da execução da pena pode ser aplicada ao arguido sem que lhe seja associada qualquer

obrigação, contudo esta também pode ser subordinada ao cumprimento de deveres ou regras de conduta ou

ser acompanhada de regime de prova.

A suspensão da execução da pena não é, portanto, uma carta em branco, visto que pode ser revogada se

forem infringidos os deveres a ela associados ou caso se verifique a continuação da prática criminosa.

A possibilidade de se determinar a suspensão da execução das penas é relevante para promover as

finalidades do direito penal, nomeadamente a prevenção geral e especial.

É ainda factualmente falso que o «julgador, em muitos casos, é obrigado a suspender a execução da pena

de prisão aplicada». Ao invés, a lei estabelece a possibilidade de ser aplicada a suspensão de execução da

pena sob certas e determinadas condições, decisão que deve ser devidamente fundamentada.

Para ser aplicada a suspensão de execução da pena tem de ficar demonstrado que se verificam os seus

pressupostos de aplicação, quer de natureza formal quer de natureza material.

Uma vez verificados estes pressupostos, torna-se necessário perceber se a simples censura do facto e a

ameaça da prisão bastam para o cumprimento dos fins do direito penal.

Excluir alguns tipos de crime da possibilidade de suspensão do exercício da pena é uma discriminação

injustificada. Põe em causa toda a harmonia do sistema penal, que institui como requisito que a aplicação do

instituto de suspensão apenas pode ocorrer caso a pena de prisão aplicada seja inferior a 5 anos,

independentemente do tipo de crime.

Ademais, o partido proponente não invoca razões para distinguir estes crimes de outros além do alarme

social que estes em especial provocam, pelo que se conclui que este projeto viola a generalidade e abstração

da lei.

Pode estar, inclusive, em causa o imperativo constitucional de proporcionalidade.

Os crimes contra a liberdade e a autodeterminação de menores, assim como outras tipologias criminais,

podem assumir diversas formas de execução, justificando assim um juízo diverso de censura, daí a existência

de diferentes medidas da pena e diferentes aplicações desse instituto. Como tal, a suspensão de execução da

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I SÉRIE — NÚMERO 99

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pena não pode ser excluída como instrumento penal comum a todas as formas de crime contra a liberdade e a

autodeterminação de menores.

A suspensão da execução da pena não pode estar dependente do tipo de crime, mas sim da pena aplicável

a cada crime, pelo que não acompanhamos esta iniciativa.

Há várias medidas propostas pela comissão independente que estudou os abusos no seio da Igreja

Católica que não implicam a diminuição desproporcional de direitos, liberdades e garantias ou medidas ad hoc

e inconstitucionalmente transformadoras do ordenamento jurídico penal.

Os Deputados da Iniciativa Liberal, Bernardo Blanco — Carla Castro — Carlos Guimarães Pinto — Joana

Cordeiro — João Cotrim Figueiredo — Patrícia Gilvaz — Rodrigo Saraiva — Rui Rocha.

———

Nota: As declarações de voto anunciadas pela Deputada do PS Susana Amador e pelo Deputado do

PSD Joaquim Miranda Sarmento não foram entregues no prazo previsto no n.º 3 do artigo 87.º do Regimento

da Assembleia da República.

———

Presenças e faltas dos Deputados à reunião plenária.

A DIVISÃO DE REDAÇÃO.

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