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I SÉRIE — NÚMERO 114

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cultura de flexibilidade e de horários parciais para compatibilizar diversos estilos de vida — embora tenha havido

alguma abertura, recentemente, em termos de teletrabalho, que, obviamente, não é aplicável em todas as

profissões.

Temos uma economia pobre, com baixa cobertura de respostas sociais aos idosos e à deficiência, em que

as mulheres assumem o papel de cuidadoras. Não temos uma economia pujante nem uma cultura de

flexibilidade e diversidade. A isso, acrescem fatores de ansiedade à maternidade.

A solução não é procurar igualar o que é diferente; é, sim, garantir igualdade de escolha e de oportunidades,

seja para homens, seja para mulheres, e, respetivamente, respeitar.

Isto melhora-se por diversas vias, com licenças e horários que permitam uma melhor gestão entre trabalho

e família. É notório que, em profissões onde isto acontece, há mais paridade. É que, além da lei, há uma prática

e há que lutar contra uma cultura que beneficie a tomada de decisões com base informal e, muitas vezes, em

lógicas fechadas.

Infelizmente, assistimos, e há que dizê-lo, a muitas realidades do tipo dos chamados «clubes do Bolinha»,

onde a mulher não entra. Isto tem um efeito pernicioso nas escolhas, nas promoções e nas lógicas de

informalidade nas empresas.

Estas não são perceções infundadas ou crenças pessoais. Vejamos exemplos: em países e setores onde

isto não acontece, há mais paridade, em horários e em profissões. Em países onde, por exemplo, a mulher, ao

final da tarde, vai para casa e os homens ficam mais duas ou três horas, há menos paridade. Não se trata

apenas da extensão dos horários de trabalho; estão em causa também a socialização, as concertações, todos

os mecanismos subjacentes, de cada vez que isto acontece.

Reparem no seguinte resultado do estudo, credível e alargado, da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

quase todas as mulheres com experiência no mercado de trabalho concordam com a afirmação de que as

mulheres têm dificuldade em progredir hierarquicamente porque a maioria das empresas é dirigida por homens

e estes preferem promover outro homem.

Srs. Deputados, uma coisa é a lei, outra coisa é a prática. A transparência nos critérios de tomada de decisão

é fundamental, mas também não podemos tratar igual aquilo que é diferente.

Há uma dimensão cultural, por exemplo, no trabalho doméstico não pago, no trabalho de cuidador, formal e

informal, e na educação, que são ainda tarefas de mulheres. Sobre o trabalho doméstico, aquilo que os dados

— no meu entender, de uma forma quase perturbadora — revelam é que, culturalmente, não há avanço nas

novas gerações.

Quanto ao papel das cuidadoras, não podemos ignorar o facto de sermos um País onde as trabalhadoras

têm mais dependentes a seu cargo, sejam crianças, idosos ou pessoas com incapacidade. Temos um Estado

que não tem respostas sociais. Relembramos a taxa de cobertura de 12 % para idosos e, ao contrário do que o

PS disse, não há uma taxa de cobertura e serviços de apoio à primeira infância.

Mais: o Estado tem uma visão assistencialista em relação à mulher, sendo as creches vistas como apoio à

mulher e não como parte do desenvolvimento da criança.

Para terminar, refiro um ponto importante e de que nunca ninguém fala, que é a dificuldade específica das

mulheres como profissionais liberais. Têm dificuldades na maternidade, não têm redes de segurança, estão

dependentes de si próprias, e tudo isso é motivo de desincentivo para a própria procura da sua emancipação

financeira.

Temos de olhar, por isso, para toda esta problemática, para as causas, as restrições, as motivações, e

trabalhar a este nível, porque cada pessoa tem de ser livre na sua escolha. E mais: na prática, na cultura, na

coerência, não se pode ser prejudicado nem por se ser homem, nem por se ser mulher. Temos também de lutar

contra os preconceitos e os papéis pré-determinados que a sociedade diz que temos de ter.

Aplausos da IL.

O Sr. Presidente: — Tem, agora, a palavra, para intervir em nome do PCP, a Sr.ª Deputada Alma Rivera.

Há um prémio à espera de quem conseguir conter-se no tempo regulamentar de intervenção.

Risos.