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1 DE JULHO DE 2023

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Não tenhamos ilusões: nós ainda não ultrapassámos os efeitos da pandemia e de muitas outras situações

específicas em Portugal. Em Portugal é difícil de se subir na vida pelo trabalho; os jovens têm poucas

perspetivas ou pensam em emigrar para as terem; temos famílias sem poder de compra; temos pais que não

têm segurança nas escolas; temos avós que veem os netos partirem; não temos um modelo económico-social

que permita ter uma vida gratificante e, muitas vezes, nem sequer dignificante.

Não podemos ter pais presos a ansiolíticos e avós presos a jogos de azar. Que não haja dúvidas, a doença

mental é uma doença, é mesmo uma doença, uma doença que pode ser mitigada através do reforço da

política de saúde mental e de uma governação que priorize a saúde mental e, culturalmente — muito, mas

muito importante —, que não estigmatize e que procure e disponibilize, efetivamente, quer ajuda, quer deteção

precoce.

Mas, por mais recursos que tenhamos, falamos de mitigação, por isso temos de ir às causas, o que não vai

acontecer enquanto não tivermos uma perspetiva de futuro; enquanto não tivermos um ambiente propício ao

crescimento, à possibilidade de subirmos na vida pelo trabalho, a que possamos arriscar; enquanto não

deixarmos de ter um discurso medíocre de que criar riqueza é mau; enquanto mantivermos uma cultura de

ressentimento; enquanto não tivermos igualdade de oportunidades a sério; enquanto o Estado social e os

serviços públicos falharem, sobretudo a quem mais precisa; enquanto a velhice não for encarada com

dignidade; enquanto a escola não for um espaço de felicidade, capacitação e futuro.

Se não formos às causas e não mudarmos o paradigma, andaremos sempre a correr atrás do prejuízo,

andaremos a colmatar com mais psicólogos, mais apoio, mais recursos, mais linhas telefónicas. Podemos e

temos de fazer isso tudo, e temos, sim, de melhorar a política de saúde mental, mas temos mesmo de libertar

o País do desespero.

Aplausos da IL.

A Sr.ª Presidente (Edite Estrela): — Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado João Dias, do

Grupo Parlamentar do PCP.

O Sr. João Dias (PCP): — Sr.ª Presidente, Srs. Deputados, Srs. Membros do Governo: Em Portugal, os

grupos económicos veem o setor da saúde como uma importante área de negócio, que querem e estão a

conquistar.

O Sr. Pedro dos Santos Frazão (CH): — O negócio da doença!

O Sr. João Dias (PCP): — O negócio dos grupos económicos só terá sucesso, Srs. Deputados, se

estiverem garantidas três premissas fundamentais: a primeira, a capacidade de contratar profissionais de

saúde em números, especialidades e especificidades suficientes; a segunda, a degradação da capacidade de

resposta do Serviço Nacional de Saúde; e, finalmente, também a garantia da transferência de recursos

públicos para a contratação de profissionais.

O Sr. Bruno Dias (PCP): — É isso mesmo!

O Sr. João Dias (PCP): — Ou seja, os grupos privados levam-nos os profissionais de saúde do SNS, que

são o seu mais valioso recurso. Sem profissionais de saúde, a assistência e os cuidados prestados nos

hospitais e nos centros de saúde do SNS degradam-se, o que obriga o próprio SNS, por falta de recursos

humanos, a ir comprar ao privado o que não consegue fazer.

Assim, os grupos privados da saúde arrecadam os recursos financeiros públicos para continuarem a

aumentar a sua capacidade de contratar mais profissionais, que nos fazem falta no SNS, fragilizando ainda

mais a resposta, e, sucessivamente, enchem os bolsos com o negócio da doença.

O Sr. Bruno Dias (PCP): — Exatamente!

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