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II SÉRIE — NÚMERO 54

«trata-se da primeira unidade hospitalar do Estado a ser inaugurada na região de Lisboa nos últimos 30 anos».

Projectadas para uma clinica privada de luxo, as instalações do Hospital do Restelo — que recebeu a denominação oficial de S. Francisco Xavier — foram adquiridas pelo actual governo numa fase já adiantada de construção, tendo o negócio gerado de imediato acesa polémica nos meios ligados ao sector da Saúde.

A inauguração ontem realizada — tida por muitos como «meramente simbólica», pois a maioria dos serviços não está ainda em condições de entrar em funcionamento — chegou a estar prevista para Setembro de 1986 e, depois, para o final do ano, sendo sucessivamente adiada devido a múltiplos problemas surgidos na ultimação das obras e na aquisição de equipamentos — o que levou Leonor Beleza a admitir dois administradores e a entregar a condução do processo a uma empresa de consultadoria estrangeira sediada em Londres.

(Memorandum, de 25 de Abril de 1987.)

Tudo começou mal no hospital do Restelo.

(Documento n.° 8)

O Primeiro-Ministro inaugurou na passada semana o Hospital de S. Francisco Xavier, mais conhecido por Hospital do Restelo, uma vez que assenta na antiga Clínica do Restelo. Fê-lo com pompa e circunstância, com a presença de representantes de quase todos os órgãos de comunicação social, mas nem por isso a nova unidade hospitalar arrancou nas melhores condições. Aliás, face à sua situação, face a tudo quanto se tem ouvido, poderá dizer-se, com propriedade, que tudo começou mal no Hospital do Restelo. Até quanto às remunerações dos seus primeiros administradores hospitalares, já em questão.

Desde logo, porque para a pompa e circunstância da inauguração, para a ênfase posta no acto, foi necessário transferir doentes de um outro hospital (Egas Moniz), mas não os que se encontravam mais afectados. Doentes «bons», se assim se pode dizer. Foi na véspera do acto; vinte deles mudaram de cama, não se sabe se de livre vontade, se com a promessa de melhores condições ou por outra qualquer razão.

Tudo começou mal, até pelo «tratamento» de favor que o Governo concedeu, ou pretende conceder, aos elementos da Comissão Instaladora, situação essa que foi alvo de críticas por parte de um administrador hospitalar, em Coimbra. Concretamente, porque os membros da Comissão Instaladora terão «direito» a atribuição de um acréscimo remuneratório que, a con-firmar-se, poderá muito ser alterado a curto prazo — quando o sector da Saúde em Portugal estiver finalmente em ordem, depois dos erros cometidos nos dois últimos ministérios por Gonelha e Leonor Beleza.

Dizíamos que em declarações à Lusa, em Coimbra, um elemento da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) manifestou a sua perplexidade pela atribuição do acréscimo remuneratório acima referido, tendo salientado que «nunca anteriormente se verificou esta situação». Disse ainda desconhecer as razões da Ministra Leonor Beleza na utilização daquele expediente.

«Não se trata de uma situação i/egaí, mas é, no mínimo e certamente, pouco equitativa», acrescentou o mesmo dirigente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, frisando que nenhuma outra comissão instaladora ou conselho de gerência foi contemplado com um acréscimo do género.

O Primeiro-Ministro, que presidiu à cerimónia de inauguração do novo Hospital (a que o Governo deu o nome de S. Francisco Xavier), referiu que se trata da primeira unidade hospitalar do Estado a ser inaugurada na região de Lisboa nos últimos 30 anos.

Considerada «simbólica», a inauguração do chamado Hospital do Restelo chegou a estar anunciada, como o DL na altura noticiou, para Setembro de 1986, mas veio a ser adiada para a passada quinta-feira, devido aos inúmeros problemas surgidos, desde atrasos nas obras e problemas com a sua primeira comissão instaladora, que não terá servido os intuitos da Ministra da Saúde, ou, pelo menos, terá privilegiado as necessidades do sector, em detrimento das «fantasias» de Leonor Beleza. Por isso veio a ser demitida.

Problemas relacionados com a ponta final das obras e a aquisição de equipamentos, sobre os quais, quer o director-geral dos Hospitais, quer a titular da pasta divergiram, apressaram a demissão de dois administradores e a passagem do processo para uma empresa de construção inglesa.

À inauguração do novo Hospital do Restelo —obra que custou três milhões de contos e a médio prazo disporá de meio milhar de camas— estiveram presentes os Ministros da Administração Interna e das Finanças, além, claro, da titular da Saúde.

(Memorondum, de 27 de Abril de 1987.)

Hospital do Restelo é «agência de colocações para cor-relegionários».

(Documento r..° 9)

A inexistência de qualquer critério no preenchimento do quadro de pessoal clínico do novo Hospital do Restelo está a criar um crescente mal-estar entre a classe média, nomeadamente junto dos quadros dos Hospitais Civis de Lisboa (HCL), instituição que está a «fornecer» a maioria dos médicos para a nova unidade hospitalar.

Para além das críticas que são feitas à metodologia da escola —«baseada em meros critérios político--partidários ou de amizade»— os médicos dos HCL mostram-se ainda preocupados com «a sangria que se prepara nos quadros da instituição, já de si tão desfalcados».

Chefes de serviço e directores clínicos salientaram ao Expresso a sua «perplexidade» perante o facto de a Comissão Coordenadora dos HCL pretender conseguir uma autorização do Governo para contratar à tarefa médicos actualmente no desemprego, «ao mesmo tempo que permite que muitos dos seus profissionais saiam para o Hospital do Restelo».

Perante esta situação, as mesmas fontes referem que se corre o risco de o novo Hospital «acabar por apenas substituir alguns serviços dos HCL, em vez de, como se afirma pretender-se, vir constituir um reforço das unidades hospitalares existentes».

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