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II SÉRIE-A — NÚMERO 4

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É altamente improvável não ultrapassarmos a barreira do 2ºC sem uma alteração profunda e imediata do

nosso modo de vida, a nível global, incluindo os atuais modelos globais de governação dos bens comuns (limites

planetários), e sem a utilização de tecnologias de captura e armazenamento de CO2 (CCS – Carbon Capture

and Storage 5).

As Nações Unidas, em reação à presente pandemia por COVID-19 declararam que «no final do dia, a saúde

das pessoas e a saúde do planeta estão intimamente relacionadas»6.

A Organização das Nações Unidas para o ambiente afirma também que a atividade humana alterou todos os

cantos do planeta, de terra ao oceano e que, à medida que continuamos a invadir incansavelmente a natureza

e a degradar os ecossistemas, colocamos em risco a saúde humana, salientando que 75% de todas as doenças

infeciosas emergentes são zoonóticas, ou seja, vírus originários da transferência de animais para humanos.

A perda de habitats e da biodiversidade tem acelerado a emergência das doenças zoonóticas. As alterações

climáticas, por conduzirem a uma perda da biodiversidade, dão também o seu contributo indireto.

Em síntese, a pandemia por COVID-19 permitiu-nos um primeiro vislumbre do que poderá ser o nosso futuro

se não agirmos de forma imediata e assertiva na forma como lidamos com a natureza, com a biodiversidade e

com as alterações climáticas 7.

Estamos a menos de 8 anos do ponto de não retorno ao nível da estabilidade climática mundial. A questão

do ponto de não retorno é de extrema importância. É mesmo sem retorno, pelo menos durante séculos. Depois

de atingirmos uma determinada concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera já não há mais nada

que possamos fazer porque se dá um reequilíbrio natural do sistema terrestre que só poderá regressar ao clima

que conhecemos hoje e que tem sido a base da sustentação da vida como a conhecemos, nos últimos 12 mil

anos, vários séculos depois.

Eventos climáticos extremos, como cheias, furacões, secas, incêndios florestais, subida do nível do mar,

escassez de água potável, desertificação de extensos territórios (os cientistas dizem que abaixo do paralelo 40

os territórios serão inabitáveis. Em Portugal o paralelo 40 é na Figueira da Foz), disseminação de doenças, entre

outros efeitos que nos parecem inimagináveis. Sobre a disseminação de doenças os cientistas preveem que

ocorra via as atuais doenças tropicais que passarão a ocorrer mais a norte (e mais a sul, consoante os

hemisférios) e também por via dos milhares de vírus e bactérias que estão inativos nas terras congeladas do

Ártico (permafrost), terras essas que estão já a descongelar 8.

Do ponto de vista económico, como já reiteradamente afirmado por entidades como a OCDE e o Banco

Mundial, o custo de não reduzir emissões de gases com efeito de estufa é muito superior ao custo da redução

de emissões, seja pelos custos de resposta às diferentes catástrofes provocadas pelas alterações climáticas

seja pelos custos da adaptação dos territórios às mesmas.

Mais, face ao eminente colapso dos limites planetários, importa perceber como é que cá chegámos, quem

mais contribuiu para as alterações climáticas, quem mais sofrerá com o impacto das alterações climáticas e o

que poderemos ainda fazer.

Entre a década de 50 e 1988, ano em que atingimos as 350 partes por milhão de dióxido de carbono na

atmosfera, valor limite do que é considerado o «espaço seguro para a humanidade», o acréscimo anual da

concentração de CO2 na atmosfera foi de cerca de 1,2 partes por milhão. Desde então e até ao ano 2000, o

acréscimo anual da concentração de CO2 na atmosfera acelerou para 1,6 partes por milhão. Na primeira década

do século XXI assistimos a um acréscimo anual de concentração de CO2 de 2,1 partes por milhão. Continuamos

a acelerar as emissões de gases com efeito de estufa na última década. Entre 2010 e 2015 tivemos um

acréscimo anual de 2,4 partes por milhão e, entre 2015 e 2019, o acréscimo anual foi de 2,5 partes por milhão.

Estes números demonstram bem que, até agora, o mundo tem sido incapaz de travar o acréscimo de emissões

e evitar esta catástrofe global.

Até 2004, o maior emissor mundial foi os Estados Unidos da América, ultrapassado pela China, desde então.

Neste momento a China emite mais de o dobro dos Estados Unidos. Estes dois países em conjunto, que

representam 22,5% da população mundial emitem 36% do total dos Gases com efeito de estufa. De seguida

temos um conjunto de oito países, Canadá, Alemanha, Irão, Japão, Brasil, Indonésia, Rússia e Índia que

5 Dados disponíveis na seguinte ligação: http://www.ccsassociation.org/what-is-ccs/ 6Dados disponíveis na seguinte ligação: https://www.unenvironment.org/news-and-stories/statement/unep-statement-covid-19 7 Dados disponíveis na seguinte ligação: https://www.theguardian.com/world/2020/apr/27/halt-destruction-nature-worse-pandemics-top-scientists?CMP=share_btn_tw 8 http://www.bbc.com/earth/story/20170504-there-are-diseases-hidden-in-ice-and-they-are-waking-up

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