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90 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 8

os seus desideratos mercê de uma pressão que unicamente se apoia naquilo que de facto possuem em quantidades que outros, na realidade, não têm? E o curioso - diria mesmo que este termo «curioso» não passará, aqui, de um eufemismo- é que alguns desses tais países esquecem - ou têm apoio para se darem ao luxo de o esquecer- o que seriam as suas carências, a estagnação do seu progresso, se muitas das nações por eles tão violentamente atingidas lhes respondessem com a firmeza necessária para igualmente os deixarem sem aqueles recursos que, por sua vez, também não têm!

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Perdoe-me V. Ex.ª, Sr. Presidente, mas, não resistindo à pergunta, desviei-me do assunto que me levou a esta intervenção. Vou retomá-lo.
Reduzido por razões - repito - que nos são estranhas o nosso abastecimento normal em combustíveis líquidos, criou-se no País uma situação decerto injustificada, mas que nem por isso deixa de ser preocupante.
Demonstra-o as «bichas», longas e constantes, que teimosamente, persistentemente, se mantêm junto dos postos abastecedores; as lamentações e as críticas que, por vezes, em termos de desespero, se vão avolumando, tal qual bola de neve, de Norte ao Sul do País.
Contribuiu possivelmente o Governo para esse estado de preocupação que a situação actual revela? Talvez, mas muito mais por excesso de confiança, por uma indesmentida boa fé, do que por outra razão qualquer.
E digo isto porque não duvido da afirmação peremptória do Sr. Presidente do Conselho, na sua última «conversa em família»: de que, logo aos primeiros sinais de crise, se deu balanço às nossas necessidades e possibilidades, como igualmente se tomaram «as devidas providências para assegurar a normalidade da vida em todo o território, aquém e além-mar».
E mau seria se não fora assim.
Medidas mais drásticas do que as actuais? Decerto que se pensaram e se prepararam, sem prejuízo de, com a maior confiança e para bem de todos nós, as retardar - se não evitar, até - na sua aplicação. O que se pedia, em contrapartida? Unicamente isto: uma contribuição consciente - direi melhor, consciencializada - do público consumidor para que tudo corresse pelo melhor.
A verdade é que não foi assim, e já não creio que o possa vir a ser; mas também não valerá a pena, agora, chorar sobre o leite derramado.
A realidade é só uma, e bem gritante: ao contrário do que, afinal, os responsáveis parecem ter esperado - e pena foi que se não houvesse correspondido a tal esperança -, criou-se uma situação de agravamento, que reputo merecedora de medidas fortemente positivas, rigorosas, se não quisermos ver ainda mais comprometido o estado de relativa carência que o País atravessa.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Há, portanto, que enfrentar, por via de medidas capazes de garantir uma «disciplina», a falta de civismo de muitos, que desnecessariamente agravou uma situação já de si delicada. Só desse modo se enfraquecerão as consequências de um receio que alastra pelo País: o de que as dificuldades se tornarão cada vez mais duras, mais pesadas, pondo, portanto, o egoísmo e as efectivas necessidades de tantos a conjugarem-se pana o agravamento da situação existente.
Separei, propositadamente, a referência a «egoísmo» e a «necessidades» ao pensar nessa corrida às «bombas», nessa- busca quase desvairada de um abastecimento que, afinal, parece poderia garantir-se com um ligeiro e suportável sacrifício para todos.
É que são, na realidade, egoístas quantos procuram encher sistematicamente os seus depósitos com vista à criação, depois, de reservas próprias, que lhes dêem uma relativa segurança para as suas comodidades e os seus passeios, ou até para amanhã poderem afastar no tempo sacrifícios que, a terem de ser impostos, a todos, sem excepção, caberá igualmente suportar.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Mas quantos, também, face a essa realidade insofismável, deixando-se subordinar pela desconfiança e arrastar pelo mau exemplo, não sacrificam a sua comodidade, as suas horas de descanso, o tempo das suas ocupações, enfim - e que prejuízo isso não causa ao País! -, para conseguirem obter de vez em quando uns tantos «litros», sem os quais todo o trabalho de que fundamentalmente as suas vidas dependem - as suas vidas e as dos seus- se poderia considerar seriamente perturbado, se não até comprometido, no dia que vai seguir-se.
É que se não pode esquecer que para muitos o automóvel não é um simples instrumento de luxo ou de prazer, mas sim uma verdadeira ferramenta de trabalho, que os nossos transportes colectivos, pela sua deficiência, em tantos casos merecedora de ser reconhecida dentro do espírito de crítica mais construtiva, estão longe de poder suprir.

O Sr. Alberto de Alarcão: - Muito bem!

O Orador: - Há que saber, assim, separar o trigo do joio, não só para se avaliar da efectiva falta de civismo na resposta dada ao cauteloso e tranquilizante apelo do Governo, como quanto às medidas que, a tal respeito, se imporão tomar.
Todos eles contribuem, é certo, para uma situação que se poderia evitar; mas os primeiros junto-os, como puros açambarcadores que são e egoístas sem desculpa na defesa a que se arrogam quanto a direitos que julgam ser só seus, aos que se vão aproveitando das circunstâncias .presentes para fazerem o abjecto negócio de ganhos suplementares, ou marginais, à custa daqueles que efectivamente precisam. Se não há gasolina a um preço, mas alguém a consegue fornecer por alguns escudos mais, estamos face a uma situação que deve ser encarada sem transigências de qualquer espécie.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Todos esses merecem uma só resposta: as penalidades máximas que a nossa legislação consinta, ou até - se tal for preciso - que ela possa vir a consentir.

Vozes: - Muito bem, muito bem!