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I SÉRIE - NUMERO 83

como um grande valor, um extraordinário valor positivo. Tendo uma vida atribulada, pai de nove filhos e trabalhando extraordinariamente para conseguir fazer face às dificuldades e despesas da sua casa, todas estas consagrações devem tê-lo compensado das amarguras que teve quando abandonou o nosso país e procurou fora dele a consagração que lhe veio a ser atribuída. Mas, para além disso tudo, Jorge de Sena era um combatente da primeira linha, um antifascista profundamente convicto e - é talvez uma novidade para a Câmara - um dos implicados na chamada Revolução de Beja. Isto quer significar que este homem viveu por inteiro todas as modalidades e todas as facetas de uma actividade criadora, em primeiro lugar da sua literatura, dos seus ensaios, da sua poesia, mas também como combatente da primeira linha a favor das liberdades da sua pátria.
Estamos em maré de infelicidade neste ponto, porque estão a acontecer neste país coisas profundamente tristes: a morte de Vitorino Nemésio há pouco tempo e agora a deste homem ainda bastante novo, que acaba de morrer em condições extremamente dramáticas, com um sofrimento atroz e uma coragem excepcional. Posso informar os Srs. Deputados de que na antevéspera de morrer ainda escreveu um extenso artigo, estilo ensaio, para o Diário Popular, o que mostra bem a sua fibra. A doença cruel que o acometeu e que o matou não anestesiou, como seria aliás natural, as suas faculdades intelectuais e anímicas, permitindo-lhe ainda trabalhar, sempre com o mesmo propósito de enriquecer a cultura portuguesa e a cultura hispano-americana.
É com profundo pesar que, antes de mais, queria dizer estas palavras introdutórias. Elas serão mais consagradas e mais expressas em dois votos de pesar que aqui tenho na Mesa e que vou passar a ler.
Voto de pesar apresentado pelo Partido Socialista:

Considerando que a morte de Jorge de Sena constitui uma perda irreparável para a cultura nacional;
Considerando que Jorge de Sena, grande poeta de Portugal, foi também, e sempre, um resistente, um poeta da liberdade, inconformado e inconformista;
Considerando que há uma dívida a saldar em relação a quem, tendo engrandecido a Pátria, longe dela morreu, num exílio sem regresso:

A Assembleia da República manifesta o seu pesar pela morte do grande poeta e grande português Jorge de Sena, recomenda ao Governo que empreenda as diligências necessárias para a trasladação dos restos mortais de Jorge de Sena e para que ao poeta, como merece, sejam feitos funerais nacionais.

O voto de pesar apresentado pelo Partido Comunista Português é do seguinte teor:

No passado dia 3 morreu Jorge de Sena, infelizmente em terra alheia e num período da sua vida em que o povo português muito tinha ainda a esperar do seu saber e do seu talento criador;

Considerando que Jorge de Sena, como poeta e prosador, como professor e investigador, contribuiu inestimavelmente para a renovação, o desenvolvimento e a projecção internacional da literatura e da cultura portuguesas e para um seu conhecimento mais amplo e profundo;
Considerando que Jorge de Sena é uma figura exemplar de criador de cultura, em cuja obra convergem a assimilação de muito do melhor da nossa tradição cultural, a capacidade de inovar e inventar e a sensibilidade às solicitações emergentes do seu tempo histórico;
Considerando que Jorge de Sena foi um democrata que participou activamente na luta contra o fascismo e na condenação ética, cultural e política desse regime que durante longos anos oprimiu a sua e nossa pátria:
Os Deputados do Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português propõem a emissão do seguinte voto de pesar:

A Assembleia da República manifesta o seu profundo pesar pela morte de Jorge de Sena, um dos mais significativos marcos da literatura e da cultura portuguesas, com cujo desaparecimento o povo português perde um grande homem de cultura, de quem muito ainda poderia receber e a quem muito deveria dar;
Endereça à família a manifestação do seu pesar;
Recomenda que se envidem todos os esforços necessários para assegurar ou apoiar a publicação da obra e materiais que Jorge de Sena não pôde chegar a publicar;
Recomenda ainda às entidades competentes que seja posto à disposição da família de Jorge de Sena o apoio eventualmente necessário à trasladação do corpo do poeta para território português.

Se ambos os partidos estiverem de acordo e se não virem nisso qualquer inconveniente, eu ponho à discussão ambos os votos, em conjunto.

O Sr. Manuel Alegre (PS): - Peço a palavra, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: - Faça o favor, Sr. Deputado.

O Sr. Manuel Alegre (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: A morte de Jorge de Sena é um facto nacional, direi mesmo um motivo de luto nacional. Como é óbvio, a Assembleia da República não poderia deixar de se manifestar em relação a este acontecimento.
Os dois votos que estão na Mesa não são contraditórios, são complementares, pelo que nós não temos qualquer objecção a que sejam votados em conjunto, desejando que esta Assembleia no seu todo, representando a vontade nacional, se associe a estes dois votos, prestando assim homenagem a uma grande figura que honrou a nossa pátria e que, por desgraça nossa, morreu longe de Portugal.

O Sr. Olívio França (PSD): - Peço a palavra, Sr. Presidente.

O Sr. Presidente: - Faça favor, Sr. Deputado.