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DIARIO DA CAMARA DOS DIGNOS PARES DO REINO 133

Que houvesse alguma duvida para subir, vá; porém para cair, e para caír quem não póde continuar a estar no poder, e a soffrer o supplicio de estar sentado n´aquellas cadeiras, para não fazer nada, creio que não é costume convocar o parlamento, e se assim o fizessemos o paiz teria pouco a agradecer-nos.

Ouvi ao digno par que retroceder era progredir. Ás vezes, quando nos convem, entendemol-o assim.

(Áparte.)

O que eu desejava saber é o que era o retrocesso e o que era o progresso. Agora pede-se o retrocesso.

Podemos ler diversos auctores; podemos ler, por exemplo, Guizot, que se citou aqui como mestre, mas que foi logo convencido como reaccionario, porque arriscou o throno de Luiz Filippe.

Isto embaraça a gente que quer o bem do seu paiz, não sabendo se ha de seguir as doutrinas do mestre, se ha de seguir os seus exemplos.

Fui accusado de nomear uma presidencia vitalicia. Era o que estava na carta, e, como ella não foi ainda reformada não podia eu, por mim, fazel-a electiva.

Ha um erro capital em nós todos, e de que eu de certo não estou isento, que é pensarmos que aquillo que nós queremos é o que todos querem. Cita-se a opinião publica, e a opinião publica é sempre a nossa.

Julgâmos que todo o universo gira á roda da nossa cabeça.

O republicano protesta que todo o paiz quer a republica; o constituinte que todo o paiz admitte os seus principios; o regenerador da mesma fórma; o progressista, que ás vezes tem progredido retrocedendo, do mesmo modo.

Ora, quem tem de executar a lei póde andar assim aos boléos?

Ai do mundo, ai da monarchia se não houvesse um homem justo sobre a terra, porque emquanto existir esse homem, ha de acontecer o que succedeu n´uma cidade antiga, a qual Deus prometteu não arrazar emquanto n´ella houvesse alguns justos. Confio n´isto.

Eu não posso chamar estupido ao nosso povo. Dizer-se que é venal, uns compradores, outros vendedores de votos, isto poderá dar um grande exemplo ao paiz, mas creio que o não regenera.

Quanto ao bill de indemnidade, direi que a falla do throno a elle se refere, e que o governo de certo apresentará uma proposta n´esse sentido, e então teremos occasião de a apreciar.

Eu espero uma graça do governo, e é que n´esse bill venha venha censura á dictadura condemnando a por ser pequena e mesquinha. Se a dictadura abrangesse tudo, vá; mas uma dictadura miseravel! Uma dictadura mesquinha!!

A dictadura deve ser grande, deve ser arrojada, de outro modo mostra um talento pequeno. Ora, eu julguei ser pequeno de mais para tanto arrojo.

Abandonei já uma vez o poder por entender que não devia emprehender a dictadura.

Mas, dizem-me que para ser dictador é mister ser arrojado e não ser pequeno.

O que eu vejo, pois, é que devemos todos considerar-nos a nós muito grandes e aos outros muito pequenos.

Tambem vejo que se mettem sempre entre nós as nações estrangeiras, e que se condemna sempre o que entre nós se faz; e, embora eu não condemne o que se faz lá fóra, vejo, comtudo, que temos muitos exemplos de casa, e que no nosso paiz se tem feito cousas aproveitaveis e acertadas, e que é desnecessario estar a citar sempre muita cousa, que todos nós sabemos, que se praticam nas nações estrangeiras; assim como vejo que nunca se attende ao que nós fazemos e poderemos fazer.

Apresenta-se-nos agora igualmente o progresso de andar para traz. Antigamente chamava-se a isto progresso de caranguejo.

Com respeito a todos se julgarem iguaes e a não querermos ver superioridade em ninguem, nem mesmo em quem realmente a tem, póde ser que á cadeira da presidencia vá ainda quem queira pôr em pratica o systema de Tarquinio, que para igualar tudo em altura cortava as cabeças ás papoulas mais altas para que não sobresaíssem ás outras. Bem dizia o padre Antonio Vieira que «áquelle que mais amasse de telhas a baixo antes lhe desejava que tivesse commettido um grande crime do que tivesse um grande merecimento, porque para o crime sempre podia haver compaixão, mas que ao merecimento nunca lhe faltaria a inveja».

As grandes illustrações, sr. presidente, devem ser acatadas por todos, porque não só se. honram a si, mas tambem honram o paiz a que pertencem; não se lhes deve, pagar dizendo-se «que emquanto houver um presidente vitalicio, e sobretudo sendo esse presidente chefe de partido as cousas publicas não caminharão bem.»

Quanto a mim, sr. presidente, para esse logar não devem ir senão homens como v. exa. e como outros que ahi têem subido

Uma VOZ: - Todos são iguaes.

O Orador: - Diz a carta que todos são iguaes, mas para pôr em pratica a verdadeira igualdade era talvez desnecessario executar o systema de Tarquinio cortando as cabeças aos mais altos. Eu preferiria que se elevassem antes os pequenos para sermos todos iguaes na grandeza do que se abatessem os grandes para ficarmos todos pequenos.

Pela minha parte conheço-me, e desejo usar antes do livre exercicio da minha palavra é da minha pena do que exercer o mando.

Todos sabem as amarguras por que passam os homens que se sentam n´aquellas cadeiras, e sabe-se tambem que apesar dos grandes espinhos que ellas têem despertam em muitos vontade de se sentar n´ellas. E todos que têem merecimento podem lá ir, e não é necessario que estejamos a abater os nossos adversarios, o que afinal quasi sempre dá resultado contrario. Quanto mais os queremos abater mais os exaltâmos.

Não se tem combatido o projecto de resposta ao discurso, da corôa, mas tem-se usado da palavra para se discutirem varios assumptos. Um d´elles foi a descentralisação.

Sou amigo da descentralisação, porém querel-a e ao mesmo tempo estar a pelejar para que se tirem aos corpos municipaes e locaes todos os meios para administrar, não me parece que seja, uma doutrina harmonica. O que querem? É que o estado decida a que fontes ha de ir elle buscar os seus recursos para prover ás suas necessidades, e que afinal se deixem ficar apenas algumas migalhas para os municipios se governarem? As juntas geraes de districto, as juntas de parochia e as camaras municipaes representam tambem o paiz; não é o governo só.

Eu, sem negar os abusos que possam trazer as faculdades mais amplas que os municipios tem de tributar e de prover ás suas despezas, não posso concordar em que se cerceiem as suas attribuições, para que só o governo, que afinal se diz que governa muito mal, possa recolher os impostos. Não digo mais nada.

O sr. Conde de Valbom: - Protesta solemnemente contra a idéa de que possa dominar no seu espirito qualquer outro sentimento que não seja o de ser util ao seu paiz, e entende que não se póde admittir como defeza que se interprete qualquer critica ou reflexão á conta de um sentimento ruim.

Pugnou pela pratica genuina das instituições pelo amor que lhes tem, e porque receia que da infracção dos principios constitucionaes resultem grandes males para o paiz.

Refere-se de novo á necessidade da reforma da camara dos pares e a outras, e sustenta as idéas que já emittira a tal respeito.

(Os discursos do orador serão publicados quando s. exa. os devolver.)