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l DE FEVEREIRO DE 1962 589

aludi ao clima de insurreição existente na altura, clima esse que cumpria - preveni abertamente - varrer, sem demora, das nossas paragens.
Ora sejamos- claros para sermos eficientes.
As tácticas da guerra revolucionária não devem constituir hoje segredo para ninguém. Infelizmente, têm sido tão exemplificadas no Mundo dos nossos dias que bastará olhar para a sua instalação e desenvolvimento no seio das populações por elas visadas. No entanto, valerá recordar o que é a guerra revolucionária e qual o esquema das suas diferentes fases. Poderá mesmo acontecer - e estou a dirigir-me a quem precisar de me ouvir fora desta Assembleia - que muitos se tenham apercebido da existência dessa espécie de guerra, mas não conheçam, verdadeiramente, as linhas que a definem e os meios que a servem. Por isso valerá resumir o que julgo ter aprendido, vendo e lendo, designadamente em publicações recentes, como a de Allain Serigny, intitulada Un Procès, livro notável, que contém interrogatórios, depoimentos, queixas, intervenções de advogados, extractos estenográficos e peças autênticas do processo das barricadas, do processo da Argélia francesa, como lhe chamou o bastonário Charpentier.
A guerra clássica difere da guerra revolucionária. Na primeira, o fim imediato é a conquista da terra. Na segunda, o objectivo número um é a população. A guerra clássica é feita com soldados e armas convencionais. A guerra revolucionária mobiliza e lança na batalha propagandistas de ideias quase sempre condensadas em slogans elementares.
A guerra clássica deflagra por um pretexto que se chama Dantzig ou assassínio de Serajevo. A guerra revolucionária inflama-se no que a linguagem marxista classifica, de uma contradição interna, aliás sempre a mesma contradição, ainda que sob aspectos diversos.
A guerra revolucionária avoluma os inevitáveis desentendimentos - embora naturais e tendendo para uma compreensão mútua - entre comunidades étnicas de desigual importância ou de desigual evolução ou de cultura diferente, que vivem no mesmo território, e pega em duas palavras - imperialismo e colonialismo - e torna-as explosivas.
Imperialismo da parte da comunidade mais armada ou melhor organizada social e politicamente.
Colonialismo da parte da comunidade mais evolucionada tecnicamente.
Chamar fascista a um patriota que não abdica da genuinidade da sua fé também dá resultado.
Mata que é imperialista!
Mata que é colonialista!
Mata que é fascista!

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Com estes três pregões desfraldados, a guerra revolucionária toma vento.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Então:
As queixas, as desilusões, os azedumes, os rancores, ainda que os mais pequenos e irrisórios, acumulados pela vida no coração dos homens, mas de todos os homens e em todas as partes do Mundo, suo inventariados pelos propangandistas especializados e averbados ao passivo do país que se pretende subjugar.
E assim principia, no expressivo dizer de Allain de Serigny, o lento nascimento do ódio.
Depois há que comprometer os adeptos, convencendo-os, por exemplo, a deitar abaixo um poste telegráfico ou a cortar uma linha férrea. Isso bastará para que todos os que tomaram parte na preparação ou na execução de tais netos se julguem individualmente perseguidos pela polícia. Daí o mergulharem cada vez mais na agitação em que se meteram, e o aproximarem-se uns dos outros, com o duplo fim de conseguirem uma rápida vitória, que lhes traga a própria segurança pessoal, e de se prevenirem contra eventuais deserções, tal o receio do castigo que os espera.
Com estes elementos refugiados numa espécie de coligação de resistência- ofensiva' e defensiva, organiza-se o terror, tendo em vista o esmagamento dos quadros tradicionais da sociedade, de modo que as multidões fiquem sem protecção diante da ofensiva psicológica e acatem cegamente as ordens contraditórias por vezes exigidas pela evolução da guerra revolucionária, nem que tenham de ser praticados os mais atrozes crimes para se criar o clima necessário a essa obediência total e irreversível.
E aí está a segunda arma - o medo.
Com o ódio e o medo, forjados e manejados sem escrúpulos nem desvios, os horizontes dilatam-se e a guerra revolucionária avança, toma foros de acontecimento sério em busca de zona propícia à instalação de um governo com a marca de provisório, que falará e agirá acirradamente em nome do povo, de que se diz representante, designadamente durante a ofensiva diplomática, desde logo encetada e desenvolvida com feroz pertinácia.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

Q Orador: - Mas a ajuda de um país imediatamente vizinho, ou vizinho o mais possível, é considerada imprescindível. Com essa ajuda poderá surgir um episódio a guerra clássica, e surge, com certeza, a internacionalização do conflito, o malabarismo das chancelarias empenhadas em conseguir uma capitulação parcial ou total do governo verdadeiro.
A capitulação parcial não tem importância. O que é preciso, o que interessa, é mandar na população escolhida para vítima. Depois rasgam-se e espezinham-se as negociações, os acordos, os tratados. Atiram-se, por exemplo, os belgas para fora de Kamina, os franceses para fora de Bizerta, tudo e sempre em nome da liberdade - passe o termo - dos povos, que no fim de contas se desligam espectacularmente de uns para serem realmente escravizados por outros.

Vozes: - Muito bem, multo bem!

O Orador: - É esta guerra, esta guerra revolucionária, que nos foi e continua a ser movida em Angola e que se prepara, porventura, para nos molestar em outros pontos do nosso território ultramarino.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O. Orador: -Mas a guerra revolucionária de que já estamos a ser vítimas não se dirige só contra o ultramar português. Ela está procurando, há muito, ferir-nos de morte aqui na metrópole.

Vozes: - Muito bem!