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17 DE FEVEREIRO DE 1962 765

se juntam incompreensivas taxas alfandegárias, até para os artigos de origem nacional, e injustas proibições de entrada na metrópole de certos produtos, como, por exemplo, o álcool e o tabaco, torna possível a vivência dessas centenas de milhares de açorianos, a despeito das arrevesadas condições geográficas, económicas e sociais, graças à existência de transportes marítimos e aéreos.
Não fossem, na verdade, as caravelas do infante, e os Açores não teriam sido descobertos em 1432 nem o seu povoamento viável a partir de 1440.
Não fosse o constante aumento da tonelagem dos barcos, através dos tempos, e não teria sido possível a. fixação de tamanho caudal de gente em tão longínquas paragens.
Não tivessem surgido, nos últimos anos, os grandes aviões de passageiros, e muitos ilhéus teriam já desertado das suas terras por lhes ser impossível a vida ao ritmo dos nossos dias.
Os transportes são, para todos os povos; elementos importantíssimos de desenvolvimento e de progresso. Mas se são essenciais até mesmo para aqueles que habitam os continentes, para os homens das ilhas e, sobretudo, das ilhas pequenas, eles suo verdadeiros glóbulos sanguíneos imprescindíveis à sua própria existência.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Vem isto a propósito da sombria perspectiva que paira sobre os Açores em virtude da diminuição, ou supressão, da escala de Santa Maria nas carreiras a áreas internacionais.
Os Açores não ficam na rota dos paquetes que demandam a África, a América do Sul ou a América Central, nem são visitados, mensalmente, por dezenas de barcos de turismo, como sucede à ilha da Madeira.
Apesar de estarem no paralelo de Nova Iorque, também não são escala dos navios que, da Europa, se dirigem para ali, ou vice-versa.
As suas comunicações marítimas (afora os minúsculos barcos que fazem serviço de transbordo de carga e passageiros entre as ilhas ou simplesmente de carga entre estas e o continente) estão apenas asseguradas, entre as capitais dos três distritos insulares e Lisboa, pela simples e demorada viagem quinzenal, com paragem na Madeira, de um paquete de pequena ou de média tonelagem da Empresa Insulana de Navegação e, de S. Miguel para o Norte da Europa ou, eventualmente, para os Estados Unidos, pelas incertas viagens de pequenos cargueiros da companhia Carregadores Açorianos.
Se não fossem, pois, os aviões estrangeiros da linha das Américas que, até há pouco, diariamente e em poucas horas, os ligavam ao continente, os açorianos estariam ainda hoje condenados, como lia 50 anos, a só poderem contactar regularmente com a metrópole de 15 em 15 dias e, irregularmente, com o resto do Mundo de mês a mês ou quando as conveniências comerciais dos barcos de carga assim o permitissem.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - E essa condenação não a merecem nem a podem suportar os homens das ilhas.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - O problema das comunicações aéreas dos Açores estava, em parte, resolvido, como se deixou já antever, pela necessidade obrigatória que os aviões tinham de se reabastecer a certa altura da viagem, para poderem galgar, com plena carga, a enorme distância que separa as costas do Velho e do Novo Continente.
Essa imperiosa necessidade tinha levado os americanos a construírem, durante a última guerra, dois enormíssimos aeroportos, um na ilha Terceira (Lajes) e outro na ilha de Santa. Maria, que, depois de muitos e relevantes serviços prestados a eles e aos ingleses na luta contra os submarinos alemães que então torpedeavam impiedosamente as suas frotas marítimas, passaram, depois de insistentes e difíceis negociações, para a inteira jurisdição portuguesa, ficando o da Terceira ainda sujeito ao contrato, que agora termina, de servir as necessidades militares americanas do pós-guerra e o de Santa Maia completamente livre para o tráfego aéreo comercial.
Era, pois, neste esplêndido aeroporto, que só tinha, para grande parte dos açorianos, o inconveniente de ficar situado numa ponta do arquipélago (e numa ilha onde residia apenas 4 por cento da sua população), que os grandes aviões transoceânicos pousavam todos os dias nos dois sentidos.
Os habitantes das outras ilhas, ou utilizando os dois antigos aviões de reduzida lotação, como -S. Miguel e Terceira, ou servindo-se de dois pequenos barcos de cabotagem, como Graciosa, S. Jorge, Pico, Faial Flores e Corvo, lá percorriam dezenas ou centenas de milhas em busca daquela «terra de promissão», que lhes permitia levantar voo para toda e qualquer parte onde urgia defender os seus interesses.
A necessidade de uma escala intermédia de reabastecimento cessou, porém, com a entrada ao serviço dos novos aviões a jacto, possuidores de grande raio de acção.
E este grande aeródromo, que chegou a ter instaladas no seu terminal todas as companhias de navegação aérea das rotas do Atlântico Norte, viu, de repente, debandarem as agências e, logo a seguir, começarem a rarear as aterragens semanais nas suas pistas, de forma a serem, no final de 1961, ainda 22 na direcção leste-oeste, mas apenas 4 no sentido oeste-leste.
Os voos neste sentido, já por serem em número reduzido, já por se realizaram somente das 9 horas e 35 minutos das quintas-feiras Tis 2 horas e 40 minutos dos sábados, ou seja, praticamente, em apenas dois dias seguidos da semana (quintas e sextas-feiras), têm já causado enormes contrariedades e prejuízos aos habitantes dos Açores.
O pior, porém, é que estes mesmos voos, já de si insuficientes, estão em perigo de desaparecer completamente logo que as obras de alongamento das pistas do aeródromo de Lisboa permitam o descolamento dos grandes jactos com plena atestação de carga e combustível.
Os Açores estão, assim, na iminência de ficarem privados de ligações aéreas comerciais com a Europa e a América por todo o ano corrente, prazo em que a Aeronáutica Civil pensa poder dar por concluídas as obras da Portela.
E, nestas circunstâncias, urge, desde já, estudar com cautela e resolver com largueza este grave problema, de importância vital para o arquipélago.
E digo com cautela e largueza porque os Açores não aspiram apenas à vida apagada e triste que têm levado, como ilha perdida ou esquecida nu meio do Atlântico.

Vozes: - Muito bem, muito bem!