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828 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 37

Vemos, por isso, as grandes nações, em que a civilização caminha aceleradamente, frutificando nos mais variados meios de dignificação do viver dos povos, dedicarem as suas redes de estradas os maiores cuidados, procurando não só que elas cubram todas as grandes áreas populacionais, permeabilizando-as às conquistas da civilização, como ainda que se mantenham conservadas e a acompanharem o ritmo das exigências aumentadas da vida em evolução.
Tão salientes conquistas se alcançaram nestes desideratos, que as grandes magnificências das rodovias da actualidade levaram naturalmente a que as viaturas modernas tenham estruturas aligeiradas, tornando-se, por isso, de fragilidade que não se coaduna com maus pavimentos ou perfis defeituosos.
Entre nós, com o activo processamento da melhoria das nossas estradas operada sob a égide da Revolução Nacional através de uma obra de incalculável valor que todos conhecem, vibrou-se um rudíssimo golpe no desolador aspecto de ruína que elas apresentavam, mais semelhando campos onde se houvessem ferido ciclópicas batalhas com os mais rudes engenhos de destruição do que, na verdade, partes da terra destinadas ao normal e seguro tráfego de pessoas e dos seus bens!
Colocados, assim, na senda das nações mais progressivas, pudemos começar a sentir, além de orgulho nas nossas vias de comunicação, os grandes benefícios do tráfego facilitado, que se traduziram e têm traduzido, por um lado, na franca satisfação concedida às crescentes necessidades internas da circulação e, por outro, no aumentado afluxo dos turistas, que puderam começar a incluir Portugal entre os países que, merecendo ser conhecidos, também já o podiam ser através das suas rodovias nacionais.
Estão perante nós as grandes realizações das últimas décadas deste sector e as coisas culminam na própria construção da ponte sobre o Tejo, que bem poderá ser havida como ex-libris da nossa política rodoviária logo que os seus tramos cruzem as águas do rio.
Pois, Sr. Presidente e Srs. Deputados, apesar de n técnica tanto ter evoluído, apesar de estarem ao fácil alcance da Junta Autónoma de Estradas, além de um completo e pois valiosíssimo parque de material moderno para as obras de estradas, grandes recursos financeiros - embora menores do que os previstos e até aprovados nesta Câmara para um plano de quinze anos de realizações-, a despeito, finalmente, do grande empenho que a mesma Junta Autónoma tem demonstrado em valorizar cada vez meais o importante sector onde lhe cumpre actuar - «estou agora a pensar na imponente magnificência da «rodovia do Norte» que serve Vila Franca de Xira, com a natural ambição de vir a ser uma estrada ao serviço da ligação das grandes capitais europeias com a nossa capital -, apesar de tudo o que venho de referir e do muitíssimo mais que não considerei, ainda há por esse país fora gritantes necessidades, cuja solução se apresenta incrivelmente retardada.
Já não quero aludir aos muitos quilómetros de estradas principais que ainda falta rasgar para conferir às regiões mais empobrecidas pelo seu isolamento o surto de vivificação de que carecem - fica bem, no entanto, recordar que a construção das estradas nacionais n.ºs 333 e 334, no concelho de Pampilhosa da Serra, avulta entre as mais imperiosas necessidades do distrito -, bastando-me por agora considerar somente alguns aspectos da conservação de estradas já ao serviço.
E, passando com deliberada intenção por sobre as grandes carências das estradas da região central do País, como da que liga Coimbra a Celorico da Beira,
n.º 17-1.º, mais conhecida por «estrada da Beira», via através da qual se escoa o trânsito internacional que demanda o nosso país por Vilar Formoso e que tem, por isso, uni papel de transcendente importância, e da apelidada «estrada de Penacova», que desvenda e serve uma das mais belas regiões panorâmicas portuguesas, partindo também de Coimbra, carências que me levariam muito longe para referir abomináveis defeitos dos seus perfis e um estado de conservação cheio de precariedade, venho hoje referir apenas o pavoroso estado em que se encontra uma outra estrada tradicionalmente importante, que é a que, partindo da vila de Tábua, serve S. João de Areias, no concelho, de Santa Comba Dão, até à Cancela, onde se cruza com a magnífica estrada que, saindo da Foz do Dão, termina em Celorico da Beira, passando por Carregal do Sal, Nelas e Canas de Senhorim.
Quem tiver a infelicidade de ser forçado a passar nesta estrada, hoje inteiramente desclassificada, mas ontem uma importante estrada nacional, qualquer que seja a espécie de transporte que utilize, sente tão dolorosa impressão de retrocesso que se tem de julgar muito mais a viver dentro da era da Pedra Lascada do que nos primores da era atómica, em que já cruzam os espaços siderais e orbitam os grandes planetas animais racionais e irracionais, com não sonhada facilidade.
E que tal estrada é hoje uma via tão esburacada, tão poeirenta ou alagada e tão fora do conceito a que se tinha chegado do que seja uniu via de comunicação ou estrada, que dificilmente se pode raciocinar doutra forma ...
Mas esta estrada não é, de nenhuma maneira, sob o ponto de vista da sua utilização, qualquer caminho secundário ou sertanejo, facilmente evitável ou substituível, que torne desnecessária a sua conservação.
Nada disso. Trata-se, nem mais nem menos, do que de uma estrada que serve e liga várias regiões, vários concelhos e a estação dos caminhos de ferro de Santa Comba Dão, procurada por intenso tráfego de pessoas e de mercadorias provindas de uma vasta zona integrada pelos concelhos de Tábua, Arganil, Santa Comba Dão e pela parte mais serrana do concelho de Oliveira do Hospital.
Por ela transitam carreiras de serviço público de transporte de passageiros e por ela têm de passar todos os que, a partir de Tábua, demandam as zonas industriais dos concelhos de Santa Comba Dão, Nelas, Carregai do Sal e outros.
Não é, portanto, esta estrada, uma via de somenos, muito embora no seu estado actual mais pareça um caminho aberto sem preocupações para servir uma propriedade sem valimento!
Ora este arrepiante fenómeno de abandono só foi possível pela avantajada burocracia que reina e comanda impavidamente em certos sectores da Administração.

O Sr. António Santos da Cunha: - V. Ex.ª dá-me licença?

O Orador: - Com todo o gosto.

O Sr. António Santos da Cunha: - Pode-se falar em burocracia em todos os campos. Mas quanto ao problema das estradas quero dizer a V. Ex.ª que, como sabe, todos os anos é feito um censo de trânsito das estradas, e em obediência a ele é que o Ministério das Obras Públicas ou a Junta Autónoma de Estradas organiza o seu plano de reparação das estradas, estabele-