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866 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 39

O Orador: - Vimo-lo em Beja e nem precisámos adivinhá-lo, porque os dois ilustres membros do Governo foram claros e precisos quando isso mesmo afirmaram nos discursos que proferiram.
Aliás, a colaboração perfeita entre as forças de segurança do Ministério do Interior e as forças armadas do Ministério do Exército foi uma verdade clamorosa dos sucessos de Beja. Foram-no na repressão da intentona e foram-no nesta verdadeira festa de confraternização dos dois Ministérios, festa a que se associou, jubilosa e agradecida, a população do distrito, a que se associou, poderei dizê-lo, em espírito, toda a Nação.
E bom é que saibam quantos, os de fora e os de dentro - os «estrangeiros do interior», na expressão feliz do nosso distinto colega Ubach Chaves -, mas que o saibam de uma vez para sempre, que estão atentos e decididos os responsáveis maiores da defesa da Pátria, e que com eles, unida e igualmente decidida, está a maioria esmagadora da Nação.
As nossas dificuldades e as nossas insuficiências são só para nós, e apenas permitem o diálogo da verdadeira família portuguesa; e porque queremos, com vontade firme, caminhar no sentido rápido das boas soluções, não podemos consentir que a traição, descarada ou encapotada em jogos malabarísticos de sofismadas palavras, palavras que, antes de servir, desservem e que, fingindo amar, apunhalam, possa assentar arraiais na praça portuguesa!

O Sr. Pinheiro da Silva: - Muito bem!

O Orador: - Creio, Sr. Presidente e Srs. Deputados, que não exagero se afirmar que Beja, no sábado passado, foi teatro de consagração nacional.
Naquele dia, naquela linda praça, por volta do meio-dia, em frente dos dois Ministros e do Sr. Subsecretário de Estado do Exército, assistidos por numerosas individualidades nacionais, muitos senhores oficiais generais, Deputados eleitos pelo círculo de Beja, presidente da Junta Central e comandante-geral da Legião Portuguesa, os nossos distintos colegas, nesta Assembleia, almirante Henrique Tenreiro e general Valente de Carvalho, Beja, todo o distrito de Beja, com as suas autoridades e os seus venerandos bispos titular e auxiliar, ali, sob as arcadas da formosa Igreja da Misericórdia, prestava assinalado culto, emocionado e agradecido, no altar sacratíssimo da Pátria.
Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. José Manuel da Costa: - Sr. Presidente: decorrerá no próximo ano o 4.º centenário da publicação, em Goa, da 1.ª edição dos Colóquios dos Simples e Drogas, de Garcia de Orta, e já li há dias que a Academia das Ciências de Lisboa nomeara comissão própria para estudar e se ocupar das comemorações desse relevante facto da vida cultural portuguesa do século XVI.
Represento nesta Assembleia a boa gente do Alto Alentejo e por minha terra, de vida e de morte, tenho a mui notável vila de Castelo de Vide, que acontece ter sido, para sua glória e prestígio, a pátria pequena desse vagamundo da inquietação e do estudo que se chamou Garcia de Orta. Viajante entre os eruditos, erudito entre os viajantes.
Poderá assim a Câmara absolver-me deste orgulho de patrício e eu diligenciarei por persuadi-la de que esse orgulho em muito me excede, porque além de mim e da minha terra ele se amplia e alarga no plano nacional e no plano europeu quando abre, nos domínios da inteligência e da razão, caminhos novos para a descoberta da verdade e novos métodos atinentes ao progresso da ciência e ao conhecimento da Natureza e do Mundo.
Se um dia nos cansai-mos de proclamar que por Portugal tomou o Mundo consciência da sua amplitude, por Portugal se difundiu no Velho e no Novo Mundo a mensagem de Cristo e paralelamente se iniciou a revolução da experiência, com novos métodos de observação e de investigação, se nos causarmos um dia de apregoar a originalidade e a oportunidade da intervenção portuguesa no avanço dos conhecimentos humanos, teremos nesse dia renunciado à razão maior de ser da nossa essência de nação civilizadora, renunciado ao lugar de vanguarda que conquistámos na criação e no desenvolvimento dos tempos modernos! Quer dizer: ter-nos-emos demitido do nosso posto fronteiriço na história da civilização do Mundo!
Ora acontece que este nosso Garcia de Orta, tendo vivido o irrequietismo da sua época e da sua raça, sofrido as agruras dos tempos e os anseios de renovação transformadora de uma era nova, foi, no seu momento, luzeiro assinalado nas novas buscas e pesquisas dos caminhos do saber e da verdade. Por ele o mundo novo ganhou princípios de sentido geral, destruiu a autoridade livresca do conhecimento e do estudo, buscou na lição do exame e da experiência as sendas novas pelas quais o homem havia de atingir um mais certo e profundo conhecimento de si mesmo e do seu meio, que era já então toda a redondeza da Terra e toda a magnitude do universo.
Esse Garcia de Orta, ia eu dizendo, fechou os livros pesados e mortiços pelos quais havia estudado medicinas na Universidade de Salamanca e foi escancarar os olhos para as terras da índia e ali ele viu, viu, viu tanto e de tal modo que dele «todas as coisas acabaram por ficar mui bem sabidas ao ponto de delas poder falar como testemunha de vista ...». E num grito orgulhoso de compreensível rebeldia ao saber ancilosado e morto, num clamor de triunfo dos métodos da observação e da experiência, ele pôde dizer à inteligência da sua época e dos seus pares que «mais se sabia então em um dia pelos portugueses do que se sabia em cem anos pelos romãos».
Nesse espantoso momento da vida da cultura portuguesa, vêm os Colóquios dos Simples e Drogas de Garcia de Orta pôr-se ao par, como testemunhos e suportes dessa cultura, de um Tratado da Enfara, de Pedro Nunes, de um Esmeralda de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, de uma Peregrinação, do Fernão Mendes Pinto, de uns Lusíadas, cujo autor, também andarilho do Mundo, em suas andanças se ligou de amizade e entendimento com esse Garcia de Orta, não desdenhando de enxertar na primeira edição dos Colóquios uma ode endereçada ao conde de Redondo a encarecer o valor da obra e a solicitar para ela a compreensão e o patrocínio do governador.
Sr. Presidente: tem caído sobre nós ao longo da história, e essa invectiva anda agora muito repetida, a acusação de termos levado àquelas terras que nós primeiros descobrimos, conhecemos e povoámos, dois elementos irredutíveis e para nós condenatórios: a dupla autoridade da força das armas e da disciplina da Fé e a consequente instituição de um império só seguro pela Espada e pela Cruz e, portanto, erigido contra a liberdade, a inteligência e a razão dos homens.