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3 DE MARCO DE 1062 933

Por outro lado, já a Intendência de Pecuária da Guarda começou a trabalhar nos contrastes leiteiros, com vista à selecção dos ovinos melhores produtores de leite.

Creio que destes estudos resultará a aquisição dos melhores borregos, que mais tarde serão cedidos por empréstimo ou venda, como sementais, aos detentores de ovinos de mais débil posição económica.

Quem de tal sorte vem actuando a favor da classe pastoril não regateará os seus esforços no sentido de uma fácil uniformização qualitativa e consequente valorização de queijo da serra. Confiamos.

Antes de terminar estas descoloridas considerações seja-me permitido indicar como sedes, de, pelo menos, dois postos de assistência técnica e de divulgação, Celorico da Beira e Seia.

Justifico o alvitre:

A zona de grande produção do afamado queijo é constituída por pequenas partes dos concelhos de Trancoso e Guarda, por todo o concelho de Celorico, por grande parte dos concelhos de Fornos, Gouveia e Seia e por parte, creio que mais reduzida, do concelho de Oliveira do Hospital.

Bastará enfrentar um mapa de Portugal para logo se aderir ao alvitre feito, dada a posição ocupada na zona grande produtora por Celorico e por Seia.

Quanto a Celorico, militam ainda a seu favor as circunstâncias de - segundo cálculos que suponho bem aproximados da verdade - ser o concelho que tem maior número de ovelhas em lactação e, consequentemente, o que produz maior quantidade de queijo; de existir na própria vila o maior mercado daquele produto, tão grande que, sendo o maior da Península, está considerado um dos maiores da Europa; de possuir na sua freguesia da Carrapichana outro mercado, de indiscutível menos valia, mas também importante, e a distar apenas 16 km do segundo grande mercado da região, que se efectua em Fornos de Algodres.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - De considerar é ainda o facto da facilidade de condignas instalações no edifício próprio do Grémio da Lavoura, a inaugurar brevemente.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - E é tudo.

Não roubo mais tempo à Assembleia, formulando, para terminar, ardentes votos para que se fique devendo à acção da Direcção-Geral dos Serviços Pecuários a certeza de que VV. Exas, ao saborearem o queijo da serra, se deliciarão com a sua inigualável qualidade.

Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Armando Cândido: - Sr. Presidente: se quiser dizer agora qual foi o ano, não me é possível. Deixei na minha casa da ilha de S. Miguel, ordenada e arquivada por recortes, toda a minha colaboração em alguns dos jornais açorianos. Aí se poderá encontrar, num dos números do antigo e saudoso Autonômico, uma entrevista que me foi concedida pelo então bispo de Macau, D. José da Costa Nunes. Não me recordo precisamente

da data, mas lembro-me de que Vila Franca nesse dia tinha aquele ar luminoso e sossegado do tempo, quando ele parece ficar em nós, esquecido ou arrependido de consumir a vida dos homens e das coisas.

O bispo de Macau viera descansar nos Açores, e, de caminho para a ilha do Pico, sua terra natal, resolvera demorar-se em Vila Franca do Campo, na companhia de um velho e fidelíssimo amigo, o padre Ernesto Ferreira.

O Oriente, nessa altura, continuava, em grande parte, mergulhado na distância e na tranquilidade. Ainda sabia a mistério. Hoje, o poder de informação e, infelizmente, de deformação da informação, ocupa-se diariamente das terras e das gentes, da agitação que nelas lavra, das evoluções processadas em ritmo vertiginoso e das revoluções e das guerras que rebentam, acabam e tornam a surgir do pandemónio que não se limita a um país, a uma área ou a um povo, mas que toma a Ásia inteira, salvo raríssimas excepções apontadas a dedo no mapa incendiado.

Antes a imaginação. Quando o homem não vence a distância, tenta dominá-la, imaginando. Mas, a despeito da sua possível bondade e da sua possível utilidade, a imaginação não satisfaz quando se procura seriamente a verdade.

Interessava-me ouvir falar de Macau e Timor e das marcas da presença portuguesa nos territórios que já não nos pertenciam.

Interessava-me a China, a sua imensidade, o difícil tumulto das almas, o enigma das vontades e dos destinos - a vastidão e a complexidade do enigma.

Sun Yat-Sen pregava a coesão nacional contra os dois blocos que se defrontavam: a China milenária e concentrada no seu desdém pelo Ocidente; a China já penetrada pela civilização ocidental, aceitando uma nova época de transacções comerciais e um novo mundo de tarefas missionárias. O movimento dirigia-se para o vácuo ou viria a espraiar-se no terreno das reformas necessárias ?

Ouvi durante uma hora o bispo D. José da Costa Nunes. Ouvi, sem tomar uma única nota. Mas fui dali. E escrevi tudo. Aquele príncipe da Igreja tinha o superior dom da comunicabilidade. As suas palavras não se perdiam no ar - entravam nas consciências. Tudo em mim se mobilizou para as receber, compreender e guardar.

Paul Claudel, em carta dirigida em 1908 a Jacques Rivière, afirmara que Rimbaud tinha sido a influência maior que sofrera, uma influência que lhe fez crer realmente que há uma geração espiritual. A pessoa de D. José da Costa Nunes irradiava exactamente o poder de uma influência susceptível de modelar e de perdurar. Teria feito bem em pôr-lhe as interrogações de Bergson - Donde viemos nós? Que fazemos nós? Para onde vamos?- só para lhe provocar o argumento acessível e irrespondível. E se reproduzi tudo o que me disse durante essa entrevista que a sua generosidade me concedeu foi porque as suas palavras ficaram em mim como teriam ficado em qualquer outro.

Parece que continuo a escutá-lo: «Está a desenhar-se na Ásia um verdadeiro nacionalismo de cor. Em Malaca, papiar cristão quer dizer falar português, o português em que muitos dos seus naturais se exprimem, revelando a acção comovente e persistente da catequese. Em Timor, um régulo condensou nestes termos uma das mais belas constantes da nossa transcendente missão histórica: «Não somos de Portugal pelo ferro e pelo fogo, mas pelo sal e pela água».