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1296 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 64

curso. São, por excelência, as escolas da frustração e da derrota, porque, felizmente, os níveis de selecção não foram degradados pelos corpos docentes, cientes do papel que desempenham na formação do escol dirigente da sociedade portuguesa. A selecção e apuramento conscienciosos desse escol é que têm sido gravemente prejudicados pelas massas, que, não vendo mais para onde ir, nem impedimento sério à entrada, se atropelam às centenas nos primeiros anos, onde se vêem forçadas a marcar passo em cursos de várias centenas por cadeira:

História da Cultura Clássica............. 625
História da Cultura Medieval............. 382
Teoria da Literatura..................... 465
Fonética Geral .......................... 470

Assim, a frustração do aluno corresponde à frustração do professor, reduzido a máquina de aferir incapacidades mentais, que persistem, todavia, em aguardar mais um ano, e outro, e outro, já que as propinas são praticamente de graça (1200$ por ano por cinco cadeiras) e as três reprovações eliminatórias têm de ser em exame final e raras vezes produzem, portanto, os seus efeitos.
O ensino transforma-se assim numa caricatura de si mesmo. E as maiores vítimas são precisamente aqueles poucos que pretendem preparar-se conscienciosamente para o professorado secundário, porque, na balbúrdia geral, a Universidade não consegue dar concretização aos fins para que existe.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Desapareceu quase por completo o conhecimento pessoal dos alunos, sobre o qual, quando se tratava apenas de uma ou duas dezenas, assentava a informação anual. Dois exercícios de frequência em 16 cadeiras por cada aluno, a distribuir por 15 professores, dá uma média de 3252 provas a classificar, por professor, em Fevereiro e Maio, antes da época dos exames, em que se vão os meses de Outubro, Novembro, Junho e Julho.
Para o ensino das línguas, as turmas variam entre 50 e 100 alunos, que ao frequentarem as cadeiras de Pedagogia ouvem dizer, maravilhados, que as turmas de línguas não deveriam ter mais de 20. As chamadas são um diálogo entre professor e aluno, mus em turmas tão vastas as correcções e observações do professor atraem a atenção das duas primeiras filas e provocam a conversa ou o tédio entre os restantes. A elevada percentagem- de reprovações não afugenta os ignorantes, que persistem em iludir-se a si próprios, congestionando os cursos com o peso morto de repetentes contumazes (Alemão I, 420 alunos; Inglês I, 355 alunos).
Os esforços do Estado, tão largamente evidenciados nos últimos anos, para proporcionar melhores condições ao ensino superior não parecem estar bem orientados por uma visão clara dos frutos sociais a atingir. É necessário defender o ensino das Faculdades de Letras, que em muitos aspectos ainda está longe de atingir o nível a que aspira. É imprescindível que a formação do escol a quem amanhã se vai entregar a parte mais importante do sistema educativo da Nação se faça em condições menos precárias e tumultuosas.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: -E para isso importa canalizar a multidão que a Universidade não assimila, e da qual dificilmente pode libertar-se no condicionalismo actual, para vias de mais rápidos resultados, em níveis de formação menos extensos e de maior rentabilidade social.

Vozes: - Muito bem. multe bem!

O Orador: - O descongestionamento das Faculdades de Letras deve ser um dos objectivos mais importantes de uma sólida política de educação no momento actual. Para isso, torna-se necessário, depois do que ficou dito, encontrar soluções capazes de serem bem recebidas pelo elemento feminino, que é sobretudo responsável por esse congestionamento.

O Sr. Pinheiro da Silva: - V. Exa. dá-mo licença?

O Orador: - Mais uma vez com todo o gosto.

O Sr. Pinheiro da Silva: - Gostaria que V. Exa. me esclarecesse noutro ponto. Se é assim o panorama das duas Faculdades de Letras que temos, amanhã, com a Faculdade do Porto a funcionar, o problema será ainda maior.

O Orador: - Terei ocasião de tocar esse ponto.
5) O elemento feminino na Universidade. - As causas deste fenómeno parecem ser de natureza complexa, embora se possam filiar fundamentalmente numa causa primária, o prestígio das línguas modernas, particularmente do inglês, derivado não dos seus valores culturais próprios mas da sua utilidade imediata. Esta avalancha de alunos, que traz à vida universitária gravíssimos inconvenientes e chegou, no velho edifício, a provocar uma desorganização quase total dos serviços, não reflecte no fundo mais do que a presença de um grave problema social para o qual é necessário encontrar solução adequada e urgente.
As Faculdades de Letras, tal como se encontram estruturadas, vêem-se hoje fortemente diminuídas na sua capacidade de rendimento pelos efeitos deste afluxo excessivo que há dez anos se vem processando sem que de forma alguma se tenha procurado corrigi-lo ou desviá-lo para canais mais apropriados.
Esse problema é, pura e simplesmente, o da educação e do emprego feminino, a partir de certa camada social, nas condições económicas do mundo moderno e dentro da actual linha de evolução progressiva do nível de vida em Portugal.
Efectivamente, as Faculdades de Letras foram sempre procuradas pelo elemento feminino, que via no professorado liceal uma profissão particularmente adequada à missão educativa da mulher, convenientemente remunerada e por isso mesmo prestigiada perante a opinião pública.
A percentagem da frequência feminina das Universidades era, ainda há vinte anos, constituída praticamente pelas alunas das Faculdades de Letras e de Farmácia, aquelas, porém, em proporção muito maior. Mas era uma frequência ainda assim limitada, porque o nível económico das famílias nem sempre permitia sustentar as despesas de uma longa permanência numa Universidade. E para aquelas que não resolviam o problema com o casamento ou na tradicional solidariedade familiar, e forçosamente tinham de procurar colocação, as escolas normais primárias ofereciam uma solução, de tipo inferior, mas sempre uma solução. E era tão diminuta em Portugal a diferenciação das colocações socialmente aceitáveis, que a enorme maioria, cedendo à pressão do «snobismo» envolveu to, preferia ficar em