I SÉRIE — NÚMERO 12
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Ao longo do tempo, os seres humanos aprofundaram a sua relação com os animais. Reconhecemos a
importância dessa relação, em particular com os animais de família. Ao longo do tempo, tem havido um amplo
consenso no reconhecimento do bem-estar dos animais e na necessidade de os proteger contra os maus-tratos,
contra a dor e o sofrimento infligidos sem motivo aparente.
Há obstáculos à proteção dos animais e do seu bem-estar, mas, como sempre afirmámos, esses obstáculos
não resultam da Constituição. Pelo contrário, na Constituição estão consagradas as bases e as garantias para
o desenvolvimento da legislação para proteger os animais, sem prolongar e instigar insistentemente a
instrumentalização dos animais e conceções que são alheias à vida e à sociedade, que não raras vezes pende
para a xenofobia e para a intolerância cultural.
Recusamos realizar este debate com base em abstrações, em fundamentalismos, em falsas saídas e, por
isso, alertámos desde a primeira hora para o erro de tratar a questão dos maus-tratos a animais exclusivamente
pela via penal, baralhando termos e conceitos relativamente estabilizados na lei e na sociedade que resultaram
— como era evidente que iriam resultar — em dúvidas e dificuldades de interpretação e de aplicação da lei.
Sobre as iniciativas em apreço, há dois aspetos que gostaríamos de suscitar, mas sobre os quais mantemos
sérias dúvidas e reservas. Um primeiro aspeto é a insistência no agravamento de penas do Código Penal, que
a vida já demonstrou ser desproporcionado, para além de comportar o risco de instrumentalização da queixa-
crime e de fomentar a conflitualidade.
Por outro lado, sobre a deliberada intenção de retirar o conceito de animal de companhia da lei, a única parte
sobre a qual o Tribunal Constitucional, nos seus diversos acordos, não se pronunciou, e misturar tudo sob o
conceito de animal, pergunto se é esse o caminho para uma maior proteção ou se significa regredir muitos e
muitos anos nesta matéria e alimentar conceções, fundamentalismos e tensões sociais que são escusados, que
são evitáveis e que produzirão um efeito contrário ao que é o enunciado e pretendido.
O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Rui Rocha, da Iniciativa Liberal, que dispõe de 3 minutos.
O Sr. Rui Rocha (IL): — Sr. Presidente, atrever-me-ia a dizer que o modo como as sociedades tratam os animais é um dos dados que pode permitir avaliar a sua evolução. Digo-o, apesar de haver muito quem entenda
que as culturas são todas iguais e que não há diferença sobre o estado da evolução de sociedades. Pois eu
acho que há, e há também, nesta matéria, na forma como os animais são entendidos e tratados.
O bem-estar animal, numa sociedade que queremos evoluída como é a sociedade portuguesa, é obviamente
um desígnio que devemos assegurar e que deve fazer com que tenhamos a preocupação de criar os
instrumentos legislativos e de enquadramento adequados.
Vou olhar sobretudo para a proposta do PAN nesta matéria. Sendo certo tudo o que acabei de dizer,
parece-nos que a proposta do PAN não tem ainda o grau de maturidade necessário para que a possamos
viabilizar. Não tem porque continua a ter problemas técnicos do ponto de vista da utilização de conceitos
indeterminados, pelo que o nosso entendimento é que essa evolução e essa maturação do pensamento sobre
esta matéria tem de dar-se, nomeada e provavelmente até, com uma reflexão sobre o estatuto do animal no seu
conjunto, que possa permitir a reflexão sobre atividades económicas, sobre outras questões que estão para lá
das questões apenas dos animais de companhia.
Portanto, sendo essa reflexão útil, necessária e oportuna numa sociedade que queremos evoluída,
entendemos que esta proposta do PAN não cumpre os requisitos para uma viabilização por parte da Iniciativa
Liberal.
Aplausos da IL.
O Sr. Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado Cristóvão Norte, do PSD, para uma intervenção. Dispõe de 6 minutos.
O Sr. Cristóvão Norte (PSD): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Quero transmitir, em primeiro lugar, associando-me à intervenção do Deputado Pedro Delgado Alves, do Partido Socialista, que ao longo dos últimos
10 anos foi extraordinária a evolução do ponto de vista legislativo no sentido de robustecer a proteção animal.