129
membro do conselho das obras publicas, sabe o que se passa porque é ouvido pelo seu ministro, e vem á camara fazer-lhe accusações' Isto são procedimentos inauditos! • O sr. Lobo d'Avila: — Isso é que é inaudito.
O Orador: — Quando o sr. Lobo d'Avila aqui vier sentar-se (indicando as cadeiras do ministerio) ha de ser o primeiro a censurar procedimentos tão irregulares, porque faz ainda peior do que eu disse, porque vem dizer o contrario daquillo que elle devia saber pelos documentos que estuda.
(Entrou o sr. ministro das obras publicas.)
O Orador (continuando): — Disse o sr. Lobo d'Avila: «Estão-se desviando da praça os concorrentes. » Diga o sr. ministro, das obras publicas quantas propostas lhe têem sido apresentadas para a construcção dos caminhos de ferro em Portugal. Disse mais: «Tem havido manejos da parte do governo. » O sr. deputado disse isto, quando é presidente do conselho de ministros o sr. marquez de Loulé! Pois o sr. deputado fazia este conceito do sr. marquez de Loulé, quando julgou conveniente manifestar-lhe que estava de accordo coma politica do ministerio? Pois isto é decente? Pois é decente que o sr. deputado viesse aqui dizer que ha cartas dos ministros, que os compromettem?
Não havia de dizer que alguma d'ellas era minha, logo eram do sr. marquez de Loulé e do sr. Carlos Bento. Pois isto é bonito, é decente?! Opposição rasgada e franca, e não vir aqui dizer-se que ha cartas dos ministros, que os compromettem!
O sr. Lobo d'Avila: — Chamo o sr. ministro á ordem por dizer que isto não é decente; a palavra é anti-parlamentar, assim como tambem por dizer que o meu comportamento é irregular. Chamo-o á ordem. -
O Orador: — As palavras =não é decente== retiro-as, mas a palavra = irregular = repito-a.
O sr. Lobo d'Avila: — Já sei que o seu costume é responder pelas recriminações.
O Orador: — Pois devia saber que eu tenho esse costume para não provocar a resposta.
O sr. Lobo d'Avila: — Eu lhe responderei pelo mesmo modo.
O Orador: — Ha de lhe custar.
(Vozearia e toques de campainha na mesa.)
O Orador: — Menos colera, sr. deputado! Ha de lhe cus-lar a responder pelo mesmo modo. Fosse o sr. deputado regular no seu procedimento, e eu não lhe havia de fallar assim. Eu havia de perguntar ao sr. Lobo d'Avila se os actos d'este ministerio, se esses actos, que o sr. deputado crimina, começaram depois que o sr. deputado repelia declarações sobre declarações aos ministros de que estava de accordo com a sua politica e prompto a sustenta-la. Havia de perguntar-lhe quando é que esses actos irregulares começaram, se foi quando elle nos dizia que estava de accordo com a nossa politica...
O sr. Lobo d'Avila: — Nunca lh'o disse.
O sr. Sant'Anna e Vasconcellos: — Disse-o diante de mim.
O Orador:,— As paredes do meu gabinete podiam dar testemunho do que digo. (Confusão de vozes.)
O sr. Presidente: — Peço attenção.
O Orador: — A confiança do sr. deputado no governo só acabou no instante em que o sr. deputado leve um diploma para se sentar aqui.
Vozes: — Ordem! Ordem! (Muita vozearia, confusão e toques de campainha por parte do sr. presidente para restabelecer o socego.)
O sr. Telles de Vasconcellos: — Sinto que este exemplo seja dado pelo sr. ministro!.
O sr. Lobo d'Avila: — A mim não me mette medo. Aqui não se discute a minha pessoa, mas não me mette medo que se discuta.
O Orador: — Aqui não se discute a pessoa de ninguem, discute-se a desconfiança nos ministros, eu discuto o que o illustre deputado disse quanto á sua desconfiança nos ministros, e digo que os homens que tiveram confiança nos ministros...
O sr. Lobo d'Avila: — Não tive, nem tenho.
O Orador: — Não leve! O sr. Lobo d'Avila: — Não, senhor.
O Orador: —Não tem documentos escriptos na sua mão, que são o resultado das declarações que me fez de que linha confiança nos ministros? (Muita agitação.) Vozes: — Ordem! Ordem!
O sr. José Estevão: — Á questão do caminho de ferro!
O sr. Presidente (tocando a campainha): — Peço attenção, e peço aos srs. deputados que se compenetrem do respeito que devem a si.
O Orador: — Quanto mais os srs. deputados se escandecem, mais eu arrefeço. (Continua a agitação e vozearia.)
O sr. José Estevão: —Eu peço que se encerre a sessão.
O sr. Sant’Anna e Vasconcellos: — Muito bem.
Vozes: — Ordem! Ordem '. Deixem acabar o sr. ministro!
O Orador: —Vou acabar; mas ha uma parte do discurso do sr. deputado que a camara não espere que eu deixe sem resposta, que é a mentira solemne do sr. ministro das obras publicas ao mundo inteiro, de que aqui não se tinha recebido um boletim telegraphico, lendo-se recebido esse boletim, esse boletim annunciando uma certa eleição. Pois o sr. Lobo d'Avila não veiu dizer isto aqui quando viii que o sr. ministro rias obras publicas nomeou uma commissão que examinou esse negocio! E vem aqui dizer que o sr. ministro veiu negar um facto que depois reconheceu que era verdadeiro! Pois a camara não ouviu isto?!
O sr. Ministro das Obras Publicas (Carlos Bento da Silva): — Peço a palavra.
O Orador: — E disse o sr. deputado que o facto era verdadeiro, a ponto tal que o governo pagou...
O sr. Lobo d'Avila: —Eu disse í « Dá indicios de ser verdadeiro. »
O Orador: — O sr. deputado disse: «Negou-se avinda de um certo despacho telegraphico, o despacho chegou, e o governo pagou. » O sr. deputado disse que o governo negou aquillo que sabia que tinha existido.
O sr. Lobo d'Avila: — Não é assim.
O Orador: — Isto prova tambem que o sr. Lobo d'Avila quando fallou não calculou o alcance de todas as suas palavras. Eu appello para a camara que o ouviu.
O sr. Lobo d'Avila: — Não o disse por essa fórma.
O Orador: — Disse que o governo pagou esse despacho, e que negou aquillo que elle sabia que era verdade.
O sr. Lobo d'Avila: — Não, senhor, não hei de consentir que transtornem as minhas opiniões.
O Orador: — Não transtornei nada. Pois isto é modo com que se tratam os ministros?! Eu pergunto só ao sr. deputado, elle que se prepara, está na esteira d'isso para ser ministro, se havia de consentir, quando estivesse n'estas cadeiras, demasias d'estas.
Agora para que convido o sr. deputado é, como elle quer usar de represalias, a que diga, e diga de uma maneira a poder confundir-me aqui, quaes as operações illicitas que eu tenho praticado n'este negocio ou em quaesquer outros, quaes os actos negros da minha vida publica, quaes as manchas que sobre ella recaem, isso é que eu peço ao sr. deputado que diga aqui de uma maneira terminante, porque então hei de saír d'esta cadeira, e hei de ir sentar-me ali, sem que a camara me accuse, no banco dos "réus, para me defender.
O sr. Paulo Romeiro (para requerimento): — Peço a v. ex." que consulte a camara sobre se entende que esta questão fique adiada para ámanhã, e que se passe á ordem do dia.
Vozes: — Ora! Ora!
O Orador: — V. ex." e a camara reconhecem que no estado em que se acham os espiritos não póde continuar hoje esta questão com a placidez que convem, por isso que a questão é dos caminhos de ferro, mas com ella têem-se suscitado muitas outras e muito desagradavelmente.
O sr. José Estevão: — Peço a palavra sobre este requerimento.
O sr. Lobo d'Avila: — Peço a palavra para requerimento.