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me honro de ter feito, é que Deos me livre de fazer daquellas que infelizmente já viu o nosso paiz (O Sr. Conde da Taipa — Quod Deus avertat).

Eu, Sr. Presidente, sinto ter que dizer mais alguma cousa a respeito de revoluções; mas visto que insistem nestas questões, não ha remedio senão dize-lo.

Saiba, pois, V. Em.ª, saiba-o a Camara, e saiba o paiz inteiro, que, no dia 1.° de Outubro de 1841, se me apresentou uma deputação, composta de tres Officiaes superiores (dos quaes um já morreu, e os outros ahi estão vivos), dizendo-me que nas provincias do norte, e na cidade do Porto, estava tudo prompto para se fazer uma revolução, e que elles haviam sido encarregados de me offerecer a direcção daquelle movimento. Agradeci-lhes a confiança que mostravam ter em mim; mas accrescentei, que, com quanto eu tivesse combatido a Constituição de 1838, depois que duas eleições tinham mostrado que o paiz approvava aquella Constituição, e tendo-lhe eu prestado já juramento, havia de ser fiel, como sempre, a esse meu juramento. Bem, me responderam aquelles Officiaes, a nossa missão para com V. Ex.ª está cumprida. No entanto, agora, como amigos de V. Ex.ª, lhe declaramos, que nós fômos encarregados, no caso de recusa da sua parte, de irmos fazer igual offerecimento ao Ministro da Justiça, o Sr. Antonio Bernardo da Costa Cabral; lá foram: S. Ex.ª depois, pediu á Soberana licença para ir ao Porto, assegurou, debaixo de palavra de honra, aos seus collegas, que não ia tractar de similhante revolução, e a final poz-se á testa da revolução, traiu os seus collegas, derribou a Constituição, para cujo estabelecimento tanto tinha trabalhado, que tinha jurado manter, e atrasou ou destruiu a prosperidade do paiz! Destas revoluções nunca fez o Duque de Saldanha. Quando o paiz estava ás bordas de um abysmo, quando tive a certeza de que se preparava um espantoso movimento popular, que poria talvez em perigo o Throno e as instituições, então o Duque de Saldanha intendeu que devia saír a campo, e expôr-se a tudo para salvar a sua Augusta Soberana, a patria, e as instituições constitucionaes, para o que sempre tenho trabalhado durante toda a minha vida. A revolução de 1841 é a expressão do Exercito e da Nação, os factos ahi o estão comprovando, e nunca, como alguem pertendeu inculcar, o resultado de injurias que eu pertendêra vingar; não é isso proprio do meu caracter, todos sabem que eu, longe de me vingar, tenho muitas vezes abraçado aquelles que haviam Sido os meus maiores inimigos; que a ninguem tenho rancor, que nunca o tive, nem tenho ao Digno Par; e, repito, que o unico desejo que tenho, que talvez contrarie os do Digno Par, é o de nunca mais o ver sentado nestas cadeiras (apoiados).

O Sr. C. da Taipa (Sobre a ordem). Eu não quero tirar a palavra a quem a pediu, mas se o Sr. Conde de Thomar vae fallar novamente, eu desejava que em S. Ex.ª concluindo o que tem a dizer, se desse logo por acabada esta discussão; porque isto não é discussão da Resposta ao Discurso da Corôa, mas sim a resposta do Sr. Duque de Saldanha ao Sr. Conde de Thomar, e a resposta do Sr. Conde de Thomar ao Sr. Duque de Saldanha. (O Sr. Ministro do Reino. Mas isto é antes da ordem do dia.) Pois o Sr. Conde de Thomar pediu a palavra antes da ordem? (Vozes: pediu, pediu.) Bem, n'esse caso já não tenho que dizer, pois como eu não estava presente ao principiar da Sessão, julguei que estava na ordem do dia. (O Sr. C. de Thomar. É porque eu achava-me compromettido a pedir estas explicações ao Sr. Duque de Saldanha no primeiro dia em que me encontrasse aqui com S. Ex.ª) Bem, as minhas reflexões deixaram então de ter cabimento.

O Sr. C. de Thomar. Eu agradeço ao Sr. Duque de Saldanha os sentimentos que diz professar a meu respeito, fazendo votos pelas minhas venturas e de minha familia. Sinto porém que S. Ex.ª, apesar da caridade christã e principios evangélicos que disse invocava para patentear taes sentimentos, esquecesse que a primeira obrigação do homem verdadeiramente christão, é não assassinar a honra do seu similhante, e do adversario politico.

Sr. Presidente, quem professa os verdadeiros sentimentos do evangelho, não calumnia!..: Quem professa os verdadeiros sentimentos do evangelho, não levanta falsos testimunhos, lançando assim sobre uma familia inteira uma nodoa indelevel!!...

É necessario que no coração existam realmente os sentimentos que os labios proferem, aliás, quando as acções do homem, que se considera virtuoso, estão em diametral opposição com aquillo que diz, então não ha religião, ha hypocrisia!

Sr. Presidente; o Sr. Duque de Saldanha não tem provas nenhumas documentaes contra mim, pelos crimes de que me accusou, mas o Sr. Duque de Saldanha tem as provas moraes; reduzem-se ellas a que eu possuo um palacio e uma sala de baile em Lisboa, um Castello e uma quinta na provincia, e que por alguns dias successivos obtive a honra de ter na minha casa da provincia Sua Magestade a Rainha, e seu Augusto Esposo.

Sr. Presidente! Podia eu esperar que fosse o Sr. Duque de Saldanha aquelle que viesse lançar-me em rosto factos desta natureza?!...

Sim, Senhor: eu possuo uma casa e uma quinta, eu pude gosar da grande honra de receber nos meus aposentos a nossa Augusta Soberana, sempre chorada por todos os partidos; Quer o Sr. Duque saber a rasão? Eu sou um homem que não desperdiço o que tenho; eu economiso o que ganho; n'uma palavra: sou um homem que sempre tenho empregado os meios honestos e decentes de poder augmentar a minha pequena fortuna, que não desbarato, mas conservo; ainda, além disso, sou um homem que tenho tido amigos, e muito decididos, que me têem ajudado bastante para adquirir honestamente, e para promover a boa educação dos meus filhos Mas serei eu obrigado a vir aqui apresentar os livros da minha escripturação para mostrar quaes são as fontes desses pequenos bens que possuo?...

O nobre Duque apresenta-se, como não tendo nada? Assim será; mas é certo que S. Ex.ª tem recebido do Estado cera vezes mais do que eu?!...

Bem sabemos que S. Ex.ª não está muito rico, mas é porque S. Ex.ª entende, que é melhor desperdiçar do que economisar, é melhor destruir do que conservar!...

A que proposito veiu S. Ex.ª fallar aqui nos palacios, nas quintas, e nas salas de baile, feitas quando se não pagava aos empregados com regularidade?... Pois não se lembra S. Ex.ª que na occasião em que nos dizia que vivia d'uma subscripção, porque estava a morrer de fome, era justamente essa epocha aquella em que progrediam em maior escalla as suas obras nos seus castellos de Cintra?!... Não sabem todos que na occasião em que S. Ex.ª nos dizia aqui que, privado de alguns ordenados, se vira na necessidade de aceitar uma subscripção, daquelles contra quem, poucos mezes antes, tinha desembainhado a espada, S. Ex.ª não brilhava então menos do que brilha hoje?!... Ora, não fallemos nisso, porque se formos a procurar os modos de vida particular de cada um, não é o Sr. Duque de Saldanha o que póde levantar muito a cabeça; e eu deveras sinto que me chamasse a este campo. S. Ex.ª mostra-se enfadado! Tenha paciencia! É comesinho, é facil a S. Ex.ª apresentar-se no Parlamento como muito virtuoso, accusar os outros a seu bello tallante, e não querer ouvir as verdades duras e amargas que se lhe podem dizer!...

Sr. Presidente, não chamei em Portugal aos tribunaes muitos dos meus accusadores, e comtudo chamei-os sem paiz estrangeiro. Eis outra forte accusação! Sim, chamei; e tenho a fortuna de poder dizer que nos tribunaes da nação ingleza, a respeito dos quaes não se poderá dizer que procedem com parcialidade, eu obtive a confusão dos meus calumniadores.

Não accusei no meu paiz, não porque não tivesse confiança nos tribunaes portuguezes, mas sim porque eu sendo accusado como Ministro distado, entendi que o tribunal competente eram as Côrtes, ainda hoje o entendo. Entendi, e é verdade, que se havia estabelecido contra mim o systema de me accusarem todos os dias, para que chamando eu esses jornaes aos tribunaes, se tornassem frequentes as scenas dos escandalos. Era a segunda parte do plano dos duellos, que repetidamente se me propunham, como em outra occasião fiz já conhecer á Camara.

Sr. Presidente, eu fui combatido por muitos annos d'uma fórma atroz, nenhum outro homem politico o tem sido com igual tenacidade; eu nunca tive duvida em chamar os meus adversarios ao campo que eu reputava legal e constitucional para a accusação dos Ministros d'Estado. O Sr. Duque de Saldanha comprometteu-se accusar-me, e varios cavalheiros houveram que tambem se comprometteram ao mesmo, quando tivessem uma cadeira no Parlamento, e tivessem maiorias suas! Até hoje porém, nem o Sr. Duque de Saldanha, nem algum desses cavalheiros, pessoas influentes, e com maiorias suas, se attreveram a fazer o que solemnemente haviam promettido! É que é mais facil escrever artigos de calumnias, e dirigir circulares para o Corpo Diplomatico, accusando delapidação da fazenda publica, do que apparecer na presença do réu, e na presença de uma Camara legislativa, para deduzir uma accusação e poder prova-la.

Qualquer que seja a opinião que eu possa ter em politica, a respeito de individuos de differentes convicções que se tem assentado ultimamente nas duas Camaras, eu sempre intendi que quando se tratasse de me fazer justiça, ella seria feita com todo o rigor. Nunca dei de suspeitos, como juizes, aos meus adversarios politicos.

Mas para que vem o Sr. Duque fallar no chamamento que S. Ex.ª fez no Porto sobre a questão do rapto?!... Para que vem S. Ex.ª dizer que se empregaram meios para que houvesse no jury uma decisão contraria a S. Ex.ª?!.. Pois S. Ex.ª não tem visto os documentos e as peças justificativas que por ahi correm, e que provam o contrario do que S. Ex.ª diz?!... Não está bem provado que o Governo e o Sr. Duque de Saldanha é que empregou quantos meios de corrupção podia haver? E Deus sabe quantos dos que entraram n'esse negocio já têem sido remunerados!... Quem não sabe que se mandaram emissarios por casa de cada um dos jurados fazendo-se-lhes promessas de toda a ordem, para que decedissem a favor do Sr. Duque de Saldanha?... Não se sabe que o meio sagaz adoptado para convencer os jurados de que assim se devia decidir, foi que a multa de dez mil réis, o minimo da pena legal a um periodico nada valia, em quanto que a honra do Duque, como chefe de familia nobre, como Marechal do exercito e homem importante do nosso paiz, valia tudo? Quando de um lado se poem 10$000 réis de condemnação a um periodico, e do outro a infamia do Sr. Duque de Saldanha, quem decidiria por esta?...

Sr. Presidente, eu posso ter sido altamente criminoso, mas ainda ninguem emigrou por minha causa, fugindo do paiz pelo receio de que eu me apoderasse da sua fortuna!...

Não sei se todos podem dizer o mesmo!...

Mas, diz o nobre Duque de Saldanha, que chamou aos tribunaes pela questão do rapto. E por que não tem S. Ex.ª chamado a elles, quando designadamente lhe dão o nome de ladrão e de concussionario? Centos de vezes está feita esta accusação. Eu sinto que S. Ex.ª trouxesse para esta questão o seu collega o Sr. Ministro do Reino, pessoa que eu respeito, e com referencia ao qual eu não digo, nem tenho tenção de dizer uma só palavra que possa causar-lhe o menor desgosto.

Digo mais, Sr. Presidente, que tenho a profunda convicção de que todas essas accusações de concussão e venalidade que por ahi se estão publicando contra S. Ex.ª, são falsidades: assevero-o assim, porque eu servi com S. Ex.ª no ministerio e julgo-o incapaz de praticar taes actos. Mas permitta o Sr. Ministro do Reino, que eu sem desejos de o offender, e só sim com o fim de mostrar ao Sr. Duque de Saldanha que não tem rasão para trazer o seu collega para esta discussão, leia passagens de alguns artigos de jornaes. Sinto ser forçado a isso, mas faço-o por que o Sr. Duque a tanto me obriga!

O Sr. Duque, accusou-me de eu querer ligar á minha pessoa, as pessoas dos meus collegas, os membros das maiorias! Eu não fui que os liguei, estão ligados pelas accusações escriptas e assignadas pelo Sr. Duque! Mas a que proposito quiz o Sr. Duque trazer para esta discussão o Sr. Ministro do Reino? A que proposito ligou S. Ex.ª á sua pessoa, a pessoa do Sr. Ministro do Reino?

Aqui está um jornal com um artigo de fresca data (é de 15 de Janeiro deste anno) no qual se resumem todos os crimes, e todas as boas qualidades que outro jornal desta capital, unico que hoje apoia a politica do Governo, lançava em rosto ao Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães, quando S. Ex.ª não partilhava a politica daquelle jornal, e quando lhe fazia opposição.

O Sr. Ministro do Reino — Ou o jornal a mim.

O Orador — Ou isso Sr. Presidente, quer V. Em.ª saber como esse jornal se explica a respeito do Sr. Ministro do Reino, cuja probidade todos nós conhecemos, é insultando-o com todos os maus epithetos que lhe lembraram, e até com alguns de mau gosto (Leu.)

O Sr. Ministro do Reino — Isso é uma iniquidade.

O Orador — Eu sou o primeiro que digo isso; e se apresentei e li este artigo do jornal, foi só e unicamente para fazer a comparação, e para que se veja quaes são as provas moraes que com referencia á minha pessoa, póde ter o Nobre Duque de Saldanha.

Ainda esse jornal diz mais o seguinte (Leu.) Veja a Camara que cousas se escrevem contra um homem de Estado, com as qualidades que tem, e todos reconhecem na pessoa do sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães! Veja-se que provas moraes são estas que o Sr. Duque de Saldanha deduz dos jornaes, para a final me vir accusar aqui com ellas! e só com ellas! E note V. Em.ª que não é só aquelle jornal que assim falla, é outro que pertence á mesma côr politica, com a só differença que este achando-se ainda hoje em opposição com o Sr. Ministro do Reino, continúa a trata-lo da mesma maneira como d'antes o tratava a Revolução de Setembro. Diz esse jornal, que é de 6 de Dezembro ultimo, o seguinte (Leu.)

Estas cousas são verdadeiras indecencias que se imprimem contra um Ministro d'Estado; entretanto os jornaes dizem isto. E isto são as provas moraes do Sr. Duque!... Mas, porque o Sr. Ministro do Reino não chama aos tribunaes aquelles periodicos, será porventura verdade tudo aquillo de que o accusam? Eu tenho a profunda convicção de que o não é. E note V. Em.ª que effectivamente depois de o accusarem destas indecencias e destas infamias, dizem de S. Ex.ª o que tambem me diziam a mim, e o que dizem do nobre Duque de Saldanha. Quer a Camara ouvir o que esses jornaes dizem, é o seguinte (Leu.)

Sr. Presidente do Conselho, V. Ex.ª ha de ter a bondade de applicar a doutrina que me applicou, ao seu collega o Sr. Ministro do Reino, e ha de tambem applica-la a si proprio: e depois de feita esta applicação, a Camara se convencerá de que o Sr. Duque de Saldanha não foi prudente, nem é o mais proprio para apresentar, como provas moraes dos crimes de que me accusa, o que contra mim escreveram os jornaes, trazendo para exemplo de um procedimento digno, pelo chamamento aos tribunaes o Sr. Ministro do Reino!

Sr. Presidente, nas mesmas circumstancias em que se acha o Sr. Ministro do Reino, e com elle todos os homens de estado que tem sido Ministros, se acha tambem o Sr. Ministro da Fazenda que é um homem respeitavel por todos os motivos; ainda que novo nesta vida, S. Ex.ª não tem sido poupado, já se lhe disse que tinha transacções illicitas com o Contrato do Tabaco; e que tem ligações pouco honrosas com outras associações, tirando lucros illicitos de outras transacções que se têem effectuado no seu Ministerio. Ao nobre Duque de Saldanha calçaram já as luras por mais de uma vez no contrato das Sete Casas, e o accusaram de ladrão por outros muitos factos, e note-se que é sempre o mesmo jornal a Revolução de Setembro, que assim tem tratado todas as summidades do paiz!

Em presença disto eu pergunto ao Sr. Presidente do Conselho, quantas vezes chamou S. Ex.ª aos tribunaes esses jornaes que lhe fizeram, e outros que ainda hoje fazem accusações taes?

Não sei, Sr. Presidente, por que fatalidade me falta aqui um papel em que eu tinha notado os differentes artigos da Revolução de Setembro, e outros jornaes em que se têem feito accusações fortissimas de roubo e concussão contra o Sr. Duque de Saldanha: esta circumstancia priva-me de lêr agora o que S. Ex.ª muitas vezes tem lido, sendo tratado com o titulo de ladrão e concussionario. Outros periodicos ha em que a situação presidida pelo Sr. Duque de Saldanha, é tratada como a mais indecente que tem existido: e ainda ha poucos dias disse um jornal desta capital, que a situação não era outra cousa mais do que o pinhal d'Azambuja, e todos sabem a idéa que se liga a esta expressão!..

Eu estou muito longe de acreditar que os actuaes Srs. Ministros são tão criminosos como os suppõem os jornaes; bem longe estou de o suppor assim, e se trago aqui estes factos, é só para mostrar que, se o que dizem os jornaes podesse provar contra mim, provava tambem contra os Srs. Ministros. Eu podia chamar aos tribunaes por bagatellas, como o fizeram os Srs. Presidente do Conselho, e Ministro do Reino, deixando de parte as grandes accusações. Notem porém os Srs. Ministros, que segundo um tal systema, não ficam em boa posição. Eu não chamei aos tribunaes, porque estou convencido de que o unico meio de apurar a verdade — é a accusação no Parlamento: posso estar em erro, mas seguindo este principio, estou esperando sempre por essa accusação. Mas os Srs. Ministros, accusando como disse, por bagatelas, e despresando as fortes accusações, constituem-se no perigo de se lhes poder dizer, que as accusações fortes e despresadas são verdadeiras! Isto não quer dizer que eu esteja convencido da verdade dessas accusações, fallo unicamente com o fim de mostrar a grande contradicção em que estão os actos de SS. Ex.ªs a tal respeito.

O Sr. Duque de Saldanha póde realmente considerar-se como tendo conseguido uma elevada gloria, pelos acontecimentos de 1851; mas S. Ex.ª não quer confessar que essa gloria foi, como todos sabem, adquirida á custa de sacrificio alheio, o nobre Duque nesse movimento não teve senão desaires e despresos, sendo até obrigado a fugir para o reino visinho, occultando o seu nome.

É provado que o Sr. Duque de Saldanha levantando o seu grito em Cintra, logo ahi foi despresado por um alferes; e que seguindo para Mafra, tambem Lá o fóra pelo regimento que tinha o seu quartel naquella villa: tambem ninguem ignora que correndo todo o reino, foi desgraçado na sua tentativa, porque S. Ex.ª percorrendo todo o reino, e indo bater ás portas de todas as tropas, que estavam na provincia da Beira, foi despresado, e vendo-se assim neste estado, escapou-se, e até abandonou todos os seus proprios amigos, e não querendo partilhar a desgraçada sorte por que suppoz que elles podiam passar, fugiu para Hespanha! E houve uma singularidade neste caso, que sendo eu forçado a retirar-me do paiz, depois da sublevação da guarnição do Porto, fui visitado a bordo do vapor que me conduziu pelo governador militar de Vigo, e ao ver-me disse: «cousa extraordinaria, quando eu me dispunha a mandar marchar uma escolta para ir buscar o Duque de Saldanha preso, e conserva-lo no Castello desta praça com uma sintinella á vista, até os dois Governos dicidirem a sua sorte, apparece o Conde de Thomar!» (Riso) Isto, Sr. Presidente, é facto, S. Ex.ª teve alguns amigos no Porto, e entre elles o Sr. Passos José, que lhe valeu, e fez com que se insobordinasse a guarnição do Porto, que decidiu a questão, dando a victoria ao fugitivo! Pois o Sr. Duque de Saldanha não se lembra da carta de Galliza que escreveu ao Sr. Ximenes? Talvez queira dizer que foi dar um passeio até Lobios para vêr ás bellezas daquelle sitio (O Sr. Presidente do Conselho— Nunca lá fui.) S. Ex.ª abandonou os seus amigos em Castro D'Aire, aonde esteve até que os seus amigos fizeram a revolução do Porto? (O Sr. Presidente do Conselho — Logo direi.) Não fallemos nisto, o certo é que o movimento a final triumphou, e que S. Ex.ª tirou delle as consequencias legitimas, porque antes de chegára Lisboa, já estava senhor de todos os postos que pertendia conquistar pelas armas; depois disto não ha nada que dizer: accrescentarei sómente que S. Ex.ª julgava que não devia contentar-se com a sua posição politica de Presidente do Conselho, e com a posição militar de Marechal do Exercito, julgou conveniente para coroar o seu triumpho tirar as dragonas de Commandante Em Chefe do Exercito dos hombros do augusto Esposo da Rainha, para as collocar nos seus, nos quaes as tem conservado, e diz que não as largará, porque dahi deriva toda a sua força governativa, e é um meio de impedir que eu vá ao ministerio! Não disse aqui um Ministro da Corôa — que entre mim e aquella Cadeira de Ministro estava a espada do Sr. Presidente do Conselho?! — Espada feliz agora, porque S. Ex.ª tem a fortuna de achar junto da sua espada as outras que em outras occasiões sempre estavam dispostas a fazer uma revolução quando não podiam conseguir uma victoria nas eleições ou no Parlamento!

Mas quando outra gloria não resultasse ao Sr. Duque de Saldanha desta revolução, bastava, disse S. Ex.ª, a que elle conseguiu para fazer respeitar o Chefe do Estado, que até ali era desacatado! Tem o Sr. Duque rasão, entre os factos que mostram o respeito que S. Ex.ª conquisto para o Chefe do Estado, deve enumerar-se a maneira atroz como o Chefe do Estado foi desacatado no Theatro de S. Carlos, quando o Sr. Duque de Saldanha pelos seus agentes e amigos foi victoriado! Esperava eu que S. Ex.ª explicasse esse facto em virtude do qual S. Ex.ª, esfregando as mãos, e recebendo os vivas dos seus amigos, obrigava o Chefe do Estado a conservar-se em pé na sua presença! E tambem se fizeram revoluções em 1842, das quaes S. Ex.ª não queria gloriar-se, e tambem em 1841 veiu uma commissão offerecer-lhe os meios de fazer então uma revolução! Seria assim porque nesse tempo o exercito e a nação não estavam contentes com o Ministerio daquella época? Eram meus companheiros neste Ministerio o actual Sr. Ministro do Reino e o Sr. Aguiar, e S. Ex.ª não quererá agora accusa-los, de modo provar que havia motivo para uma revolução! Diz o nobre Deputado que essa commissão se dirigiu a minha casa; até hoje ignoro quem a compunha! que me foi offerecer os meios para fazer uma revolução! Tudo isso ignoro! O que me lembra sómente é que foi a minha casa um emissário do Sr. Duque de Saldanha, para eu atraiçoar e concorrer para a demissão dos meus collegas, lisonjeando-me com a promessa de que eu ficaria no novo ministerio!... (O Sr. Presidente do Conselho — Quando?) É melhor não trazer esses objectos á discussão, Sr. Presidente, e não teria duvida de appellar para os meus collegas a quem dei conhecimento disto, declarando tambem que podiam contar com a minha lealdade.

Sr. Presidente, para que serve tirar a discussão do seu verdadeiro ponto? O que tenha eu dito, o que tinha eu pedido ao Sr. Duque de Saldanha? Era que declarasse franca e lealmente se por ventura aquellas accusações que me tinha dirigido tinham accepção das leis criminaes, e tendo-a que apontasse os factos e as provas delles. — Esta declaração era muito simples, e a discussão podia parar aqui; exigia a lealdade provar ou retirar a accusação, a que proposito veio o Sr. Duque trazer agora toda a minha vida particular para a discussão? e a que proposito fallou em palacios, castellos, quintas e salas de baile, até na grande, e distincta honra que tive de receber augustas personagens nos meus aposentos?! E isto é o que custa mais a S. Ex.ª, porque ha pessoas que intendem que a Famillia Real é propriedade sua, e que é exclusivo dellas o gosar das honras que os nossos soberanos podem fazer a todos os seus subdi-