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Sessão de 14 de Janeiro de 1916 5

da maioria desta casa do Parlamento, me associar ao voto de sentimento que V. Exa. acaba de propor se lance na acta.

É que, Sr. Presidente, o desastre de ontem não pode e não deve ser encarado apenas sob o ponto de vista restritamente material, embora êsse tenha sido enormíssimo e os prejuízos do Estado atinjam elevadíssimas quantias. Mas nesse desastre houve desgraças pessoais a lamentar: houve mortos e houve feridos, para os quais vai toda a nossa homenagem de respeito pelos sacrifícios que ontem devotadamente fizeram para salvar alguma cousa perante êsse tremendo desastre, que representa, alêm dêsse prejuízo material, o da contrariedade, do obstáculo da demora que vai ocasionar nos trabalhos que activamente nestes últimos tempos se estavam fazendo para a preparação da nossa defesa nacional, para a nossa acção militar, ou seja, para termos um exército digno dêsse nome.

O desastre de ontem à noite, Sr. Presidente, impressionou profundamente a opinião pública de Lisboa. O povo desta capital não pôde deixar de exteriorizar, não só a sua grande mágua, o seu grande sentimento, mas ainda a impressão de que tal desastre não seria, talvez, devido só ao acaso; seria até devido a um crime, resultado, embora indirectamente, da deletéria propaganda anti-patriótica que se tem Jeito no nosso país, ou seria o resultado dum crime praticado por inimigos d nação. Eu não o sei, Sr. Presidente, nem isso influi para o meu sentimento e para o desta Câmara.

Eu não queria deixar de referir-me aqui à opinião pública e peço ao Govêrno - embora isso seja desnecessário - que êle proceda com toda a decisão, com todo o seu zelo para averiguar as causas dêsse sinistro, que tantos prejuízos, sob todos os pontos de vista, vem causando, para averiguar tudo que com êle se deu, para depois serem exigidas severas e estritas contas àqueles que, porventura, lhe tivessem dado causa.

Não é só êste pedido que quero fazer ao Govêrno; quero ainda chamar a sua atenção para um facto que me parece indubitável, pelas informações colhidas, de que os socorros e os trabalhos tendentes a exterminar, ou, pelo menos, a atenuar e o incêndio, não puderam ser tantos e tam esforçados como deveriam ser, em consequência da grande falta de água (Apoiados). Isto é importantíssimo e faz com que a atenção de todos nós recaia para a falta de água que já de há muito se vem notando em Lisboa (Apoiados), prejudicando, não só os seus habitantes, mas pondo alguns bairros da cidade na contingência de graves riscos, sempre que se manifeste algum incêndio. Não podemos estar à mercê da Companhia das Aguas (Apoiados). É preciso ver se ela cumpre ou não o seu contrato (Apoiados).

Não querendo fazer sôbre o assunto largas considerações, limito-me a dizer à Câmara e ao Govêrno, concretizando o meu sentir, que a Companhia das Aguas não nos fornece a água bastante e a pouca que nos fornece é má (Apoiados), sendo a sua má qualidade a principal causa da grande quantidade de doenças que em Lisboa estão muitas vezes a grassar.

O assunto é, pois, de molde a que eu chame a atenção do Govêrno para êle.

Ainda um outro pedido quero fazer, mas invocando ainda o sentimento da opinião pública desta cidade, invocando o sentimento de todos nós, quero fazê-lo aqui, bem expressamente. E que, há algum tempo para cá, o país tem sido vítima duma série de calamidades; é que estamos, permita-me a Câmara a expressão, numa maré de infelicidades; mas é preciso que, perante elas, não nos limitemos a sofrer e a sentir, não nos limitemos a cruzar os braços e a agarrar a cabeça com as mãos, chorando; temos que encarar essas calamidades e essas infelicidades como um incentivo para mais trabalharmos, para mais nos esforçarmos, para mais resolutamente nos expormos a todos os sacrifícios em favor dessa causa, que é a da preparação militar.

Peço, pois, ao Govêrno, não só em nome dêste lado da Câmara, mas, posso dizê-lo, em nome do Parlamento, para que por si, por todos os seus agentes, por todos os seus empregados, redobre de esforço, de trabalho, de boa vontade e de energia, se isso é possível, no sentido de atenuar, tanto quanto possível, o desastre de ontem à noite, para que seja remediado o mal e para que sejam atenuados os resultados dessa tremenda desgraça e remediados os grandes prejuízos que ela acarretou, tanto quanto o permitam o esforço humano e o patriotismo de todos nós.

O orador não reviu.