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870 I SÉRIE - NÚMERO 25

nuinamente portugueses quanto sinceramente amam e servem o seu Brasil, no culto impecável da nossa língua comum.
É este conjunto tão peculiar de valores culturais que faz dos nossos dois povos um caso único de compreensão e de entendimento à escala universal. Porque chega a ser um repouso pensar-se que, quando por muitos' lugares do mundo os homens se degladiam, odeiam e matam por razões de cor, de classe ou de religião, nós soubemos criar duas comunidades onde o racismo é palavra sem sentido e onde todos hão-de caber, sem terem de sofrer as consequências de qualquer preconceito.
Estes são dois dos mais fortes elos que constituem a cadeia indestrutível de identificação e amizade que une as nossas duas pátrias; e creio, Sr. Presidente, que as potencialidades que neles se contêm devem transcender as nossas relações recíprocas, para se afirmarem e serem por nós usadas ao serviço da comunidade das nações.
Creio realmente que o Brasil e Portugal podem e devem desempenhar no concerto internacional um papel de especial relevo. A cordialidade das nossas relações, a nossa capacidade de diálogo, a nossa excepcional disponibilidade para entender os outros, tudo isto servido por uma cultura própria e fortemente enraizada, faz com que o Brasil e Portugal possam e devam ser interlocutores excepcionalmente actuantes e privilegiados na aproximação entre os povos. E penso-o particularmente em relação aos povos da Europa latina e do continente sul-americano.
Pressuposto disso é, porém, o estreitamento das nossas próprias relações, que julgo urgente aprofundar e tornar cada vez mais intensas em todos os sectores. Por essa razão, considero que a presença de V. Ex.ª em Portugal e hoje nesta Câmara constitui o penhor seguro dos propósitos do Governo e do povo brasileiros em alargar, em todos os domínios, os contactos com Portugal.
Tarefas nobres e pesadas serão essas; mas é imprescindível que as realizemos, porque não o fazer seria afinal negarmos aquilo que essencialmente somos.
Sr. Presidente: Quando dois irmãos se reencontram depois de uma longa separação, os primeiros momentos são sempre de conversa desordenada e irrequieta. Eis o que acabou sucedendo comigo nesta hora; a emoção que sinto pelo reencontro concreto com uma pátria irmã na pessoa de V. Ex.ª e na sua presença nesta Casa, fez com que deixasse falar essencialmente o coração, também ele desordenado e irrequieto. Por isso lhe peço, Sr. Presidente, e peço a todos V. Ex.ª a vossa compreensão para o desconchavo das palavras, que não para a sinceridade dos propósitos.
Sr. Presidente: Alguém disse um dia que o Brasil e Portugal eram, em seu conjunto afectivo, os "Estados Unidos da Saudade".
A imagem é beta, de certo; mas há-de reconhecer-se nela um certo odor a passado, que a tornam insuficiente para exprimir as realidades que estamos vivendo e que queremos continuar a viver.
A presença de V. Ex.ª na Assembleia da República de Portugal, que tanto nos honra e que de novo agradeço, o alto significado da sua vinda ao nosso país, o nosso empenhamento sincero e recíproco em fazermos cada vez mais próximas as nossas vidas e as dos nossos países, permitem que nesta hora, entre todas honrosa e feliz, os proclamemos, com melhor exactidão e mais verdade, os Estados Unidos da Esperança. Bem haja por ter vindo, Sr. Presidente.

Aplausos do PSD, do CDS, do PPM, da ASDI, de alguns deputados do PS e da assistência.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Presidente da República Federativa do Brasil.

O Sr. Presidente da República Federativa do Brasil:- Exmo. Sr. Presidente da Assembleia da República, Exmos. Srs. Deputados, minhas Senhoras, meus Senhores: É-me grata a oportunidade de saudá-los e, por seu intermédio, ao povo que representam, povo que sempre foi a grande riqueza deste país, por seu trabalho, sua perseverança, sua coragem, seu patriotismo.
Agradeço, Sr. Presidente, suas palavras de acolhida, que bem dizem da generosa hospitalidade desta casa legislativa.
VV. Ex.as desempenham com brio a elevada tarefa de captar e exprimir as aspirações nacionais, consubstanciadas em glorioso passado e projectadas no seguro porvir da brava gente lusitana.
Síntese da vontade política dos Portugueses, a Assembleia da República é o reflexo fiel do espírito cívico e do amadurecimento do povo português. Apegados aos valores fundamentais da democracia, os Portugueses, neste alto Parlamento, fazem ouvir sua voz e definem com consciência aberta, com participação de todos, os objectivos maiores da nacionalidade.
Não é outro o sentido básico do processo político brasileiro. Estamos, como os Portugueses, na trilha de afirmação democrática, de consolidação do pluralismo, de abertura à participação. Todos e cada um de nós brasileiros, do Governo e dos variados sectores e segmentos da população, estamos empenhados no fortalecimento da prática democrática. A cada dia que passa, os cépticos são desmentidos. A cada dia que passa, vai-se evidenciando quão falacioso era o raciocínio dos que só viam escolhos para a democracia. O vigor da sociedade civil se mostra a cada momento, na independência com que se organiza e se articula em instituições; o Estado sabe governar com a mão estendida, sem que o gesto signifique medida paternalista ou de superioridade, mas de igualdade, de vontade de trabalhar em conjunto pelo progresso do País. Tanto aqui quanto em minha terra, não vemos caminho mais seguro, dentro da realidade específica de cada sociedade.
O papel do legislativo avulta na história do Brasil, desde a abertura da primeira Assembleia nos primórdios da independência. Aliás, nossas histórias parlamentares quase se confundem em seus momentos iniciais. Próceres da independência brasileira foram membros da Assembleia portuguesa quando esta iniciava seu processo de definição institucional. E, feita a independência, vários deles participaram das primeiras legislaturas do Império.
Sr. Presidente da Assembleia da República: Desejo significar, com minha presença nesta nobre Casa, o