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30 DE MAIO DE 1945
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O Orador: — Que o bom e generoso povo português compreendeu, nas suas profundas intuições, através dos sacrifícios exigidos em nome da Nação ou impostos pelas inclemências da guerra, a magnitude e a bela florescência dessa política em todos os caminhos da vida portuguesa, prova-o, além de tudo o mais, a forma como acorreu em 19 de Maio a aclamar entusiàsticamente os Chefes de Estado e do Govêrno.
Sr. Presidente: mas temos de continuar. A vida, conforme a sentença de Séneca, é milícia — é sempre milícia! E não desapareceram os perigos que nos rondavam e espreitam as brechas dos nossos desfalecimentos e das nossas mesquinhas quezílias e divisões.
Temos de ser cada vez melhores, perante o exame cotidiano da nossa consciência, aos olhos dos portugueses e aos olhos do mundo.
Por isso não vamos agora adormecer sôbre os louros já conquistados, nem paramos no caminho, a olhar saüdosamente para trás, ou assentamos as tendas para usufruir a esperança de uma tranqüilidade que não é do nosso tempo nem se afeiçoa ao nosso carácter.
Vozes: — Muito bem!
O Orador: — Cada dia teremos de sair a trabalhar, com o cuidado e a decisão do lavrador, para abrir novas leivas, semear terrenos incultos o mondar as plantas daninhas que podem ameaçar o viço, desfigurar ou afogar as searas do futuro.
Conforme já foi de novo prometido pelo Sr. Presidente do Conselho no seu último discurso de 18 de Maio, os ramos inúteis, estéreis e parasitas serão cortados, para que os frutos de amanhã não sofram a sua nefasta influência. Dessa maneira corresponderemos ao altivo e sincero pensamento de 28 de Maio e cumpriremos o mandato dos seus Heróis. E continuaremos sempre a ter razão e «a não a dar aos outros contra nós próprios».
Sr. Presidente: eu confio que o pensamento de 28 de Maio, integrado na História pelos sacrifícios e vitórias alcançadas, ilumine cada vez mais e com mais vivo fulgor o coração de todos os bons portugueses, chamando-os à comunhão desta magnífica unidade nacional e depois a êste combate pela grandeza, liberdade e projecção universal da nossa Pátria.
Disse.
Vozes: — Muito bem, muito bem!
O orador foi muito cumprimentado.
O Sr. Manuel Múrias: — Sr. Presidente: só em circunstâncias extraordinárias a Assemblea Nacional costuma estar na efectividade do exercício das suas funções no dia aniversário da Revolução de 28 de Maio.
Parece, em vista disso, que não deve perder-se agora o ensejo de prestar a homenagem devida pela gratidão de todos os portugueses às forças armadas que nesse dia, há dezanove anos, deram o impulso capaz de permitir a obra de restauração — obra de ressurgimento realizada depois.
Com efeito, às forças armadas — ao exército e à marinha — se deve a possibilidade da obra espantosa realizada nestes últimos dezanove anos, e para discutir a qual é, evidentemente, necessário possuir a autoridade de haver colaborado nela com entusiasmo e de não haver fugido ou por cobardia (os que não acreditavam!) ou por despeito (os que desejavam ser êles próprios a fazer a Revolução!).
Vozes: — Muito bem, muito bem!
O Orador: — Sr. Presidente: no dia 28 de Maio de 1926 pode bem dizer-se que a vida pública em Portugal se definia numa só palavra: «caos». Caos na política, caos na acção social e económica, caos na administração, caos na situação financeira — caos, finalmente, nas ideas e nos sentimentos.
Caos na política! E se as paredes pudessem falar, se a memória dos homens não fôsse tam débil, bastaria fazer-se a evocação do que se disse e resolveu aqui, a evocação do que nesta sala se passou para justificar plenamente, perante as consciências rectas, a intervenção do exército no dia 28 de Maio de 1926.
Sou daqueles que viram, sou daqueles que tiveram vergonha — dos que, por isso mesmo, resolveram acompanhar, na medida das suas forças e até ao fim, a intervenção decisiva do exército e da armada e apoiá-los por toda as formas!
Se estas paredes pudessem falar! Havia de saber-se que nessa altura não eram muitos os que se consideravam em condições de poder reagir e de poder triunfar das forças demagógicas que dominavam o País.
Éramos poucos os que na realidade confiavam na única e na última fôrça moral que podia impor-se ainda neste País, a fôrça que podia usar com direito a palavra «glória», chamar a si, para a realizar, a palavra «vitória». A última e única fôrça moral dessa época eram o exército e a armada — os corpos nacionais para quem se dirigiam os olhos dos portugueses aflitos!
Vozes: — Muito bem, muito bem!
O Orador: — Não havia nenhuma outra que não estivesse envolvida e comprometida no caos que era a vida pública portuguesa no dia 28 de Maio de 1926.
Caos na política, caos na acção social!
É preciso lembrarmo-nos que nessa altura as aspirações maiores, aspirações que no fundo eram pura demagogia dos partidos, estavam muito longe de poder sequer ser tomadas como aspirações, comparadas a tudo o que já conseguimos realizar até agora na marcha resgatadora da Revolução Nacional!
Vozes: — Muito bem, muito bem!
O Orador: — Basta comparar o programa daquilo que então se chamava Partido Socialista Português e arrolar o que se realizou depois, tanto no capítulo dos seguros por desastre no trabalho e na invalidez, como na organização, preparação, assinatura e execução dos acordos de salários mínimos ou dos despachos que os impuseram, quando não foi possível chegar a acôrdo, sempre em benefício das classes operárias; basta pensar-se naquilo que se conseguiu sem nada se haver prometido, jogando com as ilusões ou para além das realidades, para se fazer uma idea do caminho que percorreu a Revolução preparada para servir a justiça, a verdade e a restauração moral e material do País.
Isto não quere dizer que os homens que desde o primeiro dia estiveram com a Revolução (ainda mesmo antes dela) se sintam completamente satisfeitos; mas não se reconhecerá por isso autoridade para criticar e condenar aos que prometeram tudo e nada fizeram durante anos seguidos de Govêrno, seguros como estamos de que se fez tudo quanto foi possível perante todas as inclemências de duas guerras, que, rondando-nos a porta, se puderam evitar, mas a cujas conseqüências económicas não seria nunca possível fugir de todo.
Vozes: — Muito bem, muito bem!
O Orador: — Antes da Revolução havia também entre nós, na realidade, uma guerra constante — a pior das guerras, guerra civil a que a própria organização das representações de partidos dera a fórmula visível de guerra civil legalmente organizada.