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15 DE ABRIL DE 1935 791

Chamou-se a si próprio «nemo» - ninguém; e, todavia, foi alguém.
Tal foi, Sr. Presidente, o conselheiro José Fernando de Sousa.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador:-Foi em Viana do Alentejo que, em 30 de Maio de 1855, viu a luz do dia José Fernando de Sousa, em casa bafejada por um alto sopro de espiritualidade cristã, que havia de aviventar toda a longa e prestante vida do jovem alentejano.
Não vou, Sr. Presidente, fazer uma extensa e demorada biografia, a que não faltariam, aliás, nem os acidentes da vida, nem a dignidade do esforço, nem a firmeza dos ideais que o levaram a lutar até à morte.
Esta não foi mais do que o cessar da labuta na hora do descanso, labuta que não retomou só porque Deus o chamou a si!
Com 21 anos completava José Fernando de Sousa o seu curso de engenheiro militar, com a primeira classificação.
Em 1900, sendo tenente-coronel, após uma viva polémica jornalística, foi desafiado para se bater em duelo. Fiel à doutrina da Igreja, recusou-se a aceitar o desafio e a ser comparticipante da farsa, que lava muitas vezes a honra com o sangue do inocente ou ofendido.
E, entre a traição aos princípios morais que informavam o seu espírito e o abandono da profissão militar, que constituía o enlevo da sua vocação, não hesitou e abandonou o Exército.
Mas o jornalismo e a polémica continuaram a ocupar as horas que a sua actividade de engenheiro lhe deixava livres.
No Correio Nacional, na Palavra, no Portugal, em A Ordem, a sua acção em defesa da Igreja e das instituições tradicionais é continuada e brilhante.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-São vinte e cinco anos de luta constante, desde 1895 a 1919, data em que o Governo suspende o jornal A Ordem.
É então que o conselheiro Fernando de Sousa atinge o apogeu de grande jornalista e movimentador eficaz da opinião pública.
É o período notável do jornal a Época. E ai, nesse admirável órgão da imprensa, que Fernando de Sousa toma o lugar de relevo na defesa dos direitos da Igreja e dos princípios monárquicos.
Veremos em breve como el-rei D. Manuel e a rainha D. Amélia ser lhe referiram.
É em A Época que o jornalista se agiganta no combate à desordem e à decadência da governação desse tempo, aquela «apagada e vil tristeza» em que a demagogia negativa e desordeira foi lançando a Nação.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-E foi com essa campanha em que Fernando de Sousa se lança, que fortemente se ajudou a criação do ambiente que havia de tornar possível e triunfante o Movimento Nacional de 28 de Maio. Campanha não isenta de graves perigos e pesados sacrifícios, que nunca será de mais salientar, para conhecimento das gerações que depois vierem.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Também dou modesto, mas verdadeiro testemunho dela, recordando o entusiasmo viril que nos animava nus horas incertas da Revolução e nas que se lhe seguiram.
Acontecimentos lamentáveis e dolorosos obrigaram ao desaparecimento de A Época e sua substituição pelo jornal A Vos, que ainda hoje vivo sol) a direcção «Io distinto jornalista Pedro Correia Marques.
Os tempos, porém, trouxeram aos espíritos a serenidade que nessa altura tantos perderam, cegos na sua pertinácia.
Fernando de Sousa sofreu horas amargas de violências contra si, fundamentalmente porque marcou a nobre posição de não fugir ou desviar-se da harmonização da sua fé religiosa e política.
Horas torvas que passaram, em que o grande apulogeta e jornalista, o director de A Época, com uma vida longa de lutas pêlos direitos de Deus e da Igreja, o que lhe criou ódios, campanhas e violências, foi tratado quase como um herege ou um réprobo.
A sua profunda fé, porém, na justiça divina deveria ter sido o melhor bálsamo para a dor sofrida por tão grandes violências e injustiças! Teve, porém, muitos -grandes c humildes - a seu lado; e o tempo, sobretudo, com o desenrolar dos acontecimentos, fez-lhe justiça.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Passaram muitos dos que o atacaram, alguns com a maior vileza, e já ninguém deles fala, por muito alto que tivessem subido. Grandezas externas e de aparência, que não resistem ao tempo nem aos baldões da fortuna e que o bolor cobre, sem apelo possível. Mas o nome de Fernando de Sousa, esse ficou, sem que contra ele algo tivesse podido a jactância de pigmeus que pretenderam ser grandes!

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Mas, Sr. Presidente, não foi só no jornalismo e na polémica que o nome do conselheiro Fernando de Sonsa se tornou digno de menção e elogio.
Foi na política, na sociologia, na apologética. Não teria tempo para me referir às obras e folhetos que saíram da sua brilhante pena.
Quanto a alguns deles, recebeu o seu autor o justo, valioso e honroso tributo de elogios do então patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo.
Como engenheiro, Fernando de Sousa foi da mais extraordinária operosidade; sobre portos e caminhos de ferro, especialmente, o seu labor, tanto em escritos como em trabalhos realizados, é de pasmar. E a sua autoridade na matéria foi largamente reconhecida, tendo ultrapassado as nossas fronteiras.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador:-Sr. Presidente: devo a uma atenção penhorante da família do conselheiro Fernando de Sousa a possibilidade da leitura o consulta de alguma da sua correspondência. Através dela se colhe exuberantemente quanto ele era admirado e estimado por gente humilde e também por personalidades do mais alto relevo. Apenas algumas ligeiras referências e transcrições: Referindo-se, em carta do mês de Junho de 1U23, carta inédita, dirigida a Fernando de Sousa acerca da conferência que este realizara na sede das Juventudes Monárquicas, sob o tema «A Religião na Monarquia», o rei D. Manuel escreveu:
É mais um serviço, e relevante, que prestou, vindo com a sua excepcional autoridade elucidar os Portugueses do que deve ser a situação da Igreja na Monarquia.
E, já que me referi ao assunto, quero aproveitar a oportunidade para dar a conhecer o sentir e posição do rei de Portugal D. Manuel II neste problema.