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8 DE FEVEREIRO DE 1956 451

Alguns generais da antiguidade, com Alexandre à cabeça, como os marechais de Napoleão, sabiam com segurança arrecadar as colheitas dos despojos das batalhas, dos saques e requisições; encheram assim o bornal e dotaram o erário.
Porém, a ideia de serviço público desponta com a queda dos Capetos e desabrocha plenamente, reverberada pelo facho da Revolução.
Claro que os reis, os senhores feudais, os bispos acarinharam os artistas, amontoaram preciosidades, encomendaram trabalhos singulares, acumularam tesouros, mas a afectação das colecções e galerias ao exame e instrução pública, o valor cultural e educativo e a explosão artística desses tesouros só começam na Idade Moderna.
Sr. Presidente: no tempo de Luciano Cordeiro, Silva Passos e Rodrigues Sampaio começou a bem dizer a obra de recuperação do património artístico nacional.
Tinha-se assistido nos vandalismos das destruições ou ao abandono desleixado dos padrões de glória imorredoura da raça.
Alexandre Herculano apostrofava, anos antes, em 1838, com a violência e a indignação de um Ezequiel, o alheamento e a incultura.
Sobre os terramotos, a Usurpação, as invasões e a guerra civil, instalaram-se, para diminuir o minguado tesouro artístico, a exportação e o contrabando, novos estragos irreparáveis por falta de uma disciplina do gosto, e erguiam-se os padrões da fealdade e da ausência de estética das habitações, cópias servis dos cottages do Surrey ou dos chalés dos Quatro Cantões.
Que se fez por essa altura?
Travou-se o vandalismo, procurou-se salvar o que restava. Organizar as colecções, preencher as lacunas, melhorar o sen nível histórico e crítico, acabar com a grande piedade, a grande miséria, o sudário do Portugal monumental.
Instituiu-se o museu nacional, como desenvolvimento de sentimentos estéticos, do apego pelo passado e de lição perene de história artística.
Edifícios, igrejas, mosteiros, ruínas que representassem o modo de ser português, que pudessem avivar a memória dos seus feitos, foram salvos da devastação, do opróbrio e do luto.
Mas isto não chegou, porque os estragos da fortuna e dos homens e as depredações continuaram, embora em menor escala.
Já no nosso tempo, na sagração das primeiras horas da renovação, a obra recuperadora, floresceu plenamente e frutificou - diga-se o que se disser.
José de Figueiredo, a quem a museologia mais deve, grande amigo esbatido na bruma da saudade, Columbano, Lúcia no Freire, Virgílio Correia, Vasco Valente, Ricardo, Raul Teixeira, já em nossos dias, pugnaram, lutavam, fizeram esforços obscuros mas sobre-humanos para restaurar os valores danificados, repatriar as obras portuguesas erradias, introduzir as novas técnicas na exposição museológica, reconhecer os tesouros artísticos nos distritos, desde a arquitectura, à ourivesaria, da tapeçaria aos gradua mentos - em que floresceram também os felizmente vivos, como Carneiro Pacheco, Reinaldo das Santos, com a Academia Nacional de Belas-Artes, Mardel, Reis Santos e outros também dignos de menção.
Sr. Presidente:- esta obra formidável não era, espontânea, nem desconexa; não era mosaico de iniciativas puras, nem apanágio dum ou outro esteta- era actuação de muitos, a que presidia a palavra de ordem, nítida, formal, inabalável, de S. Ex.ª o Presidente do Conselho.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Defendamos o nosso património artístico, brasão das gerações.
Não transformemos os artistas em burocratas, que se extraviam dos intuitos criadores.
Sejamos sinceros, antes do mais, porque seremos verdadeiros e justos.
Esta obra cimentava-se no apuro do gosto, na subordinação a fins ideais, na suprema relevância da obra de arte como embelezando a vida e distraindo-a das preocupações excedentes de lucratividade e cálculo.
O Sr. Dr. Mendes Correia fez já resenha completa do que poderia, na ordem dos factos, ser abonado como demonstração da minha tese.
Está realizado tudo?
Podemos descansar; estugar o passo?
As discussões que ouço, as vozes nem sempre conformes não têm significado pejorativo; mostram que há inquietações filosóficas, novos problemas, dúvidas graves que convém aquietar.
Sem pruridos de erudição, vou mostrar alguns paradigmas de discussão e solução, não como temática erudita ou sinal de bastas leituras, mas com o fito de que rapidamente se faça uma ideia da ordem destas questões em nossos dias:
Reconstituição do enquadramento histórico e exactidão de ambiente da obra de arte;
Extensão cultural e artística da museologia;
Continuidade histórica deste país através dos museus;
Os problemas e perplexidades da arte moderna ao ingressar ao lado, ou no meio, das colecções tradicionais ;
Formação de pinacotecas para descongestionar os museus;
Museu único?
Reservas e sua qualificação.
Faço este apontamento para mostrar que a vida não pára, que resta muito para fazer, que novos problemas surdem de vários lados e que é preciso acto de consciência para não perder o pé nestes problemas.
Por isso a museologia do nosso tempo foi assinalada por um escritor como laboratório e teatro - fruto de labor científico e obra dirigida à comoção das massas contemporâneas.
Todos sabemos o que um museu não deve ser:
Não deve ser um armazém, não deve ser uma necrópole, não deve ser uma repartição de objectos perdidos.
Será armazém se as obras se amontoarem sem ordem, sem critério, atabalhoadamente; será uma necrópole se não for conhecido, visitado, ou se vir votado ao abandono pelos estudiosos e pelo público, ou ainda vivendo e progredindo distante dos verdadeiros artistas; será um parque de coisas perdidas se guardar aquilo que os coleccionadores privados enjeitam ou não consideram digno de si.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: -Todos sabemos o que deve ser um museu, pelo arranjo ordenado ao encontro das suas finalidades sociais; pela organização e favores de análise e possibilidades de nobre conhecimento das suas colecções e salas; pela selecção que logre cristalizar em obras-primas representativas as celebridades criadoras que o mereçam.
Portanto, da primitiva colecção de arte para a galeria de obras-primas, desta até ao centro de cultura polarizante e de difusão, com suas lições, conferências, publicações, atracção de turistas e extensão à vida social, vai quase invencível distância.
Temos de reconhecer que há defeitos e insuficiências nos museus - problemas e problemas de delicada solução.