288 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 182
importante diploma aprovado por esta Assembleia sobre o condicionamento industrial.
E não se poderá de facto afirmar que nos faltam totalmente possibilidades de real progresso das actividades industriais.
Na verdade, a tradição de um artesanato medieval, que se prolongaria pelos tempos modernos, criou por cá raízes fundas. E, assim, foram inúmeros os centros de labor oficinal que se constituíram em todo o território. E foram notáveis, em numerosas modalidades, mestres prestimo os, criadores de verdadeiras escolas de aprendizagem, que nada ficaram a dever, nesses tempos, ao melhor que se realizava então em terra estrangeira.
E se isto se verificou no artesanato urbano e que deixou até na taponímia citadina numerosos testemunhos, não foi menos marcante o progresso verificado nas artes agrícolas, ocupando-se lugar de igual realce no mundo civilizado.
Bastará lembrar que fomos, quanto a este aspecto, os pioneiros da pomicultura e da horticultura industriais com o carácter que ela hoje revela de nítida fáceis internacional. Laranja, maçã, uva e tantos outros frutos como cebola, melão e demais produtos hortícolas, foram de cá remetidos durante largos anos para os mercados mais exigentes da Europa de então.
E ainda hoje, como vago, embora enganoso, testemunho, aparecem nos grandes centros consumidores «Sando Michael» e «Setúbal oranges», de várias partes, excepto é claro, como é bem conhecido da nossa ilha de S. Miguel e da célebre região citrícola de Setúbal.
Disse, e provo aasim a verdade de afirmação feita, que não nos falta ainda hoje a tradição industrial como melhor raíz do que se desejou ver crescer.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Também não nos falta energia criadora.
Para o manufactureiro e similar lá se vai aproveitamento como se pode e sabe a torrencialidade ingrata do fluvial e sonha-se, melhor direi, antevê-se, para época próxima os frutos da cisão nuclear.
Outros não mais dotados, como a Suiça, lá vão singrando entre os primeiros postos da indústria, embora deficitários e importantes de energia. E o mesmo direi quanto à indústria nos domínios do agrário e do florestal.
Se algo nos falta de água e solo, e quanto a água apenas má distribuição estacionar, não temos, porém, deficit, antes, pelo contrário, notável superatit, de energia solar, responsável em larga escala pelas possibilidades de fomento das indústrias da terra.
Não será, possìvelmente, a fécula do cereal a matéria-prima cuja produção esteja mais adaptada ao nosso meio. Poderemos, porém, afirmar que aqui se encontram condições excepcionais de utilização da fonte de energia solar, na obtenção da fibra, ou melhor, da celulose, e de tudo o que se afine com as radiações do astro rei - aroma, perfume e paladar. E assim floresta, pomar, vinha, hortaliça e flor ou similares encontrarão, decerto, em Portugal, quer vigore o regime de mercado comum europeu ou de autarquias nacionais, condições de perfeito sucesso.
E assim, resumindo, direi:
Se não fomos, por má orientação ou incúria, talvez mesmo por doença infecciosa de política que nos atacou prematuramente, dos que acompanharam o movimento industrial dos dois séculos passados, estamos hoje em condições, decerto em face das novas possibilidades de energia criadora e de condições naturais que possuímos, de acompanhar o movimento de desenvolvimento económico e social do Mundo.
Para tal, porém, teremos de nos desligar de vez de complexos que nos diminuíram e nas atrasaram no passado. E um deles, senão talvez o mais importante, será, fora de dúvida, o afastamento das grandes e progressivas correntes do ensino técnico nos seus diferentes graus.
Por isso aplaudo quando na proposta do Governo irão se desliga a investigação aplicada da de fundo; o progresso da técnica industrial da do ensino; isto é, em síntese, quando se preconiza intensa ligação entre a escola e a fábrica.
Esta uma das notáveis funções que caberá ao inluto que a proposta de lei n.º 43 se propõe realizar. E para tal direi que não será necessário fazer tudo de novo nos domínios do material e da preparação científica do pessoal investigador e executante.
A prospecção que se faça neste sentido e que urge dar-lhe realidade demonstrará, estou disso convicto, que a situação não será das piores, e com alguns anos de persistente trabalho se atingirá, dentro das nossas possibilidades financeiras, o fim desejado.
Haja em vista, como exemplo, o trabalho magnífico feito no capítulo do aperfeiçoamento tecnológico acompanhado pelo da investigação e da preparação do pessoal técnico e operário, entre outros, por algumas das nossas mais importantes indústrias, como a Companhia União Fabril, a indústria das moagens, a das cervejas e tantas outras, significativos exemplos, digo, de anulação dos complexos de rotina a que fiz referência.
E quanto à acção dos estabelecimentos de investigação aplicada, realizada à margem da iniciativa privada, há também que realçar numerosos exemplos de nítido progresso.
E, assim, além do que é justa e repetidas vezes citado pelo ilustre relator da Câmara Corporativa, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, cujo benéfico labor a favor das actividades nacionais não custou «15 por cento das economias que para a Nação resultaram da sua intervenção no delineamento de obras sobre as quais foi consultado», e que hoje apresenta já «destaque internacional em certos sectores da sua actividade», direi, e apenas como passageira nota que se deve recentemente ao notável Laboratório de Medicina Veterinária e aos serviços pecuários do Ministério da Economia, e com projecção notável de benefícios no país vizinho, a admirável luta contra a difusão da doença conhecida vulgarmente por «língua azul», que começara a destruir o nosso armentio ovino, como há poucos anos a campanha de igual valia realizada sob a égide da Estação Agronómica Nacional na luta contra a praga de acrídeos, cujos perigosos focos já se encontravam solidamente instalados em algumas das principais regiões do celeiro português, verdadeiras catástrofes que ameaçavam duas das mais importantes actividades da indústria agrária nacional e que foram assim vencidas pelo íntimo contacto que se verificou existir entre o Laboratório e as actividades, entre a investigação fundamental e a aplicada.
E o mesmo se poderá afirmar quanto ao notável esforço que vêm realizando com êxito os laboratórios e serviços da Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas no debelar das pragas que atacam presentemente montados, soutos e pinhais.
Eis porque insisto que na acção coordenadora de actividades que se prevê para o Instituto Nacional de Investigação Tecnológica e Economia Industrial nunca se poderá perder de vista o que já existe de bom nas actividades oficiais e privadas, de investigação e de ensino e se procure assim levar a cabo útil acção coordenadora das mesmas.
Vozes: - Muito bem!