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1286 I SÉRIE-NÚMERO 38

aconteceu, a não ser o terem sido reintegrados, pagos generosamente os retroactivos, promovidos, tendo mesmo o próprio general Spínola sido ameaçado com a imposição das estrelas de marechal, um grupo de democratas, na intenção de homenagear o exemplo do soldado Luís e de comemorar a vitória popular sobre o golpe fascista do 11 de Março, solicitou ao Comando da Região Militar de Lisboa autorização para amanhã se deslocar ao Ralis e aí depositar um ramo de flores na lápide evocativa da morte do soldado Luís.
Segundo me foi dado saber, a autorização foi concedida nas seguintes condições: três elementos da comissão chegam à porta do Ralis, onde são recebidos por um oficial superior, que recebe o ramo de flores e o irá colocar na lápide.
Na situação que hoje se vive no nosso país, não é de excluir a hipótese de que tal oficial superior possa ser um dos golpistas do 11 de Março ou, pelo menos, de que nessa data tenha estado em espírito com os golpistas, por falta de coragem ou de oportunidade para colaborar activamente.
Devemos perguntar-nos -por que razão um grupo de democratas não pode entrar numa unidade militar para simbolicamente homenagear quantos defenderam com a vida as liberdades ameaçadas.
Esta solicitação dirigida ao comandante da Região Militar de Lisboa, praticamente, coincidiu com o repúdio unânime que todas as forças políticas e órgãos de soberania opuseram à intentona recentemente fracassada no país vizinho. Mas coincide também com factos e situações que não são tranquilizadores quanto ao futuro das liberdades democráticas conquistadas com o 25 de Abril. Coincide, por um lado, com as diversas tentativas para apresentar como heróis nacionais os golpistas do 11 de Março e, por outro lado, com a campanha para apresentar como criminosos e marginais os soldados do Ralis que resistiram ao ataque contra-revolucionário.
Justamente para que não caia no esquecimento o significado do 11 de Março, o papel que uns e outros desempenharam, a identidade dos Tejeros e Milhans dei Bosch portugueses, justamente para cumprir com um dever de rigor histórico, que constitui, simultânea» mente, um alerta contra as maquinações antidemocráticas do presente, a nível nacional e peninsular!
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Quando em 11 de Março de 1975, há seis anos, a intentona contra-revolucionária sofreu uma clamorosa derrota, face à resposta firme do Ralis, apoiado pelos soldados e militares democratas de todo o País e pela decisiva acção das massas populares, deu-se um. salto qualitativo no processo revolucionário português.
O desenvolvimento das lutas do movimento popular contra a sabotagem económica, contra o desemprego, pela unidade sindical, pelo controle e vigilância dos trabalhadores sobre a gestão das empresas, sobre a banca, a denúncia das fraudes e movimentações escuras do capital, recrudesceu energicamente após a derrota em 11 de Março das forças imperialistas e monopolistas, consumada na fuga para o estrangeiro de alguns dos seus lacaios de serviço nas forças armadas, e levou às nacionalizações dos monopólios e da banca, ao reconhecimento das ocupações no Alentejo.
A actuação demagógica dos governos provisórios, cuja missão consistia em dar saída às ilusões e ambições reformistas assentes na formação de um sector capitalista de Estado e fazer a ligação entre os países imperialistas e as ex-colónias portuguesas, conseguiu condicionar e desviar o ímpeto popular, no qual se apoiara para derrotar, efemeramente, as ameaças dos sectores monopolistas e latifundiários, que, depois de voltarem à carga em 11 de Março, se organizavam placidamente, a coberto da disputa do aparelho de Estado entre os partidos reformistas.
As massas populares, dispostas à luta e em luta, encontraram-se desorientadas entre os apelos ao socialismo democrático feitos por quem se aliou despudoradamente aos sectores mais reaccionários e as garantias de que se estava em transição para o socialismo, enquanto o imperialismo continuava a fazer o que muito bem lhe apetecia, continuando a fechar empresas e a despedir operários, e os camponeses, principalmente os do Norte do País, estavam mais do que nunca nas mãos dos intermediários parasitas.
A classe operária e os assalariados rurais, manietados pelas ilusões no MFA e nos governos provisórios, que, reconhecendo a gravidade da situação, especialmente do Norte do País, lhes faziam constantes apelos para serem mais realistas e ponderarem na situação e, assim, construírem a unidade com sectores da média burguesia e em volta das forças armadas como garante da democracia!, enquanto colaboravam com o governo, baixando as suas reivindicações revolucionárias e «irrealistas», ao mesmo tempo que se isolavam do campesinato, que necessitava mais de um efectivo impulso revolucionário para se libertar dos donos das quintas, dos grandes rendeiros, dos parasitas e intermediários, dos caciques rurais e menos de dinamização cultural pequeno-burguesa, iam permitindo o desenvolvimento da contra-revolução e preparavam-se, sem o saberem, para, de etapa em etapa, de ilusão em ilusão, esperarem pela aplicação razoável da lei Barreto, consentirem em comer pior para defenderem as nacionalizadas, olharem embevecidos para Lurdes Pintasilgo, esperarem que Eanes demitisse Sá Carneiro, esperarem pelas eleições para obviarem aos despedimentos e à repressão nas empresas, rezarem pela maioria de esquerda antes que a GNR desse todas as terras aos latifundiários, até chegarem ao «milagre» de terem na Presidência outra vez Eanes e quase, quase, uma maioria democrática nesta Assembleia da República, bastando talvez que alguns CDS se passem para o PSD, alguns PSD se passem para o PS e, quem sabe, algum PS para o PCP.
Para a UDP hão-de passar-se os trabalhadores quando deixarem de acreditar nestas cantigas.

Vozes do CDS: - Querias! ...

O Orador - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Se hoje ainda a direita não liquidou totalmente o 25 de Abril, devêmo-lo ao impulso criado pelo movimento popular com a derrota em 11 de Março dos golpistas reaccionários, civis e militares, e que levou, por imposição dos trabalhadores, às nacionalizações, a receberem 61 % do rendimento nacional, à aceitação da ocupação das casas criminosamente devolutas e da ocupação dos latifúndios, criando-se condições de avanço para novas conquistas.