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4 I SÉRIE - NÚMERO 1

de trabalho que dificultava a sua rentabilidade, a fim de se consolidarem e darem garantias de emprego estável, enquanto o Governo devia dar bons incentivos ao investimento, mesmo à custa das verbas para a educação e saúde - quem quer saúde, paga-a, disse o Carlos Macedo -, principalmente nos sectores virados para a exportação, outra garantia de aumento dos postos de trabalho, apesar de na CEE não poderem nem quererem absorver os nossos produtos...
E a Constituição também urgia ser revista. Que garantisse os direitos humanos, pois claro. Todo o homem tem direito aos direitos. Mas que não se esquecesse de impor os deveres, pois os trabalhadores só pensam em direitos e esquecem-se dos deveres que têm para com o País, para com a civilização ocidental, para com a liberdade de que usufruem, e cujo expoente máximo são os Estados Unidos e, até certa ponto, a CEE.
Poder falar à vontade, desde que isso não os impeça de produzir e render. Organizarem-se, desde que não ponham em causa a eficiência do Governo, a unidade do Estado, a autoridade e a vida das empresas. Fazer greve quando os empresários forem suficientemente estúpidos para não perceberem que com mau ambiente é a empresa que é afectada e não lhes quiserem aumentar os salários em 20% quando toda a gente sabe que, desde o último aumento, o custo de vida subiu 33%.
E têm mesmo o direito, dizia ele entre dois arrotos contidos e sibilados com distinção, de participarem com um representante nos conselhos de gerência. Para aprenderem a ter a noção da responsabilidade. E sentirem a empresa como sua. Claro que temos de incentivar o mérito, castigar o absentismo e liquidar à partida as greves injustas e políticas. Para isso não há nada como pôr os delegados sindicais e as CTs na ordem - baixar-lhes a classificação de assiduidade com o tempo que perdem a rebelar os operários.
Além disso, os trabalhadores devem ter o direito de casar; a não trabalharem - as operárias - nos meses próximos do parto e mesmo a faltarem quando lhes morreu o pai.
Mas decerto que não querem, ainda por cima, ter a mesma classificação daqueles que se dedicaram em tempo integral, sem falhas, a aumentar o rendimento e o prestígio das empresas!
E principalmente, meu caro, concluía antes de entrar para o incomodamente grande Jaguar - como o caracterizou, enquanto sublinhava que, em Lisboa, só com o Talbot que o puto mais novo levara para o Estoril -, é preciso acabar com os parasitas, essa praga que o Balsemão tão bem referiu na discussão do Programa do Governo.
O meu amigo, um jovem técnico progressista que foi àquele encontro para discutir determinadas questões que a entrada para a CEE põe ao sector, mesmo às empresas bem lançadas, foi curtir a crise sabendo a bacalhau com natas e a uísque de 20 anos, reconhecendo que o jantar lhe soubera bem e reflectindo que o capitalista tinha uma grande lata, mas que, na verdade, as greves políticas são inadmissíveis.
A participação democrática dos trabalhadores está bem, mas não esse disparate do poder das classes trabalhadoras, resquício do gonçalvismo e do PREC. Além disso, não se pode pôr em causa a iniciativa privada - um dos factores de desenvolvimento -, desde que suportada por um sector nacionalizado forte e dinâmico. Quanto aos contratos a prazo, na realidade era preciso melhorar a lei, por forma que os investidores pudessem contratar os trabalhadores sem o compromisso total e definitivo - quem melhor do que o empresário sabe das necessidades e possibilidades da empresa? -, mas que ao mesmo tempo reduzisse a ameaça permanente que paira sobre os contratados a prazo. Uma boa lei que impusesse limites aos empresários gananciosos e sem escrúpulos.
A pílula, a pílula, dizia-lhe uma vozinha insistentemente ao ouvido, enquanto duas lácrimas cristie lhe escorregavam pelo canto dos olhos ao pensar na angústia dos contratados a prazo e na miséria de tantos desempregados. Sim, o planeamento familiar. No fundo, a cultura. E, embevecido, pensou no Ministro Lucas Pires.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: A AD, ou seja, a CIP e o seu governo têm como objectivo descarregar a crise do sistema para cima dos trabalhadores, enquanto os querem convencer de que ela existe por sua própria culpa.
Para isso, a revisão do Regimento, a revisão da Constituição, a divisão dos trabalhadores, os contratos a prazo "melhorados", a inflação, a liquidação da Reforma Agrária, do Fundo de Fomento da Habitação, os prémios de assiduidade e produtividade, os escalões, a liberalização dos despedimentos.
Mas os trabalhadores viveram o 25 de Abril, o 28 de Setembro e o 11 de Março. O controle de gestão e a unidade sindical. Viveram o 25 de Novembro e vivem a degradação do nível de vida, a repressão nas empresas. E a divisão sindical. As horas imensas nos transportes e o amontoar em partes de casas ou em barracas. A falta de escolas, os acidentes de trabalho e a falta de saúde e de cuidados médicos. E sabem que isso tem do outro lado da moeda os ricos estarem cada vez mais ricos. Vão percebendo que a inflação é consequência dos lucros dos capitalistas. Que a repressão e a divisão dos trabalhadores se destina a aumentar esses lucros, ou seja, a baixar o nível de vida de quem trabalha. Que a produtividade e os ritmos de produção diminuem as suas condições de vida.
E também vão percebendo que o aumento da produção e dos rendimentos nacionais não conduzem à elevação do nível de vida dos trabalhadores, mas, pelo contrário, aumentam a riqueza da classe dos capitalistas e o seu consumo parasitário. Na mesma medida em que aumenta o cansaço físico, as nevroses, os acidentes, os traumas psíquicos, as doenças cardíacas e profissionais dos operários.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Os trabalhadores da Mocar estão em greve ilimitada, coroando um processo de luta que teve o seu início há cerca de um ano.
Está luta, exemplar pela sua firmeza, unidade e radicalização, denota elevada consciência de classe por parte dos trabalhadores e destina-se a impor a negociação e aplicação do caderno reivindicativo entregue em Outubro de 1980, abrangendo reivindicações de carácter pecuniário, social e de higiene e