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21 DE ABRIL DE 1982 3191

tentar a breve trecho a sua recuperação, perder-se-á irremediavelmente, desfalcando-se o património nacional de uma insubstituível jóia arquitectónica de alto valor histórico-cultural.
Foi fundado no primeiro quartel do século XII, tendo sofrido ao longo do tempo diversas reformas. A partir da extinção do Mosteiro pela revolução liberal, a voragem do tempo e o desmazelo e abandono a que foi votado transformaram aquele majestoso edifício num gigante inerte, à espera que lhe arranquem mais um azulejo e lhe roubem mais uma peça da sua cantaria.
A igreja, construída em estilo românico, conserva, além de l imponente altar-mor, mais 4 colaterais, decorados com pintura e imaginária da mesma época. Nos lindíssimos passais do Mosteiro, o aqueduto de granito que atravessa o velho caminho medieval recorda épocas de riqueza material e espiritual, construída lentamente pelo trabalho perseverante dos monges e pela força telúrica que animou as comunidades que habitaram os contrafortes da serra da Freita. O pórtico, de cantaria almofadada, rematado por uma carteia, com as armas reais entre 2 elegantes fogaréus de estilo rococó, é o dedo acusador de um património nacional posto ao abandono pela ignorância e desmazelo de sucessivos responsáveis pela gestão do património nacional de há mais de um século para cá.
Se um incêndio destruiu tudo o que restava da alma desse Mosteiro, constituída pelo seu cartório, consumando o autêntico exílio em que se traduziu a sua transferência para a cidade de Viseu, a continuação do estado de degradação que se verifica certamente acabará por apagar o testemunho físico de uma comunidade inteira que animou a região de Lafões durante centenas de anos e que é parte essencial da herança histórica da Beira-Vouga.
João Cinta, o fundador do Convento, foi um esforçado cavaleiro do conde D. Henrique que, após longos anos de soldado do mundo, se converteu à milícia de Cristo, seguindo o áspero caminho da penitência. Alexandre Herculano refere-se a esse santo abade, ligando o Convento de São Cristóvão de Lafões ao cerne de toda a sua vida. «Limpa a região do jugo inimigo e pacificada a cristandade, deparou Cirita, com agradável surpresa, que alguns velhos e venerandos eremitas junto de uma pobre ermida rezavam e trabalhavam os campos de um planalto junto do rio Vouga.» Cirita juntou-se a eles e reedificou aquele austero cenóbio de frades crúzios prestes a extinguir-se, vivificando aquela comunidade com a sua acção e experiência de antigo chefe castrense, construindo e sedimentando, desse modo, o substrato cultural e religioso do Mosteiro.
Várias vezes o seu companheiro de armas, o conde D. Henrique, o visitou naquele lugar e, posteriormente, D. Afonso Henriques lá esteve por duas vezes, na ida e no regresso da reconquista de Trancoso.
A pedido do velho cabo de guerra, e enquanto o arquitecto Froilano esboçava o projecto do que viria a ser o mais antigo convento de Cister, por ordem do primeiro monarca português foram abertos os alicerces da igreja do Mosteiro e atribuídas as rendas necessárias ao prosseguimento das obras de São Cristóvão de Lafões. Seria esta a primeira fase da concretização do sonho de João Cirita. Mais tarde o rei fundador concedeu a respectiva carta de couto e D. João Peculiar ordenou a sua sagração em 1138.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: É esta obra monumental que hoje se vai perdendo perante a indiferença de uma sociedade que se diz defensora do património cultural. As populações da terra natal de António Correia de Oliveira esperam que as velhas ruínas, onde apenas cantam os rouxinóis, sejam objecto da atenção dos responsáveis e que o velho Mosteiro seja, depois de restaurado, integrado na vida cultural daquela região, impedindo-se desse modo a lamentável destruição do Mosteiro de São Cristóvão de Lafões.

Aplausos do PPM, do PSD e do CDS.

O Sr. Presidentes - Tem a palavra o Sr. Deputado José Niza.

O Sr. José Niza (PS): - Sr. Presidente, há pouco inscrevi-me para interpelar o Sr. Deputado José Manuel Mendes no sentido de me congratular com a intervenção que produziu, subscrevendo-a totalmente e em toda a linha. Dado que não o posso fazer no prolongamento do período de antes da ordem do dia, farei uma breve intervenção.
Efectivamente, o Sr. Deputado José Manuel Mendes chamou a atenção do parlamento para uma questão importante da vida cultural portuguesa, que até ao momento não teve qualquer resolução por parte do Ministério da Cultura.
O Sr. Deputado sublinhou -e concordo totalmente- que depois de termos aqui ouvido no parlamento belos discursos e apreciado um extenso programa cultural do Dr. Lucas Pires, na realidade, toda a prática que se tem seguido não tem confirmado a expectativa inicial, sabendo nós que, inclusivamente, o orçamento do Ministério da Cultura foi reforçado em relação a orçamentos anteriores.
A questão do teatro é uma questão aguda da cultura portuguesa do momento e, mais do que aguda, diria mesmo que é dramática. Os grupos de teatro que melhor teatro produzem em Portugal estão neste momento a ser ameaçados na sua estabilidade, enquanto organismos de teatro, e quanto à sua futura sobrevivência, a propósito de expedientes de estilo logístico, como sejam, no caso de A Barraca, a ocupação do espaço que utiliza por parte do Banco Nacional Ultramarino, a questão que se põe em relação à Casa da Comédia e em relação à companhia do Teatro do S. Luis, para a qual não se encontra nenhuma solução, ...

O Sr. José Manuel Mendes (PCP): - Muito bem!

O Orador: - ... que foi destruída sem que se saiba porquê, colocando dezenas de alguns dos nossos melhores actores e actrizes de teatro, praticamente, numa situação de hibernação cultural. Tudo isto é preocupante para os Portugueses, e não só para a oposição, mas para as pessoas que têm um mínimo de preocupações culturais.
Em contraponto com tudo isto, a Televisão entendeu fazer uma festa - diria que foi a festa da administração da Televisão -, mas que não foi a festa da RTP.

Vozes do PS e do PCP: - Muito bem!

O Orador: - Nem sequer foi a festa dos seus 25 anos, foi a festa dos primeiros 17 anos de televisão em Portugal, porque os últimos 8 anos não foram por ela cobertos. Espero que haja ainda condições neste país para que estes últimos 8 anos possam ser comemorados de outra maneira em momento oportuno.

Aplausos do PS, do PCP, da ASDI, da UEDS e do MDP/CDE.