I SÉRIE — NÚMERO 30
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O Sr. Jorge Duarte Costa (BE): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Gostaria de começar por saudar
o PCP e o PSD pelas iniciativas que agendaram para a sessão de hoje. Trata-se de um tema oportuno, por duas
razões.
Em primeiro lugar, este tema permite-nos fazer um balanço sobre o aumento do salário mínimo nacional para
530 €, ocorrido há um ano. Nessa altura, bem ouvimos as profecias da direita, do patronato e, até, da Comissão
Europeia sobre as desgraças que se abateriam sobre Portugal, sobre o trabalho em Portugal, sobre o emprego
em Portugal, sobre o investimento em Portugal. E nada disso se confirmou nos números e nada disso se
confirmou na realidade. O que temos é um dos principais elementos da recuperação de rendimentos, que faz
parte da essência dos acordos celebrados entre os partidos que deram origem à atual maioria parlamentar.
O tema é também oportuno, em segundo lugar, porque permite a reafirmação da posição pública das várias
formações políticas aqui representadas relativamente a esta questão. O salário mínimo português, que continua
abaixo dos 600 €, mesmo que fosse aumentado para esse valor, estaria ainda abaixo dos valores já hoje
praticados em países como a Espanha ou até a Grécia. Estamos, portanto, a falar de um elemento de injustiça
profunda, de um atraso estrutural na economia portuguesa e de uma das raízes da desigualdade de rendimentos
gritante que já foi sublinhada na intervenção da Sr.ª Deputada Rita Rato.
É, portanto, justo — e seria possível — a atualização, agora, do salário mínimo nacional para 600 €. É essa
a posição do Bloco de Esquerda, e por isso acompanhamos o projeto de resolução que aqui apresenta o PCP.
Infelizmente, desde o momento em que se iniciaram as negociações entre os vários partidos, há um ano,
ficou claro que as condições políticas para a atualização imediata para os 600 € não estão reunidas. Foi nesse
quadro que o Bloco de Esquerda quis retomar, digamos, a experiência de 2006, em que a CGTP, que defendia
o aumento do salário mínimo para 500 €, negociou com o Governo e assinou o aumento faseado do salário
mínimo, entre 2007 e 2011, dos, então, 385 € para os 500 €.
Também aqui, sem nunca desistir, como nunca desistiu a CGTP da atualização do salário mínimo para os
500 €, o Bloco de Esquerda veio procurar garantir que os salários dos trabalhadores não ficariam abaixo de um
determinado nível de atualização. Não perdemos a oportunidade de garantir um ritmo de atualizações que
permitisse repor alguma justiça na situação do salário mínimo em Portugal. Isso deu origem a meses de
campanha contra o salário mínimo, desde a Comissão Europeia a bramir pela competitividade das empresas e
do País até ao patronato a chorar pelo esvaziamento da concertação social, e que, afinal, só devia servir para
deixar tudo como está ou para fazer aumentos simbólicos como aqueles a que nos habituámos anteriormente,
ou até à proposta da UGT, que deve ser mesmo a única central sindical do mundo que propõe uma atualização
do salário mínimo abaixo da proposta do Governo!
É neste contexto de grande adversidade, de grande campanha contra a atualização do salário mínimo que o
acordo que o Bloco de Esquerda assinou com o Partido Socialista se tornou na melhor garantia, da qual nos
orgulhamos, de que o salário mínimo vai mesmo ter em janeiro de 2017 uma atualização para 557 €.
Aplausos do BE.
Essa atualização salarial atinge um em cada cinco trabalhadores portugueses. Em cada novo contrato que
foi assinado em 2016, mais de um terço, ou seja, 35% dos novos contratos correspondem a este nível de
remuneração. É, portanto, desta dignidade essencial do trabalho, desta necessidade de atualização e de fazer
justiça a quem trabalha que hoje se trata.
Resolver o atraso português no salário mínimo é um problema urgente e nenhuma estratégia de médio prazo
pode servir de pretexto hipócrita para manter a iniquidade e a injustiça.
Está na hora de fazer justiça a quem trabalha, está na hora de atualizar o salário mínimo nacional.
Aplausos do BE.
A Sr.ª Presidente (Teresa Caeiro): — Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado José Luís
Ferreira, em nome do Grupo Parlamentar de Os Verdes.