O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

598

DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

reconhece, e que toda a gente vae reconhecendo, e que por muito tempo foi posta em duvida.

Estou convencido de que esta linha ha de ser a de maior receita kilometrica do nosso paiz, que ella ha de attingir proporções muito vantajosas para o thesouro, e para isso não será necessario que ella vá ligar com a rede de Hespanha. (Apoiados.)

E direi ao sr. visconde de Moreira de Rey, que concordo com a apreciação que s. ex.ª fez.

O caminho de ferro do Douro, ligado com o caminho de ferro hespanhol até Salamanca, ha de ter um trajecto obrigado para uma grande parte do movimento que das provincias do norte se deve effectuar para o interior da Europa.

Digo mais: aquella linha está destinada a ser a linha de ligação das provincias do norte de Hespanha, que constituem o antigo reino da Galliza, as provincias do sul d'aquelle paiz e todas aquellas cuja exploração prende com o centro de Madrid, ou mais um pouco para o norte, com o importante ponto de Medina del Campo.

Demais, a linha do Douro tem condições de ser linha de mercadorias de uma vastissima região de Hespanha, porque essa linha fica em condições de menor percurso em relação a qualquer linha de Hespanha, ainda mesmo em relação á linha de Alar a Santander, a, que ha pouco me referi, cujo custo kilometrico foi de 136:000$000 réis.

Alem d'isso a linha do Douro offerece para toda a provincia de Salamanca uma reducção de percurso de 100 kilometros em relação á Beira Alta.

Não se entenda que por esta fórma pretendo de modo algum amesquinhar o futuro da linha da Beira Alta; porque esta linha considerada nacional, já tem bastante importancia; corre cento e tantos kilometros em terreno em que ha producção considerabilissima e a população é muito densa.

Ha de ter grande movimento de passageiros e mercadorias, e já se póde antecipar que nas suas relações com a Hespanha, e principalmente com o centro da Europa, tem uma importancia, não digo que esteja acima de toda a discussão, não quero desconsiderar a opinião de ninguem, mas para mim intuitiva.

Eu insisto n'este ponto que já muitas vezes tenho indicado.

Mas a linha da Beira Alta, considerada só que fosse como linha nacional, havia de ter um movimento de passageiros muitissimo importante; e para isto não ha senão a apresentar as condições de analogia.

V. ex.ª sabe perfeitamente que a media da população nos tres districtos interessados directamente na linha da Beira Alta, quer dizer, de Coimbra, de Vizeu e da Guarda, passa de 60 habitantes por kilometro quadrado.

Ora, se s. ex.ªs forem comparar esta característica, este coefficiente da densidade da população com a densidade da população e movimento de passageiros nas regiões do paiz já atravessadas por caminhos de ferro, hão de ver que tudo leva a fazer-nos esperar com todo o fundamento que o numero de passageiros n'aquella linha ha de ser, pelo menos, de 3:000 por kilometro; e já s. ex.ªs vêem que isso devo dar para os 200 kilometros da linha um movimento total de 600:000 passageiros.

Isto serve para dizer que a linha ferrea da Beira Alta, alem de ter as condições de uma linha verdadeiramente nacional, alem de todas as rasões de conveniencia interna, que, como se vê, são evidentes, tem a rasão suprema de não poder deixar de ser considerada uma linha internacional, e direi mais ainda, uma linha continental. (Apoiados.)

Peço desculpa á camara de me ter alargado mais do que contava sobre este assumpto, e, resumindo, direi que a construcção do caminho de ferro da Beira Alta não prejudica de modo algum a continuação do caminho de ferro do Douro, desde o momento em que as cousas estiverem preparadas para que essa construcção possa ter logar.

Isto suppõe a elaboração e a approvação, já se vê, dos projectos e orçamentos d'aquella linha, e eu calculo que durante um anno se poderão concluir os projectos definitivos até á Barca á Alva. Por parte de Hespanha é provavel, e até muito provavel, que o governo procurará dar todo o andamento aos estudos da sua linha que vem ligar-se com a nossa n'aquelle ponto.

Não sei se o sr. visconde de Moreira de Rey ficará satisfeito com estas explicações; mas, em todo o caso, nas circumstancias actuaes, não posso dar-lhe outras.

Peço licença para, antes de concluir, me referir á proposta apresentada pelo sr. Telles de Vasconcellos, para que n'este artigo se declarem como pontos forçados da directriz Celorico e as proximidades da Guarda.

Devo dizer a s. ex.ª, que me parece perfeitamente dispensavel, e até ociosa, esta declaração, e isto por uma rasão muito simples; é porque ninguem, nem engenheiro, nem outra qualquer pessoa, poz ainda em duvida que Celorico devesse ser ponto forçado da directriz do caminho de ferro da Beira Alta.

O sr. Sousa Brandão fez um estudo pela margem esquerda, e a directriz lá ía ter a Celorico; fez o estudo pela margem direita, e lá foi passar. Depois o sr. Cambelles fez outro estudo, e no traçado estudado por este engenheiro Celorico era um ponto forçado da linha; ultimamente o sr. engenheiro Eça, melhorando o traçado do sr. Sousa Brandão, da mesma maneira fazia passar a linha em Celorico.

A linha effectivamente não póde deixar de passar n'este ponto, assim como não póde deixar de passar na Portella da Villa das Naves; são condições fataes do terreno, e por isso entendo que é perfeitamente escusado declarar na lei aquillo que a natureza decreta, e que ainda ninguem poz em duvida.

Peço, pois, ao meu amigo o sr. Telles de Vasconcellos, que me não julgue contrario á sua proposta, mas que me parece inutil inseril-a na lei, pelas rasões que acabo de expor.

Vozes: — Muito bem, muito bem.