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320-(4) DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 184

Quase são imperdoáveis hoje erros de visão no estudo de projectos agrícolas ou industriais em frente da abundância de instrumentos perscrutadores dos segredos da produtividade económica.
Em países como a África a vida do investigador é dura. Ele tem de trabalhar num meio hostil. Tudo parece contrariar o seu esforço inovador: as distâncias, a selva, a densidade da mata, o clima, as doenças, a própria magnitude dos problemas. Proceder ao estudo de esquemas da natureza do que se indica para o Zambeze, tendo em consideração as utilizações anunciadas - o domínio das cheias, a energia, a rega, a navegação-, requer um grande somatório de trabalho e experiência.
Em geral as nossas províncias , ultramarinas não estão organizadas no sentido de realizar obras de conjunto. Existem espalhados por diversos serviços especialistas competentes a trabalhar isoladamente, mas falta um órgão coordenador que possa ligar e orientar as tarefas dos vários departamentos. Sugeriu-se no texto o estudo desse órgão, que parece ser uma necessidade fundamental.
As tarefas a desempenhar por ele, tanto no campo agrícola como no industrial, são de grande magnitude e podem afectar profundamente a vida das duas grandes províncias de além-mar. São tarefas meritórias em que cada um poderá desempenhar um papel de primeira grandeza. Serviços dispersos, muitas vezes a dedicar a sua atenção a um problema e a interessar-se por uma única questão, num campo de actividade que poderia abarcar outras questões - e este caso surge especialmente em matéria agrícola e pecuária -, trazem naturalmente desperdícios, estudos incompletos, necessidades de repetições de trabalhos escusados. As tarefas são inglórias, perdem-se muitos esforços, não se obtêm os resultados que se ambicionam.
A investigação é hoje condição primordial do progresso. O exemplo, citado no texto, da gradual decadência das culturas de cacau em S. Tomé ilustra, se for preciso, os perigos do abandono tecnológico e científico de certos problemas africanos. De modo que, parece, há um longo caminho a percorrer nesta matéria: o caminho de estudar cuidadosamente cada projecto e cada iniciativa antes de os pôr em prática, fazendo intervir neles os melhores especialistas e usando de todos os possíveis elementos de informação e experiência no território interessado ou em territórios vizinhos de características semelhantes.
Este modo de proceder aplica-se a todos os projectos, quer se trate de comunicações, como estradas, pontes, caminhos de ferro, quer de obras de energia ou rega; quer diga respeito a explorações agrícolas ou pecuárias, quer ainda a tarefas de natureza industrial.

A prudência na escolha de obras para execução

10. Os estudos e as investigações são altamente reprodutivos em investimentos e em resultados futuros: da obra. E se este modo de proceder tivesse sido sempre aplicado como norma na metrópole e no ultramar, ter-se-iam evitado porventura dissipações de investimentos apreciáveis num meio onde eles não abundam.
A prudência na escolha de esquemas de natureza económica, assim como na oportunidade de os executar, é, pois, se está certo este movimento de ideias, uma das condições fundamentais do progresso ultramarino.
Nem em Angola nem em Moçambique se pode dar um surto económico com a presteza e magnitude que todos nós ambicionaríamos. Não se transformam de um dia para outro vastos territórios inexplorados, sujeitos a condições que demandam a inversão de grandes quantidades de capital e técnica apurada.
O progresso gradual e seguro é, porém, possível e deve ser realizado metodicamente, sem pressas, depois de estudo pormenorizado dos esquemas mais rendosos, daqueles que possam influir poderosamente em duas exigências fundamentais de cada província - o povoamento e a melhoria das suas balanças de comércio -, o que indirectamente se projectará na ascensão dos seus consumos e, portanto, do seu nível de vida.
A magnitude dos recursos potenciais, ou, antes, de esquemas de desenvolvimento de recursos potenciais, como, por exemplo, o do Zambeze ou o do Limpopo, com as modificações introduzidas neste parecer, não deve perturbar, por entusiasmos prematuros ou pessimismos doentios, os espíritos das pessoas que têm de resolver. A análise fria, imparcial, dos resultados e da sua influência no conjunto da economia leva sempre às melhores soluções, desde que ela compreenda todos os factores susceptíveis de as esclarecer.
Não há esquemas grandes nem esquemas pequenos. Todos eles cabem dentro de possibilidades actuais ou futuras e nenhum deles deve ser descurado. Protelar o seu exame redunda sempre em prejuízo, que se traduz muitas vezes na não existência de projectos convenientemente concebidos ou estudados, quando existem meios financeiros para os executar, como aconteceu no último plano de fomento.

As possibilidades do ultramar

11. Deu-se este ano no parecer das contas maior desenvolvimento às condições de vida de Moçambique, como no ano passado se dera às actividades de Angola.
A providência foi generosa para as duas grandes províncias do Atlântico e do Indico. Não foi avara nas benesses que distribuiu. Um e outra têm recursos económicos que lhes permitirão alcançar um dia grau de prosperidades que, sem exagero, poderá ser comparável ao de qualquer outro território africano.
Pouco a pouco vai desaparecendo da fantasia dos homens a ideia das incomensuráveis riquezas da África misteriosa. A medida que o continente negro abre aos exploradores os arcanos das suas potencialidades começa a vislumbrar-se o enorme trabalho e o ingente esforço necessário para as transformar em realidades económicas.
África, como continente inexplorado, contém em seu seio potencialidades suficientes para o progresso material dos seus actuais habitantes e o suplemento de matérias-primas e mais produtos indispensáveis a outros continentes. Mas não se julgue que essas potencialidades são fáceis de colher. A África precisa de espíritos agudos que estudem, compreendam e transformem os seus recursos potenciais em coisas tangíveis, prontas para consumo. Não é campo propício para o esforço de curiosos ou ociosos. Cérebros experimentados têm de meditar sobre os melhores métodos de exploração, sobre o caminho mais curto e eficiente para alcançar a posse de coisas inertes, de matéria bruta, que estão à vista.
Os problemas em África atingem às vezes a grandeza do colossal. Exactamente como as distâncias se medem pela centena de quilómetros, assim, em certos casos, a grandeza dos projectos se mede pela unidade do milhão.
De modo que a mentalidade dos que estão habituados a pensar em termos do quilómetro ou do milhar tem de adaptar-se a grandezas cem ou mil vezes maiores - a grandezas que visem à resolução ordenada e gradual de projectos que ultrapassam o alcance do pensamento quotidiano.

O caso do Zambeze

12. O caso do Zambeze, em Moçambique, descrito em apêndice, ilustra o que acaba de se escrever.