56-(76) DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 64
víncia a respeito das condições de vida e de trabalho da sua produção rural.
Não há, nas ilhas de Cabo Verde, lavoura em grande escala: a terra reparte-se pelo rendeiro, em regra meeiro, e pelo pequeno lavrador, que, à semelhança do que sucedi em limitas regiões metropolitanas, trabalha o campo com auxílio quase exclusivo da própria família.
A técnica aurícula utilizada pelo lavrador cabo-verdiano mantém-se sem alteração através dos tempos; usa como única alfaia uma enxada de cabo curto, que o obriga a curvar-se para cavar; semeio, nos terrenos de regadio, em regos que formam pequenos canteiros e, nos de sequeiro, em covachos separados por espaços de cerca de meio metro.
Aliás, a orografia das ilhas explica em grande parte estas práticas primitivas. Os terrenos oráveis são quase todos situados em encostas íngremes, que não permitem a charrua e menos ainda a mecanização - a qual, aliás, está fora das posses e da ideia dessa gente pobre e simples. Para evitar a erosão e para reler terra com profundidade suficiente para permitir o seu aproveitamento agrícola, os terrenos são preparados em socalcos, por vezes de alias paredes e de construção tão lenta e cara que só o recurso de uma mão-de-obra muito barata pode justificar.
Por outro lado, a excessiva pulverização da propriedade e a falta de estradas agravam ainda mais este quadro.
Por morte do pai, os filhos dividem entre si a propriedade deixada: se por acaso herdaram quatro pequenas propriedades, dividem cada uma das quatro em tantas parcelas quantos os herdeiros. Isto dá como resultado que, ao fim de algumas gerações, o lavrador, fica dono de algumas dezenas de pequeníssimas propriedades muito afastadas umas das outras e, como não as pode cultivar todas, entrega-as a meeiros, que as tratam como sabem e podem. Como nunca são adubadas nem fertilizadas, as terras esgotam-se em breves anos.
Em consequência, o meeiro mal tira para o seu sustento, e o pouco que entrega ao proprietário não dá a este nenhum desafogo. E como, portanto, é má, a situação económico do lavrador, os salários são baixíssimos.
Poucos procuram boas e rendosas colheitas; quase todos só contentam com o que se alcança com o menor esforço.
Muitas vezes o milho, o feijão, o batata doce e a mandioca semeiam-se ou plantam-se em terrenos crus, reduzindo-se o trabalho de lavoura, geralmente, a abrir covachos ou a amontoar terras onde se lançam sementes ou enterram plantas. Os granjeios não vão além do arranque dos maiores ervas espontâneas. Poucas são as sachas, amontoas ou adubações.
O Governo possui belos reprodutores animais, cavalos, bovinos, suínos, asininos e dá assistência quase gratuita, a todos os que lha solicitem. Mas o camponês raras vezes se aproveita destas e outras vantagens.
As árvores de fruto ou quaisquer outros não são tratadas: plantam-se e crescem à margem de todos os cuidados.
Todavia, louvàvelmente, o Estado procura impulsionar a cultura, criando viveiros onde os agricultores ilhéus podarão ir buscar as plantas de que necessitam. Mas o longo tempo necessário para que as novas plantações comecem a produzir desanima o pequeno proprietário, que prefere a batata doce, o feijão ou o milho, de resultados anuais muito contingentes.
Nestas condições, é, portanto, lógico que, quando os anos agrícolas são maus, mal se colha para viver e, quando são bons, afora a semente e a reserva para consumo próprio, as necessidades do agregado familiar obriguem a uma imediata venda.
E como, em geral, com a abundância das colheitas os preços decaem, a situação do agricultor não sofre alteração: é sempre difícil.
Por sua vez, a indústria tem também em Cabo Verde uma muito restrita importância. Para exportação o arquipélago produz apenas umas poucas centenas de toneladas de conservas de atum em azeite e salmoura e sal.
Paro satisfazer o mercado interno dispõe de pequenas unidades fabris de produtos de consumo comum, tais como bolachas, tabaco e sabão.
Todavia, a pesca não tem aquele relevo que parecia ser de esperar, dada a natureza insular da província. Em regra, é feita em pequenas embarcações que não podem fazer-se ao mar alto, já pelo seu diminuto porte, já pelos escassos conhecimentos das suas tripulações, e raras são até as embarcações que podem afastar-se para fora das águas territoriais das ilhas.
Contudo, em l955, uma empresa de pesca da ilha de S. Nicolau adquiriu, ao que sabemos, na metrópole, um barco a motor provido de sonda eléctrica, o que pode representar a primeiro tentativo para a prática da pesco no arquipélago com uma técnica moderna.
A indústria salineira «cloreto de sódio», como se diz no quadro referente às principais mercadorias exportadas), cujas exportações nos últimos anos acusaram uma sensível regressão, revelou em 1956 uma certa melhoria, que se acentuou em l957, por virtude, principalmente, de mais elevadas vendas para o Congo Belga.
A Companhia do Fomento de Cabo Verde e a Salimes du Cap-Vert são as únicas empresas do província que, no ilha do Sal, se dedicam o esta indústria.
A primeira possui um grande número de salinos em Santo Maria e dispõe para o exercício da sua actividade, além de uma ponte-cais, de uma grande oficina geral, que lhe confere uma capa cidade de produção que ronda as 20 000 t anuais, possuindo salinas que lhe permitiriam uma produção de 35 000 t se dispusesse de mercados o de mão-de-obra.
Paralelamente, a outra companhia tem instalações moderníssimas, com capacidade de produção de 35 000 t, explorando também um jazigo de rochas doloenitricas.
Eis quanto se pode dizer das duas principais indústrias da província: a pesca e o sol.
Segundo estudos ùltimamente feitos, a cana sacarina poderia ser cultivado em largo escala, a fim de dela se extraírem os produtos seus derivados, tais como o açúcar, aguardente, etc... o que viria o ter uma grande importância na economia da província, pois está provado que a aguardente de Cabo Verde, quando bem preparado, é justamente apreciada pelos estrangeiros, omgreando, no dizer dos mesmos, com o famoso rum da Jamaica.
289. Eis, portanto, um produto que, quando for devidamente regulamentada e organizada a sua produção em escalo industrial, com um apetrechamento conveniente das fábricas e adequada fiscalização, poderá, pelas suas altos qualidades, vir a conquistar forno mundial, com o consequente exportação compensadora.
A cultura do cano sacarino poderia ainda servir de base a uma industria açucareiro estruturada em moldes semelhantes aos do Brasil: fabriquetas, pequenas e rudimentares, poderiam talvez ser instaladas nos centros de produção da cana, onde seria trapichada. Os melaços seriam posteriormente canonizados para uma fábrica central, onde se produziria açúcar.