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19 DE SETEMBRO DE 1981 4223

à maioria que vote outra vez e desta por mais algum tempo se possível a confiança no seu governo.
Mas, Sr. Primeiro-Ministro, Srs. Deputados, nem cá dentro, mas sobretudo lá fora na rua ninguém acredita neste cerimonial-farsa a que a AD obriga o País a assistir.
Com a moção de confiança ou sem moção, o governo de Pinto Balsemão/Freitas do Amaral terá a curto prazo o caminho do anterior. Esta moção amarrará tanto os deputados ao Governo como a anterior. Se isso fosse com moções de confiança não estaríamos já no VIII Governo após a aprovação da Constituição. No debate da moção de confiança anterior, dizia um dos mais proeminentes críticos deputado do PSD: "Afirmamos a nossa confiança a um governo de legislatura, cujo prazo de acção é de quatro anos [...] O tempo de instabilidade governativa, das incertezas constantes, dos governos que caíam uns após os outros, cessou", e mais adiante dizia ainda o seguinte: "Sabemos pôr os interesses nacionais acima
das questões do partido, sabemos pôr os problemas do País acima das nossas posições de partido."
Palavras não eram ditas, foi o que se viu!
O Ministro Freitas do Amaral, que aqui afirmou anteontem pretender ser o eco do Sr. Balsemão ao dizer (cito): "eu; direi exactamente o mesmo que o Sr. Primeiro-Ministro", há um mês, mais concretamente a 6 de Agosto abandonava-o e punha uma pedra para a sua queda numa palestra televisiva.
Diga-se entre parêntesis que o Ministro Freitas do Amaral instituiu um novo hábito na vida portuguesa. Afirmação e compromisso que tome pomposamente perante o País é certo e sabido que mais mês menos mês se transforma no seu contrário. Todos nos lembramos certamente de como anunciou o Verão calmo em 78, menos de um mês antes de dar a punhalada fatal nas costas do seu governo com o PS, a quem agora acena com um acordo de regime. Todos nos lembramos que há meses dizia enfaticamente que não iria mais para ministro se o Presidente Eanes ganhasse as eleições!
Mas também, em matéria de piruetas o Prof. Amaral tem rivais na AD. Quantos dos que votaram a moção de confiança do governo Balsemão vieram a considerar e a dizer publicamente que o Primeiro-Ministro era incompetente, e que não tinha boa imagem ou espírito de liderança?
Intriga, maledicência, a que assistiram espantados e revoltados os Portugueses num desfiar que faria corar D. Lurdes Mesquita da Água Viva. A moção é em 2.° lugar uma peça no processo de clientelismo.
Se esta situação se deve antes do mais ao profundo fosso que separa as aspirações e sentido do povo - deste Governo - há também, e é importante dizê-lo para que não surjam denegridas as instituições democráticas e a democracia aos olhos dos cidadãos, há também, inegáveis actuações de muitos que dão o triste espectáculo de se servirem dos cargos políticos para a sua promoção pessoal, de usarem os cargos para que são eleitos para se servirem a si e não para servirem o povo. O Estatuto do Deputado da AD foi apenas a gota que deitou por fora a crescente indignação popular. E com isso o Sr. Primeiro-Ministro ainda tem o despudor de insistir, e de renovar insolentemente o insulto que lança sobre os trabalhadores ao chamar-lhes parasitas e misturá-los com marginais e intermediários.

O Sr. Manuel Moreira (PSD): - Onde isso já vai!...

A Oradora: - Mas quem são os parasitas? Relembro a formação do seu governo, que revelou um tropel infindável de clientelas, de despeitos, de ambições galopantes.
Os atritos, incómodos e divisões gastaram quilos de papel e tinta. Entre os colunistas da AD chorou-se o despedimento deste ou daquele governante, apadrinhou-se e promoveu-se àquele outro, estranhou-se a bizarra estrutura governamental, ponderou-se a monumentalidade balofa de certos ministérios. Um editorialista, que, por acaso, não entrou agora no Governo, chegou mesmo a resmungar da possibilidade de um futuro governo sem Balsemão.
Já aqui, agora, durante o debate, vimos ex-ministros sair da Sala para não terem o incómodo de ouvir os seus sucessores.

Vozes do PCP: - Muito bem!

A Oradora: - É que neste debate ninguém ousou apadrinhar com orgulho a herança do governo Balsemão defunto. Procura-se criar um ar de novidade. Mas há novidades?
É verdade, que o MEC mudou para MEU, que o Sr. Deputado Vitorino, que estava no Algarve, está agora na emigração, enquanto o Sr. Deputado Nandim de Carvalho, que estava na emigração, está agora no turismo. E é verdade que o Sr. Carlos Macedo se retirou da saúde, logo recuperada pelo ex-Ministro da Habitação.
Finalmente, o Sr. Cavaco Silva continua à espera, em casa, e é provável que nos próximos dias não volte a reunir-se com o Dr. Freitas do Amaral e Eurico de Melo na sede do Conselho Nacional do Plano.

O Sr. Jerónimo de Sousa (PCP): - Que grande bronca!

A Oradora? - Eis o que mudou. A política, essa, é a mesma.
Esta moção é, em terceiro lugar um acto de maquilhagem de acção governativa da AD.

O Sr. Jerónimo de Sousa (PCP): - Muito bem!

A Oradora: - Revela-o bem o comportamento das bancadas governamentais durante o debate deste programa de saldo de fim de estação. Que enorme falta de convicção! Que lições mal estudadas e pior debitadas! Quando se tratou de prometer, foi de novo um lodaçal vergonhoso de pseudoprojectos que nunca serão realizações. Quando se tratou de ameaçar foram as tiradas boçais e arrogantes dirigidas aos que trabalham e lutam contra este governo patronal, prepotente e repressivo.

Vozes do PCP: - Muito bem!

A Oradora: - Esta moção de confiança não surtirá mais efeito que a anterior, porque a questão não é de moções. O problema está em não haver uma cor-