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74 I SÉRIE -NÚMERO 3

Acontece, Sr. Presidente e Srs. Deputados, que a AD se mostra incapaz de resolver as suas contradições internas, incapaz de satisfazer os interesses contraditórios de uma base social de apoio heterogénea. A AD mergulha boa parte das suas raízes na incapacidade ancestral da burguesia portuguesa para aceitar, em plenitude, as regras da democracia representativa. Por outro lado, e como já foi dito aqui pelos meus camaradas Lopes Cardoso e António Vitorino, a esquerda não tem afirmado uma alternativa credível a opor à AD.
O povo português poderá encontrar-se, por tudo isto, espartilhado entre uma AD que perde terreno e que não gera segurança, nem estabilidade, nem tranquilidade e a ausência de concretização de uma alternativa animada por um projecto, radicalmente distinto do da AD e dos seus partidos! As condições para o surgir de homens providenciais e os apelos aos salvadores da Pátria só. poderão nascer se esse espartilho se mantiver numa estrutura social e cultural que sempre potenciou o sebastianismo.
E a responsabilidade de uma tal situação que lentamente se poderá vir a construir residirá inteiramente nos que são incapazes de criar uma alternativa à actual maioria no Poder, não apenas adequada à sociedade que somos, mas que represente também a coragem da renovação e a .criatividade de propostas que dêem resposta ao descontentamento colectivo.
Não faltarão então, por certo, os: candidatos a Gomes da Costa e Cabeçadas, os aprendizes de Carmona e Salazar, embora sejam diferentes os métodos, os instrumentos e os conteúdos daqueles que triunfaram entre 1919 e 1933.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: É na exacta medida em que as práticas políticas não são transparentes, e por isso não são democráticas, é na medida em que se aprofunde o divórcio entre as instituições e o povo que as legitima, é na medida em que seja mais claro o espartilho que atrás referi que poderão medrar as condições que impelem aos salvadores,, aos messias, aos homens providenciais. Disse alguém que quando a história se repete ou é uma farsa ou uma tragédia. O espectro do fracasso da I República aí está avivando-nos a memória; lembrando-nos que seremos nós, e sobretudo a esquerda desta Câmara, os principais responsáveis de, em tempo útil, não sabermos encontrar os antídotos eficazes às ameaças que nos pesam sobre os ombros.
A UEDS não considera dramática a situação e pensamos dever combater-se a criação de um clima alarmista que nos impedirá de ver claro. ' ...
Ficou já demonstrado que é possível opor uma barreira à bipolarização político-partidária, que só reforçará as situações espartilhamos. Ficou também demonstrado que foi possível unir todas as forças que se reclamam do socialismo democrático sob a mesma bandeira e num projecto comum, que, lamentavelmente, não pode desenvolver-se: O exemplo da França, e. o recente triunfo do PASOK na Grécia demonstram, que é possível uma alternativa à directa, mas demonstram também que ela só pode afirmar-se quando for uma alternativa socialista democrática construída com persistência e sem concessões às forcas conservadoras.
Hoje importa termos a coragem de reflectir colectiva e democraticamente sobre os nossos próprios erros, não para ludicamente desenterrar fantasmas ou ressuscitar ideias e siglas, mas para sabermos edificar com segurança, coragem e determinação uma alternativa democrática e socialista a este governo- e a esta maioria.
Discutiremos todas as soluções porque sabemos, sobretudo, que a «culpa não é sempre dos outros».
Recusar-nos-emos, no entanto, a optar entre escolhas impossíveis: entre a permanência de uma crise de que serão responsáveis os que não souberem ou quiserem sair dela e um messianismo) que só poderá nascer e crescer da incapacidade das forças, democráticas.
A esperança que nos anima é, no essencial, uma aposta na coragem, na capacidade e na determinação de todos os socialistas e de todos os democratas, sem excepções.

Aplausos da UEDS, do ASDI e de alguns deputados do PS.

O Sr. Presidente: - Para pedir esclarecimentos tem a palavra o Sr. Deputado Sousa Tavares. Dispõe de 3 minutos.

O Sr. Sousa Tavares (PSD):-Sr. Deputado César de Oliveira, como sempre, ouvi comi o maior interesse as suas palavras, que me deixaram uma dúvida. Não sai se elas eram dirigidas ao conjunto desta Câmara, ao conjunto dos democratas ou simplesmente a um determinado sector da opinião a que o Sn Deputado pertence? Quer dizer, pareceu-me mais uma declaração política para a oposição, ou para certa oposição, do que uma declaração política para o País inteiro.
Partindo o Sr. Deputado de uma base democrática, como afirmou, a primeira grande lei da democracia é a aceitação dos governos de que nós não gostamos.. A primeira grande lei da democracia é reconhecer a legitimidade de um governo, e que não é o exercício do poder desse governo :-legítimo pelo voto popular durante o tempo que as eleições marcaram para que ele exerça esse poder-1 que constitui perigo para a democracia. O perigo é a pretensão de se substituir esse poder da que se não gosta pôs outras vias que não sejam aquelas que a democracia indica. É isto que espero que o Sr. Deputado reconheça.
O Sr. Deputado apela a que se forme uma alternância para o poder AO. Quem me dera a mim quê essa alternância seja possível. Desejo-a com todo o coração, desejo como democrata firme que sou que exista neste País uma possibilidade de alternância ao poder democrático que agora existe.
Mas o que eu não quero de maneira nenhuma - e suponho que o Sr. Deputado também o não quer -é que, à força de dizer mal do governo legítimo que nos governa, se pretenda substituir esse governo através de processos que não são democráticos ou por tentativas messiânicas perfeitamente anunciadas no horizonte. Suponho que o Sr. Deputado também se refere a isto e suponho que neste ponto estará de acordo comigo.

O Sr. Presidente: -Tem a palavra o Sr. Deputado Silva Marques, também para pedir esclarecimentos.

Q Sr. Silva Marques (PSD): -Sr. Deputado César de Oliveira, disse V. Ex.ª que a actuação do Presi -,