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23 DE OUTUBRO DE 1981
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feticamente anunciado, então, obrem-se as portas do império do mais forte, daquele que, tomando nas mãos todos os fios das ideias e das vontades, se torna o "único homem", dono dos critérios e intérprete exclusivo dos valores.

Votes do PSD: - Muito bem!

O Orador: - É este o perigo imenso que todos nós, políticos, abordamos. Contra esse perigo nos defende - sem nos garantir - o pluralismo ideológico, ou melhor, o sistema dos partidos políticos, cada um deles votado a um programa que procura reconstituir, no plano dos factos políticos, a harmonia do pensamento que lhe serve de hipótese.
Confrontados uns com os outros, bom é que compreendamos que não é a linha que separa governantes de governados aquela que nos define e nos opõe. Todos nós estamos prometidos, e comprometidos, ao serviço de ideias ou valores. E, nesse serviço, todos nós, qualquer que seja a sigla que nos marque, aceitamos um pressuposto fundamental, o da existência da verdade abstracta.
Tão indiscutível é esse pressuposto que a própria afirmação lenineana "não há verdade abstracta; a verdade é sempre concreta" só não seria falsa se houvesse ao menos essa verdade abstracta.
Porque, Srs. Deputados, se é certo que Lenine não foi, na acepção científica do termo, um político totalitário, não é menos certo que o seu cepticismo, bebido nos vários agnosticismos de que se alimentou, tornou possível, ou fatal, o advento do império estaliniano, que teve como subproduto o império hitleriano - um e outro nascidos da substituição da verdade abstracta que, vista por olhos humanos, é a vontade divina, criadora do real, pela "verdade concreta" que é a vontade do chefe, do único intérprete da esfera dos valores.
No ponto de convergência do ideologismo com o "culto da personalidade", isto é, com o mais simplificado e extremo dos individualismos, não podia deixar de surgir o fenómeno terminal da política desaxada, da política sem cultura.
Por isso me parece da mais feliz actualidade esta conjuntura histórica. Ao renovar a tradição agostiniana, já um tanto esclerosada por mais de sete séculos, a Escola Franciscana, que Frei António de Lisboa iniciou por encargo de Francisco de Assis, veio dar à Idade Média o "suplemento de alma" de que estava carecida. E o amor à natureza, o serviço à "dama pobreza", a filial confiança em Deus como pai, a procura ansiosa de todos os irmãos - que caracterizam o franciscanismo e que, em boa parte, vamos reencontrar no grande sábio jesuíta do século XX que foi Teilhard de Chardin - tudo isso, ao mesmo tempo que constitui um perfeito acto de fé em "verdades abstractas", é o melhor dos enraizamentos do modo concreto de as viver.
Assim, o espírito franciscano - como entre nós ficou belamente demonstrado pelo descobridor dos descobrimentos que foi Jaime Cortesão - tornou possível a aventura portuguesa, deu-lhe sentido ou pelo menos contribuiu fortemente para lho marcar.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Perante os factos políticos de há seis ou sete anos, a cuja verdade integral a imprensa e as autoridades começaram final-

mente a abrir-se; perante a responsabilidade que parece recair sobre os ombros de alguns militares e de alguns estadistas, o PPM entende que o problema que se apresenta à consciência do povo português não se pode esgotar nas dimensões de um ou dois relatórios oficiais, por muito que o seu conhecimento seja indispensável, por muito que devamos recordar que foi o nosso partido que publicamente exigiu, durante o Verão de 1975, o inquérito militar de que veio a sair o chamado relatório riscado.

O Sr. Portugal da Silveira (PPM): - Muito bem!

O Orador: - O problema tem a ver com toda a dimensão histórica da Nação portuguesa desde que aceitou a vocação que deu início à história moderna e fez da humanidade definitivamente um todo.
Muito longe estaríamos da grandeza de tal vocação e de tal responsabilidade se nos entretivéssemos a esgravatar o terreno, ainda calcinado e coberto de cinzas humanas, para averiguarmos meia dúzia de nomes. O problema - como já foi dito, nesta sala, pela Sr.ª Deputada Natália Correia- é nacional, é de todos nós.

Uma voz do PSD: - Muito bem!

O Orador: - Se ainda há justiça militar, que ela processe e sancione. Mas é a filosofia da história que nos obriga a sofrer em comum o significado dos acontecimentos que resultaram de uma presença muitas vezes secular.
O caso de Timor, já exemplar antes do 25 de Abril, e antes mesmo do Acto Colonial de 1933, força a nossa capacidade de reflexão e análise, porque se trata de pessoas e comunidades que foram por nós arrancadas a um sono milenário - no entanto, não isento de valor cultural- e que, depois de mais de quatrocentos anos de proclamada irmandade, foram por nós abandonadas a desavenças que entre elas forjámos e a um poderoso inimigo cuja acção afinal desencadeámos.
Se o início da colonização e a sua continuidade no decurso de muito tempo foram um acto de amor, determinado por esse espírito de fraternidade que Cristo fez nascer, e S. Francisco - o alter Christus de que falam os biógrafos - renascer e operar, não podemos negar que o Estado Português não soube, ao longo de quase todo este século, desempenhar a missão de que se havia incumbido. Em vez de servir, proeurou ser servido. Em lugar de confirmar o movimento da história como convergência para o "ponto ómega", de que fala Teilhard de Chardin, quis - se verdadeiramente quis alguma coisa! - lançar um movimento de divergência: desirmanar, em vez de irmanar. Fê-lo, ou tentou-o com tanta ambiguidade que muitos portugueses de boa vontade continuaram a sacrificar-se até à morte por um ideal falseado, confiantes na clarividência de um ou dois chefes "providenciais". O resultado é o que se vê.
Sr. Presidente, Srs. Deputados,: Interessa relativamente pouco saber quem são os responsáveis, não digo da colonização, facto universal e de fecundidade e legitimidade indesmentíveis, desde que feita em certas condições e dentro de certos limites, mas sim do colonialismo e da chamada "descolonização", tal