18 DE MARÇO DE 2017
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no caso de um acidente nuclear. E, nessas jornadas parlamentares, apercebemo-nos claramente de que as
populações em geral não sabem o que fazer no caso de um acidente nuclear
O Sr. Presidente (Jorge Lacão): — Tem a palavra o Sr. Deputado Jorge Costa.
O Sr. Jorge Duarte Costa (BE): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: A central nuclear de Almaraz
devia ter fechado no ano de 2010, se os prazos de funcionamento previstos tivessem sido cumpridos.
Uma central nuclear, no seu funcionamento normal, é sempre um perigo, mas sete anos depois de terminado
este prazo, inicialmente previsto, os perigos não cessam de agravar-se, e, portanto, os incidentes, eles próprios,
sendo mais frequentes a cada ano que passa, impõem um plano de contingência, um plano de emergência para
responder no caso de um desses incidentes ser mais grave do que aqueles que têm sido.
A inexistência de qualquer espécie de plano de emergência, de resposta a um incidente deste tipo em
Portugal, por força de um acidente ocorrido em Espanha e que venha a ter impactos em Portugal, é o testemunho
mais eloquente da negligência com que o tema de Almaraz foi tratado ao longo dos anos e, em particular, ao
longo dos últimos sete anos em que a central já funciona para lá do seu prazo de vigência normal.
A existência deste risco é reconhecida pelas próprias instituições e autoridades de proteção civil, o problema
é que nada de concreto resulta dessa constatação, que é inscrita em relatórios e em documentos oficiais, mas
que não é consistentemente transformada em iniciativas concretas, em envolvimento das instituições locais, das
autarquias, em informação direta aos cidadãos, em simulacros, como foi referido pela Sr.ª Deputada Heloísa
Apolónia, e muito menos em medidas preventivas, como aquelas que são correntemente tomadas noutros
países, tais como a distribuição de pastilhas de iodo e de outros recursos à população das zonas que podem vir
a ser mais diretamente afetadas neste contexto.
Em vez de iniciativa rápida, temos tido alguns sinais errados e preocupantes no atual contexto.
Recentemente, as declarações do Sr. Secretário de Estado da Administração Interna, confundindo um plano de
emergência com um plano de evacuação e reduzindo a área a que deve corresponder um plano de emergência
aos 30 quilómetros, que são aqueles que, em geral, em caso de acidente nuclear são evacuados de imediato,
mostra que o debate está muito atrasado e que ainda há muito por fazer no que toca à preparação das medidas
nesta área. E não é por falta de alerta, diga-se em abono da verdade, porque a própria mobilização social, a
própria mobilização cívica sobre esta questão — basta lembrar a plataforma cívica Tejo Seguro que já instalou,
a suas expensas, através de uma iniciativa de crowdfunding, um sistema de sensores de monitorização de
radiação na zona do Tejo e na zona fronteiriça — mostram que a sociedade está organizada e reivindicativa,
nomeadamente nas zonas mais próximas da central nuclear de Almaraz.
Portanto, é necessário que sejam dados passos concretos não apenas na zona fronteiriça, não apenas na
zona mais próxima da central nuclear, pois temos de ter em conta a importância que tem o rio Tejo, que é onde
a central refrigera os seus reatores e que pode trazer a radiação e a contaminação para a capital do País, para
além do território que o rio Tejo percorre. Portanto, essa necessidade de intervenção é emergente e esperamos
que a iniciativa do Parlamento possa ser determinante para que se deem os passos que falta dar.
Aplausos do BE.
O Sr. Presidente (Jorge Lacão): — Tem a palavra o Sr. Deputado André Silva.
O Sr. André Silva (PAN): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Deixem-me que vos diga que, mais uma
vez, estamos perante uma verdade inconveniente, a de que existe um risco real enorme e mensurável causado
pelo funcionamento das centrais nucleares espanholas, especialmente as que se localizam perto da fronteira
portuguesa, como a central nuclear de Almaraz, que se encontra a meros 100 km, e a de Santa María de Garoña,
cujo prolongamento de vida está também previsto pelo Governo espanhol, em mais um incumprimento das
convenções internacionais e desrespeito para com Portugal. Incumprimento de Espanha a que o Governo
português ainda não reagiu como lhe compete e, por isso, apresentámos, na passada quarta-feira, o projeto de
resolução n.º 739/XIII (2.ª).
Ambas as centrais, a de Almaraz e a de Santa María de Garoña, estão obsoletas e ultrapassaram o seu
tempo de vida útil, ambas são uma ameaça iminente para todos nós, não fossem Fukushima e Chernobyl