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370 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 118

muito particularmente para emitirem o seu juízo em casos graves de medicina legal e perícia judiciária.
A verdade é que a reforma de Maio de 1911. que trouxe as linhas mestras da orientação ulterior, era inspirada fundamentalmente pela capacidade e inteligência de Júlio de Matos, o qual, aliás, não regateava justo elogio ao que já anteriormente se fizera quanto ao papel do médico nos tribunais.
De facto, foi nessa data que se leu um grande passo no desenvolvimento o estudo da psiquiatria em Portugal. Mas eu seria agora injusto se esquecesse a amplificação que essa tarefa, assim iniciada, viria a ter com várias iniciativas ulteriores, com os novos estabelecimentos e particularmente, com a organização de 1945.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Creio que perante o justificado queixume de Júlio de Matos, que, em 1908, dizia existirem, para muitos milhares de alienados, apenas pouco mais de 1500 internados, devo, como português e como homem de coração, assinalar hoje com prazer o facto de que, segundo as estatísticas de 1953, em vez de 1 500, já se internam neste país mais de 6000. Este facto é nobilitante para todos aqueles que têm dado a tais iniciativas, a este problema transcendente e doloroso, a sua acção e o seu interesse dedicado.
É interessante também verificar que além da utensilagem terapêutica de que hoje se dispõe, também a investigação cientifica na matéria tem progredido entre nós.
Ainda há poucos dias falei na neurocirurgia neste mesmo lugar, a propósito do falecimento do Prot. Egas Moniz. Mas a tarefa não se confina, felizmente, aos territórios metropolitanos, através dos seus dezassete ou dezoito estabelecimentos actuais de tratamento de alienados estende-se também ao ultramar.
Ainda há poucas semanas tive o prazer de visitar em Luanda os serviços psiquiátricos respectivos, admiravelmente - instalados sob um plano delineado pelo Prof. Dr. António Flores e com uma utensilagem que é perfeitamente moderna. Quando visitei esse estabelecimento era precisamente examinado uni negro de enorme estatura, que era acudido de vários assassínios que estava sendo observado, obtendo-se os seus electroencefalogramas com o aparelho respectivo.
Assisti, portanto, à aplicação a nativos dos processos mais modernos da investigação na matéria. Devo citar aqui com o Prof. António Flores, mestre de uma geração, os Profs. Elísio de Moura e Baraona Fernandes, além de outros, como o que naquele serviço ultramarino superintende - o Dr. Rosales Teixeira, discípulo do Prof. Flores.
As concepções de Júlio de Matos ligavam se do ponto de vista filosófico, a uma tendência arreigada da época - o positivismo de Augusto Conte. É lamentável que num estudo sério de Júlio de Matos figurasse n indicação da propaganda do positivismo como um meio profiláctico eficaz contra a alienação mental! Mas, fora desse aspecto da sua cultura e mentalidade, devo assinalar em Júlio de Matos n influência dos nomes mais ilustres da psiquiatria do seu tempo. Cito, por exemplo, como tendo influído na sua classificação is nos seus estudos de doenças mentais o grande psiquiatra italiano Thanz.
Aceitava também Júlio de Matos o velho conceito de degenerescência e admitia o conceito ultrapassado do «loucura moral». Embora todos nós saibamos que, pura infelicidade e miséria da espécie humana, existem perversidades constitucionais, a verdade é que o conceito antigo da loucura moral sofreu uma profunda evolução. E Júlio de Matos tanto tinha a intuição do facto de numa estatística que reuni de exames periciais, feitos por de na circunscrição médico-legal do Porto durante alguns anos pude verificar que, em cento e tal exames psiquiátricos de criminosos, de apenas etiquetara três com esse diagnóstico de loucura moral. Era um sinal de prudência, de intuição, de previsão daquilo que o futuro viria a demonstrar.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Ele acreditava ainda no conceito de Charcot sobre a histeria. Assisti na sua clínica a exames v tratamentos de doentes internadas sob a designação de histéricas. Eram duelos de brilho literário, de frases amáreis, que se estabeleciam entre o doente e ele. Mas Júlio de Matos tinha já a antevisão do que vi riu a suceder ao conceito antigo da histeria, porque afirmava o carácter artificial dos sintomas daquela, como que prevendo a eliminação da histeria do quadro das doenças caracterizadas e a sua substituição pelo conceito de pitiatismo, de Bahinski.
Não devo entrar em mais pormenores sobre o assunto, mas não deixo de dizer que esses duelos com os seus doentes eram, a meu ver, também um prenúncio da moderna psicanálise. Na verdade, Júlio de Matos, como Charcot, já fazia investigação psicanalítica.
A paranóia constituiu um dos seus mais importantes trabalhos. Desde estudante ele se interessara por estes estudos, sendo a sua própria tese de formatura em Medicina intitulada «A patogenia das alucinações». Além disso, em vez de uma terapêutica empírica, ele entendia dever estabelecer-se uma terapêutica racional, que tinha de ser acima de tudo fundada num bom diagnóstico c numa boa classificação das doenças.
A psiquiatria hoje tem um desenvolvimento incomparavelmente mais amplo e preciso do que então tinha, mas entendo que o espírito de Júlio de Matos pode perdurável mente manter-se como o génio tutelar dos respectivos progressos entre nós. Ele não esquecia aspectos da moderna psicologia colectiva, mesmo o que nós podemos chamar psiquiatria colectiva - a loucura dos grupos, das multidões, das seitas e do certas organizações, a loucura até do certos estados, formas de verdadeira loucura colectiva.
Sionmel, Tarde, Sighele. Gustave Le Bon e outros estudaram a psicologia colectiva, a psicologia das multidões, mas há também, para mal da humanidade, uma psiquiatria correspondente, mesmo a psiquiatria de algumas entidades responsáveis pelo destino dos povos.
Há nalguns espíritos tendência pura manifestações ultrapsíquica», hiperpsíquicas, que justificam admitir-se uma parcela, de loucura, em muitos aspectos elevados da vida humana. Numa comunicação que fiz há sete ou oito anos à Academia das Ciências de Lisboa, precisamente, sobre Júlio de Matos, evoquei a passagem de Fernando Pessoa segundo a qual um poucochinho de loucura não faz mal. Os versos de Fernando Pessoa são «sem a loucura, que é o homem mais do que a besta, sadia, cadáver adiado que procria?». Mas são as formas de loucura que elevam, o entusiasmo dignificante, a loucura do heroísmo e do sacrifício, tudo formas, que poderão dizer-se nobres, de loucura.
Agora a loucura do mal, o vírus sinistro do egoísmo, do ódio, da inveja, da crueldade e da infâmia, essas formas são evidentemente, de condenar, de excluir.
Evoco, com saudade, neste instante, o meu grande e inolvidável mestre que foi Júlio de Matos. Vejo-o no consultório, na clínica hospitalar, de que recordei já alguns aspectos.
Vejo-o brilhante, admirável, na sua cátedra de professor e de conferente;
evoco-o justo, sereno e conciso