27 DE JANEIRO DE 1956 373
reduzidos os máximos estabelecidos correspondentemente.
A eficiência da solução, conteúdo, a meu ver, doutrina aceitável, dependerá apenas da forma como ela seja executada.
E quanto à forma como o será direi apenas: veremos e depois falaremos. Mas não creio muito na sua perfeita execução.
O problema do fomento do gado para consumo público assenta principal, para não dizer exclusivamente, nesta verdade axiomática: não teremos gado, e consequentemente não teremos carne, enquanto ele não for pago ao lavrador «por um preço que o anime a sua criação, pela segurança de um lucro certo e razoável, partindo-se do preço do gado de trabalho, a fonte principal dos nossos abastecimentos.
Mas poderemos nós ter carne em abundância, pelo menos em quantidade suficiente para o integral abastecimento do País?
Às autoridades na matéria afirmam que isso é impossível, com impressionante unanimidade.
Permito-me duvidar de semelhantes certezas. E, pelo contrário, estou convencido não só da sua possibilidade mas até da sua relativa facilidade. Lamento o facto de que entre o anúncio deste aviso prévio e o início da sua apreciação não tivesse havido um lapso de tempo que permitisse a sua análise e estudo com maior profundidade.
Sabe-se que a necessidade anual do consumo de bovinos pode situar-se entre as
40 000 t a 50 000 t. Bastaria averiguar os efectivos de que actualmente se poderá dispor para o abate e calcular, com base no número dos
lavradores - criadores e no tempo necessário para a recria - em média quatro anos -, as disponibilidades futuras, que aumentarão consideravelmente desde que a criação de gado não seja uma aventura economicamente - perigosa, mas regularmente lucrativa.
Diz-se que o País não tem as condições agro-climáticas necessárias para nos dedicarmos a explorações de gado bovino, exigente de boas e abundantes forragens, que só os bons terrenos com água, ou, pelo menos, frescos, .podem oferecer. E confia-se muito nas obras da hidráulica agrícola, que me parece terem feito surgir mais problemas do que ajudado a resolver os que já existiam, para o fomento da produção.
Mas o problema não pode pôr-se assim duma maneira absoluta, para bem se observar.
Para um estudo sério teremos de dividir o País em duas zonas agrícolas inteiramente distintas. A do Norte, caracterizada pelo excessivo parcelamento da propriedade, e a do Sul, dominada pelo latifúndio e que me parece a única para que se voltam todas as atenções.
Nesta última, excepção feita das margens do Tejo e do Sado e dos terrenos que vierem a ser futuramente irrigados, o clima e o solo, efectivamente, não são propícios para a criação de gado vacum, dada a extrema secura deste e o excesso de calor na época estival.
Por outro lado, a grande extensão territorial da propriedade só permitiria a criação desse gado em larga escala, em escala propriamente industrial, para os fins quase exclusivos de produção de carnes ou de leite, tanto mais que os meios mecânicos da cultura da terra já ali estão a ser empregados, largamente, tornando o boi praticamente inútil para esses trabalhos. E não me parece que no País se encontrem condições próprias à criação de gado vacum em escala industrial.
No Norte, pelo contrário, a pequenez da propriedade e a sua dispersão por glebas mais ou menos numerosas tornam indispensável o concurso desse precioso auxiliar do esforço humano e inviável o trabalho mecânico.
O lavrador-proprietário é simultaneamente o lavrador-criador.
Tem de ter gado. Não pode dispensar o gado. E então, e em harmonia com a maior ou menor grandeza da sua exploração agrícola, assim terá uma, duas ou mais juntas de gado.
O clima e a frescura das terras do Norte, embora só excepcionalmente se possam considerar óptimas, são, no entanto, bastante favoráveis a essas criações, regularmente favoráveis para esta espécie de gado.
Estas procuravam-se ali mais ou menos nos seguintes termos:
Em começos de Março todo o lavrador adquiria a sua junta de gado. Na sua compra regulava-se ele, quanto a idade e tamanho, pelo volume de trabalhos que teria de realizar pelo ano agrícola adiante.
Se esse trabalho não era grande, uma simples junta de bezerros, muitas vezes por amansar, era o suficiente.
Ao findar do ano agrícola, aí por Setembro, começava o tratamento do gado para venda, aliás nunca descurado, mesmo nos períodos de maior azáfama agrícola, pois o gado era tratado com desvelado carinho.
Os bezerros transformavam-se em bois de bela apresentação.
E os bois grandes, nédios, gordos, apresentavam-se nas feiras como verdadeiras montanhas de carne, a tremer de gordura.
Havia vaidade nisso.
Recordo-me de que ainda não há muito tempo se venderam juntas por mais de 20 contos.
A criação de gado constituía para o pequeno e médio lavrador nortenho uma espécie de mealheiro, onde durante o ano ia acumulando as suas economias, com as quais na época própria pagava as suas contribuições, se vestia, a si e à família, e acudia às necessidades mais prementes do seu agregado familiar.
Mas ultimamente tudo isso mudou. O positivo e o concreto é que ele comprava, com dinheiro muitas vezes emprestado, o gado de que carecia para o trabalho agrícola mais caro do que o vendia na feira depois de engordado. Assim deixou de ter para ele interesse a existência na sua pequena e mediana exploração agrícola da tradicional junta de bois. De começo ainda reagiu, tentando substituir a junta de bois pela de vacas, mais barata e que sempre lhe daria, no decurso do ano, uma ou duas crias, cuja venda constituía um complemento económico da sua depauperada economia.
Este deve ser o principal motivo por que se não cria nem recria e se procede indiscriminadamente à matança dos inocentes, como já alguém chamou ao abate dos vitelos com menos de dois meses. Pelo menos no que se refere ao gado de trabalho, pois no que diz respeito ao leiteiro a venda do leite, mesmo a baixo preço, é ainda mais remuneradora do que essa criação.
Mas a substituição do boi pela vaca não melhorou a situação do pequeno
lavrador-criador. E assiste-se agora a uma mutação mais radical.
Como ele não pode dispensar o trabalho animal, o gado vacum começa a ser substituído pelo cavalar, muar e asinino, mais barato, mais sóbrio, com mais largos períodos de utilização e com muito menor desvalorização e muito mais resistente as intempéries.
Há povoações lá para o Norte onde já hoje não existe; por assim dizer, uma só junta de bois.
A tendência actual é esta na minha região.
Se ela persistir e se se acentuar veremos diminuídos substancialmente os efectivos bovinos numa das zonas do País mais criadoras de gados desta espécie e que era das maiores abastecedoras do consumo público nacional; de uma zona do País onde a pecuária foi sempre uma indústria familiar tradicional e donde são originárias as melhores raças de gado vacum do País: