O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

14 DE MARÇO DE 1956 489

(...) ao ensino técnico corre paralela à liceal. Ambas têm algumas das suas raízes na expansão que o ensino primário está tendo. Estancar um dos afluxos é estancar o outro e represá-los a ambos é estacionar ou diminuir (uma vez que a população aumenta) o índice da nossa escolaridade, ainda baixíssimo em relação ao dos países mais progressivos da Europa.

A estimativa precedente desabrocha dos factos e é feita para 1961-1962, após um período de seis anos, inferior, portanto, ao exigido pelo diploma de professor do liceu, luto mostra bem a acuidade do problema e como o mais pequeno descuido ou alheamento pode conduzir (à semelhança do que já aconteceu no ensino primário) a resultados catastróficos, que de momento não será fácil suster, dado o processo em curso, duma longa carreira, que exige, pelo menos, sete anos.
Quer no que toca à quantidade de professorado sem estágio, quer de senhoras no ensino liceal, os factos do presente oferecem-nos, pois, más perspectivas: se a primeira percentagem nos apresenta o estágio como inútil, há que acabar com ele, e, se aquele professorado se tornar a regra ou norma, há que mudar-lhe o rótulo (de eventual ou provisório), em homenagem aos dicionaristas.
Quanto ao outro aspecto do problema, não vamos, por incompreensão, cegueira ou facciosismo, condenar o trabalho da mulher como professora, considerando a sua acção perniciosa à educação e ao carácter das juventudes masculinas: se tivemos que fazer referências pormenorizadas à feminilidade nos liceus foi 60 para assinalar a fuga dos homens como um índice das injustiças de que a classe é vítima. Entretanto, afirmamos que não vemos quaisquer vantagens em fazer da docência secundária (e mormente da liceal) uma carreira evolutivamente feminina, que o era em breve. Antes, pelo contrário, só lhe encontramos inconvenientes. Em primeiro lugar, a prática patrocina um erro científico ao obrigar os tratadistas da psicotécnica a incluir o magistério médio no número das profissões tipicamente femininas. Isto não obstante a protecção legal (mas inteiramente inoperante), que defende a masculinidade no ensino liceal. E, como é através dos licenciados em Letras e em Ciências que se recruta o professorado superior das respectivas licenciaturas, teremos, em duas vintenas de anos, o corpo docente daquelas Faculdades constituído exclusivamente, ou quase, por senhoras. (Note-se que não condenamos a existência de catedráticas, mas apenas o seu possível monopólio de certas Faculdades; sabemos bem que nalguns países têm as senhoras representação condigna no corpo docente das Universidades). E, assim, num futuro próximo, os homens votar-se-ão às profissões utilitárias, práticas e rendosas, enquanto as senhoras se dedicarão profissionalmente às especulações desinteressadas (as filosofias, a arte, a história e o avanço das ciências puras) e respectivo magistério.
Isto pelo que toca aos profissionais. A confirmar-se a evolução apresentada (a progressão feminina no professorado a ascender aos 80-90 por cento), não vemos que dela venha aos Estados nem proveito, nem prestígio. Muito ao contrário. Desprestigiam-se as instituições políticas ao fomentarem uma orientação profissional que lembra a ganância feroz do industrialismo, quando pretere a mão-de-obra masculina pela baixeza de preço do trabalho de mulheres e crianças. A senhora professora tornar-se-ia uma proletária intelectual, e não é com mentalidades de proletário que se realiza o ensino. Um desprestígio, pois, e um desperdício de bens morais e de valores ao desaproveitar a inteligência dos homens que nasceram com vocação de professores e o desejariam ser se não receassem a degradação do seu labor intelectual ao nível de mercadoria ou manufactura de fábrica.

II) Os erros

Assinalados no número anterior alguns dos factos mais importantes oferecidos pelo panorama do professorado liceal português, passemos agora à análise dos erros -erros que são factos também, mas factos de raiz, e a causa, portanto, dos outros, que se nos apresentam como mais vultosos e aparentes. São vários os motivos determinantes da fuga masculina ao magistério, logo no início das licenciaturas universitárias, fuga que se reflecte na «penúria de cientistas puro», principalmente dos que, fora da indústria, deviam assegurar a investigação científica e o ensino». Inquérito recente sobre as necessidades de pessoal científico e técnico, realizado pela Organização Europeia de Cooperação Económica, levou às seguintes conclusões:

a) A penúria afecta, em alguns países, o nível do ensino e ameaça agravar-se por causa das necessidades crescentes;
b) E oportuno tomar medidas apropriadas para melhorar a qualidade do ensino das Ciências, tendo em vista a sua importância fundamental . . . (referência do relatório que precede a última reforma dos cursos de Engenharia, Diário do Governo, 1.ª série, de 14 de Novembro de 1955).

Alguns países lançaram-se já a este trabalho de melhoria, e bom será que Portugal se não isole na cauda do movimento. Problema complexo e universal, que nos não propomos estudar aqui: o que aqui importa referir são os factores que agem no afastamento do ensino oficial de possíveis valores, que, ao concluir a sua licenciatura, a ele se deveriam dirigir. E estudar ainda o desvio de agulha que hoje leva os homens para as escolas técnicas e empurra as senhoras para o liceu.
1. Os dois anos de estágio, nas condições de precariedade económica em que actualmente é realizado, constituem um escolho grave na selecção dos professores. Esta circunstância, conjugada com outras, conduz ao seguinte:
O resultado é que os rapazes (. . .) dispersam-se pelo ensino particular ou derivam para qualquer outra ocupação que lhes dê às aspirações próprias da idade e do grau universitário a solução urgente e necessária. quase nunca inferior, aliás, ao que o liceu lhes poderia oferecer, depois da longa e difícil subida para lá chegar. (Hernâni Cidade, «Problemas do ensino a resolver», in O Primeiro de Janeiro de 3 de Novembro de 1955).
Considerados os cinco anos da licenciatura, o ano de preparação para o apertadíssimo exame-concurso de admissão ao estágio e os dois anos deste - diz aquele professor-, «não há hoje curso superior tão longo como o exigido pelo diploma de professor liceal» - diploma que apenas é alcançado por 6,9 por cento dos que possuem a respectiva licenciatura! Entretanto os liceus regurgitam de professorado eventual, que realiza hoje quase um quarto do serviço. Impõem-se, pois, medidas atinentes a suavizar a longa caminhada que a preparação profissional exige, sendo a altura mais indicada precisamente os dois anos, de estágio.
2. Tal como o erro anterior, há um conjunto de outros que afectam ao mesmo tempo o professorado liceal e o técnico. Porém, dado o vazio em que se encontram os quadros do ensino técnico, a maioria deles