14 DE MARÇO DE 1916 491
(...) dos seus elementos no respectivo ensino. A este respeito (tal como acontece nos liceus) muito peca o nosso ensino técnico, cujos alunos, em grande número, o consideram como liceus de via reduzida, através dos quais, muitas vezes, procuram na vida, e com o apoio da legislação, os mesmos objectivos que os do ensino liceal. Se este deve fornecer a cultura necessária ao dia a dia social, seleccionando os elementos aproveitáveis para a frequência das Universidades e para os lugares do funcionalismo, deve o ensino técnico, sem desprezar o homem, formar bons profissionais e bons técnicos.
Ora confrontemos números. Em França, no ano lectivo corrente frequentam o ensino liceal oficial 540 000 alunos e o técnico (oficial também) 331 000 (números redondos). Entre nós dá-se o contrário: tem o técnico a supremacia: 54 636 estudantes, a contrastar com os 30 199 liceais. Utilizando percentagens: enquanto entre nós a frequência liceal oficial é de 55,2 por conto da técnica, em França é ela de 163,l por cento. Em Linha de Rumo, vol. I (1946), determinou o engenheiro Prof. Ferreira Dias Júnior o índice da nossa vida económica e o dos restantes países da Europa, a partir de oito elementos relacionados, de perto ou de longe, com a actividade industrial.
Dos números colhidos ficámos a saber que o nosso índice corresponde apenas a 19.4 por cento do da França, que ocupa em lugar invejável - isto embora a nossa permilagem do ensino técnico oficial corresponda a quase três quartos da daquele país. (Convém notar que estes índices se referem ao triénio de 1936-1938, e nestes vinte anos progredimos industrialmente bastante - o que não quer dizer que a França tenha estacionado e estejamos a par! Embora sem elementos que nos permitam concretiza-lo, cremos ser da mesma ordem o desnível actual). Ora estes números são demasiado concludentes: é necessário, em qualquer ensino, não nos desvairarmos pela quantidade, esquecendo a qualidade.
Pelo que ao ensino técnico se refere, impõe-se que sejam na verdade técnicos os alunos diplomados e que estes encontrem escoamento no seu meio próprio, a medida que saem das escolas. De contrário, de pouco ou nada vale o «prestígio» que ao ensino técnico pretendamos insuflar: agitaremos apenas uma bandeira, que os factos um dia diluirão, como «e ilusão ou nuvem fosse. E não se veja nesta referência àquele ensino qualquer intenção acrimoniosa: se muito deve melhorar em qualidade o nosso levantamento industrial assim o exige), também em quantidade tem anula um caminho a percorrer, apesar de os números acima sugerirem como elevada a nossa frequência técnica, tal não é verdade, p»is, expressa em permilagem (da população), é - como vimos - de 73,2 por cento da francesa. O «erro» veio de a compararmos com a liceal, cuja permilagem é inferior de um quarto da do mesmo país. E não é só na França que os números se nos apresentam desta ordem. É longa, muito longa, pois, a estrada que aos dois ensinos se oferece ainda.
4. A localização em Coimbra do único liceu normal e em Lisboa e Porto (um grupo) do estágio técnico (para professores efectivos) é mais uma força a desviar os homens do magistério liceal. Pois, para que hão-de os jovens licenciados por aquelas escolas ir procurar longe o que é injusto e mau quando o razoável e a situação de favor se lhes oferecem à mão? Assim, a crise masculina &e agravou posteriormente a 1947. Impõe-se, pois, a coexistência, na mesma cidade, dos dois estágios, liceal e técnico. São, sobretudo, as preferências pessoais, e não factores de natureza económica, que devem determinar o caminho docente liceal ou técnico (como, aliás, em relação aos alunos, não pode ser também o factor económico a determinar-lhes a carreira).
Em nosso entender, só baseados em factos e números podemos fazer a defesa do reaparecimento do Liceu Normal de Lisboa, considerando o problema vital do ensino (com ou sem o sacrifício do de Coimbra e as exigências docentes liceais parecem depor pela desnecessidade actual do sacrifício), e nunca levados por ressentimentos bairristas ou pelo orgulho pretensamente ferido de uma capital.
Outros erros existem, mas que não importa considerar numa primeira análise do problema. Pelo que fica dito, parece claro que o professorado do ensino médio é vítima de numerosas e gravosas injustiças, o que afasta do magistério alguns dos melhores valores universitários, ficando o ensino para as senhoras ou, quando abrangendo os homens, é ele geralmente tomado como profissão de último recurso. Aqueles, porém, a quem a sedução das ciências, da filosofia ou da literatura foram mais fortes que o caudal de interesses em que é arremessada a vida de cada um abrem-se, ao terminar a sua licenciatura, duas grandes estradas, grandes apenas por serem compridas e estreitas: a liceal e a técnica. Para os homens, a primeira é o prolongamento da imolação, na continuidade de um idealismo que encerra as vidas em apertados horizontes e numa altura em que os filhos já começam a pedir pão; a segunda, pelo contrário, constitui uma compensação ao «erro» cometido na escolha de profissão, mediante uma graciosa situação de favor. Para as senhoras, as coisas passam-se inteiramente ao contrário, apenas com uma diferença: enquanto os homens, no ensino técnico, regra geral, ficam imediatamente efectivos (ou auxiliares), as senhoras, no liceal, em mais de 00 por cento dos casos, ficarão toda a vida agregadas. Não podendo dizer-se, sequer, que é um lugar razoável . . . sempre é um lugar, enquanto no ensino técnico nem lugar têm como professoras de carreira.
Estes são os erros principais, articulados numa cadeia de consequências. E assim, impelida por eles, pela vontade dos homens e os imponderáveis das leis, se vai modificando profundamente, ano após ano, a paisagem humana do nosso ensino. E talvez também o próprio ensino.
III) Ao encontro de solução
Também nós vamos pecar por uma ausência de soluções. Sendo esta a epígrafe que mais importava desenvolver, a natureza de uma simples exposição e a brevidade do período regimental em que deve ser lida impedem-nos de o fazer neste lugar, além de nos faltarem ainda elementos estatísticos a comprovar as nossas asserções. Entretanto - cremos - nada se perde em fazer duas considerações sobre a solução justa que o problema reclama. Para já há que saber se a crise que o magistério atravessa é de natureza superficial ou profunda e se não haverá erros alheios u orgânica escolar a determiná-la, sabido, como é, que não é tratando as manifestações da sífilis que a sífilis desaparece: o combate apenas aos efeitos não destrói as causas, e os efeitos persistem, ou os mesmos ou equivalentes. De qualquer maneira, impõe-se um exame atento a cada um dos erros cometidos, escolares ou extra-escolares.
Circunscrevendo-nos aos primeiros (os únicos que tratamos), há que fazer, para efeitos de correcção, a sua distribuição, por dois grupos: aqueles cuja solução não traz ao Estado qualquer agravamento de despesas e os restantes, que exigem uma movimentação de verbas. De entre os primeiros contam-se os seguintes, referindo-nos à numeração do número anterior: 2-b),