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4 DE ABRIL DE 1957 531

Nesta tribuna, que ocupo com pleno assentimento dessa notável figura de estadista que é o Sr. Presidente do Conselho, tenho procurado bem merecer a confiança do País e da região que represento, que tem por capital a velha e nobre cidade do Porto, à qual o Governo está dedicando o maior interesse na satisfarão dos seus anseios e necessidades de realização dos mais diversos empreendimentos para seu engrandecimento, no aspecto monumental, económico, social, cultural e artístico.

minha voz tem equado nesta sala, e não poucas vezes, na apresentação e discussão dos problemas mais diversos, colocando-os sempre em plano verdadeiramente nacional. E, quando alguns desses problemas parecem revestir aspectos regionais, fácil se torna a demonstração de que eles transcendem o regionalismo para se enquadrarem no aspecto de verdadeiro, sincero e patriótico nacionalismo.
Os problemas inerentes à minha actividade profissional, portanto mais dentro dos conhecimentos básicos da minha formação intelectual, têm ocupado grande parte do meu labor parlamentar. E os meus depoimentos sobre assistência social, ligados ao exercício da clínica, nos diferentes aspectos, prenderam a minha atenção em largo espaço das intervenções que realizei.
Hoje, perante as circunstâncias do momento, em manifestação clara do meu pensamento e do meu sentimento, pesando com prudência a responsabilidade da função, reflectindo madura e calmamente sobre algumas afirmações de alto valor aqui produzidas e repetidas nu discussão do aviso prévio realizado sobre o Hospital--Faculdade de Lisboa, tomei a resolução de me ocupar do Hospital Escolar do Porto (Hospital de S. João) e emitir opinião, concordando ou discordando de alguns pontos de vista expostos pelo Sr. Deputado Prof. Cid dos Santos, a quem desejo prestar a mais rasgada homenagem.
E faço-o com sinceridade, sem reservai ou subtilezas impróprias do meu carácter, que tem sido, através duma vida de constante actividade, merecedor de geral consideração, como elemento digno da sacrificada classe a que tenho a maior orgulho em pertencer.
Usou S. Ex.a clara, excessivamente viva e expressiva linguagem na exposição feita com o maior desassombro, tratando um problema a que está ligada grande parte, da sua actividade como Deputado da Nação, dentro do programa definido no período anterior ao início desta legislatura.
É S. Ex.a um cirurgião ilustre, técnico possuidor de extraordinários recursos, admirado e respeitado. Ao dirigir-lhe estas palavras de justiça não invalido o direito que me assiste na discordância de algumas opiniões por S. Ex.º expendidas. E no confronto que possa estabelecer-se entre o que se passa no Hospital-Faculdade de Lisboa e o que se está realizando na fase de acabamento do Hospital de S. João do Porto, além de outras razões, encontra-se o motivo de algumas das considerações que me proponho fazer, adoptando o princípio crítico de moderação e serenidade.
Sr. Presidente: em sessão de 3 de Fevereiro de 1904 ocupei-me largamente do problema dos hospitais escolares, fazendo considerações que me pareceram necessárias e então, expondo o meu pensamento sobre o problema que então, como agora, se debate, trazido à Assembleia pelo aviso prévio do Deputado Cid dos Santos, que originou demorada controvérsia nesta Câmara, com forte repercussão una meios científicos, visto tratar-se de um problema técnico, que aos técnicos interessa na sua organização e na sua direcção. Hoje cumpre-me dizer o que se me afigura essencial, como depoimento sobre a importância dessa obra de assistência, que tanto nacionais como estrangeiros da maior responsabilidade situam em plano do mais elevado nível, tão sentido e tão compreendido é o seu valor, a sua influência e a sua grandeza.
Na minha qualidade de médico e Deputado quis, mais uma vez, pelos meus próprios olhos, certificar-mo das razões que me assistem quando terço armas na defesa dum empreendimento, bela construção material de extraordinária valia assistencial, sonhada e desejada por tantos e cuja realização se deve a tão poucos.
Para tal desiderato, passei grande parte de um dia em visita de estudo, chamemos-lhe assim, a essa grande, unidade hospitalar que na Asprela se levanta, majestosa e opulenta nas suas linhas e na função meritória que dentro de uni ano deverá ser chamada a desempenhar.
Tive como cicerone, através daquele bem delineado bloco, o Prof. Hernâni Monteiro, membro da comissão técnica da construção dos hospitais escolares e presidente da comissão instaladora e administrativa, do Hospital de S. João, cientista ilustre, mestre insigne da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, detentor dum espírito com viva inteligência, aliado a uma sólida cultura, que tem dedicado, no período aproximado de vinte anos, o melhor da sua energia, do seu esforço, da sua vontade, da sua perseverança, a favor do hospital há mais de um século reclamado, e que, em 1867, a Escola Portuense de Medicina, numa mensagem dirigida ao Governo de Sua Majestade, lhe pedia a sua criação e construção, tão necessárias.
E, além do Prof. Hernâni Monteiro, portuense por tantos títulos ilustre, acompanhou-nos também o ilustre arquitecto Oldemiro Carneiro, que há uma dúzia de anos orienta, com honestidade e competência, as tarefas de que está incumbido.
Creio, Sr. Presidente, que tudo quanto tive ocasião de ver e observar deixou no meu espírito profundamente marcada a melhor e a mais agradável das impressões, atingindo mesmo admiração, seja qual for o prisma por que deva encarar-se essa grande obra de assistência, de tão generosa finalidade.
Em todo o Mundo se vem operando transformação notável nos múltiplos sectores da actividade humana. Os problemas da assistência hospitalar, adquirindo o máximo desenvolvimento, bem podem considerar-se problemas de premente interesse nacional; problemas que, na sua amplitude e na sua complexidade, comportam inúmeras dificuldades, de que o Governo, na realização do seu objectivo e no desempenho do seu mandato, se tem ocupado, com o mais escrupuloso empenho de bem servir.
O problema hospitalar, a caminho de solução inteligentemente estudada e orientada, bem merece ser acarinhado pela Nação inteira, que durante vários, anos rogou, pediu, implorou, lhe dessem estabelecimentos hospitalares onde pudesse recuperar saúde, e energia na luta contra a doença. E o Estado Novo, compreendendo esses anseios e essas necessidades, lançou-se uma larga tarefa, que eu, como médico, como Deputado e como homem do povo, admiro e louvo, com a sinceridade de português que assim vê engrandecido o arsenal terapêutico restituidor da saúde e da vida.
O Hospital Escolar do Porto, iniciado há cerca de vinte anos, foi planificado, assim como o Hospital-Faculdade de Lisboa, pelo mesmo célebre arquitecto alemão Diestel. Autor de notáveis construções, como indiscutível competência, o Estado alemão deu-lhe o encargo, entre outros, de projectar o Hospital Contrai de Zurique e o Hospital Escolar de Berlim.
Não se poderá dizer que a escolha não haja sido acertada, tão reconhecido é o vaiar do falecido arquitecto. Mas se a Diestel coube o projecto do edifício, ao Prof. Francisco Gentil, nome grande da medicina.