O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

598 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 211

nem me interessa o assunto senão pelo respeita que deve haver pela administração destes organismos, onde se englobam os interesses de milhares de pessoas.
Finalmente, e em último lugar, «o presente trabalho é completado pela informação destes serviços n.º 65. Nela se finalisa a situação económica e financeira, resultados de exercícios, preços, actividade do organismo, etc., e se deduz numa apreciação muito desfavorável que, pelo exposto, julgo plenamente confirmada acerca do critério que tem presidido à sua administração».
Por consequência, Sr. Presidente, dou-me por tranquilo com a minha consciência pelo facto de ter trazido a es a Assembleia um caso que era, na verdade, escandaloso. Posso dizer que sou por vezes interpelado na rua a respeito de Mafra. Em face destes argumentos, que são es argumentos oficiais, e dos números que eu não li, porque não vale a pena, estou muito satisfeito de o ter trazido a esta Assembleia e de poder afirmar a VV. Ex.ªs que ele acaba de ser resolvido pela única forma possível.
Estamos todos de parabéns, o Sr. Secretário de Estado da Agricultura, a Cooperativa de Mafra e, porventura, as entidades que por bem intervieram no assunto.
Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Armando Cândido: - Sr. Presidente: não é a primeira vez que me ocupo do Brasil nesta Assembleia. Filiei aqui do grande país irmão nas sessões de 3 e 4 de Março de 1952. No dia 7 de Dezembro de 1954 tomei parte na discussão sobre o Tratado de Amizade e Consulta Luso-Brasileiro. Em 1956, a 24 de Janeiro, usei da palavra sobre a visita a Portugal do então Presidente eleito do Brasil, Dr. Kubitschek de Oliveira.
A minha paixão pelo Brasil é uma paixão de inteligência. Não se limita às raízes sentimentais. Estudei o Brasil para o compreender e compreendi o Brasil para o afirmar.
Este é o pórtico por onde farei passar tudo quanto vou dizer.
Estive no Brasil na altura em que se esboçava a campanha para a eleição do Presidente da República que deveria suceder a, Kubitschek de Oliveira. Políticos e não políticos escreviam e riscavam nomes no cartaz dos futures candidatos. Uns votariam no marechal Lott, outros iriam às urnas por Jânio Quadros. Alguns inclinavam-se para Ademar de Barros, sem faltar quem se lembrasse do marechal Dutra, o único, entre todos, que conheci pessoalmente, numa cerimónia realizada no Ministério da Fazenda.
A pugna começava a acender-se por todo o Brasil, mas, a falar verdade, a mim, como português, não me interessava qualquer das hipóteses, pois contava e sempre contei que, fosse qual fosse o candidato vencedor, Portugal constituiria sempre um caso à parte, um caso definitivo no consenso da política brasileira.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Até no avião em que regressei a Portugal, um brasileiro de S. Paulo, acérrimo partidário de Jânio, se travou de razões com um jornalista do Rio, ferrenho defensor de Lott. Os argumentos, de parte a parte, chegaram a tal ponto de vivacidade, que me vi obrigado a intervir algumas vezes para que a disputa não ganhasse asas mais possantes do que as do próprio aparelho em que seguíamos.
Fiquei, todavia, com uma impressão, para não dizer com uma certeza: Jânio ganharia o prélio eleitoral.
Percebera, durante os meus breves contactos com os vários sectores da opinião pública brasileira, aliás sem a preocupação de os auscultar ou de os procurar para o efeito, que existiam preferências diversas e todas elas volumosas a propósito da escolha do futuro Presidente da República, mas que sobrelevava a todas as correntes de vontade a que pretendia a eleição de alguém que viesse a exercer maior domínio no curso da vida interna, fazendo com que o poder da Administração descesse ao pormenor, quase como o poder doméstico no minucioso arrumo da casa que governa.
Kubitschek de Oliveira seria então o homem das grandes linhas gerais, dos grandes planos de desenvolvimento, dos largos horizontes para as largas projecções, o homem que batalha na esfera dos poderosos acontecimentos nem sempre inteligíveis pelos que desejam o fontanário na sua praça, o seu campo bem regado, o seu jardim bem florido.
Certo dia, ao passar pelo edifício onde se encontra instalada uma das Universidades do Rio, VI escrito em grande letreiro sobre a porta de entrada:

Os estudantes desta Universidade estão em greve, porque foram proibidos de pensar.

Mais adiante, num dos escaparates recheados de livros, revistas e jornais que se topam nas ruas e avenidas do Rio de Janeiro, comprei o último número da revista Escândalo.
Aquilo não era liberdade de pensar, era licença - incrível licença de pensar.
Na tarde desse mesmo dia cruzei com o barbudo Fidel Castro, na Avenida Atlântica, acolitado por três fiéis pistoleiros. E ao entardecer do dia seguinte, com a sua farda de guerrilheiro, as suas barbas parangonescas e a sua palavra sem represas, o mesmo Fidel, perante muita gente aglomerada no largo fronteiro ao edifício da Universidade em greve, disse tudo o que quis, torrencialmente.
Fiquei sem saber se o letreiro que tinha lido era um dístico ironicamente composto ou um protesto de irreverência juvenil tendenciosamente formulado.
Mas o problema não era comigo e só me cumpria anotar na memória, como anotei, esta série de episódios como se anota num álbum unia série de paisagens.
Afinal, o Dr. Jânio Quadros foi eleito. E o Presidente dos Estados Unidos do Brasil. Pelo lugar que ocupa, é um dos mais altos expoentes da comunidade luso-brasileira. O novo Presidente da República do Brasil não pode deixar de sentir o peso desta inegável realidade.
Com isto quero dizer que, se a política interna do Brasil é matéria vedada à nossa intromissão, a política externa da grande nação irmã tem para nós, Portugueses, interesse de especial natureza.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Portugal não deve agredir o Brasil por força de quaisquer dos imperativos da sua política interna.
Também o Brasil não deve agredir Portugal por causa dos ideais que informam o seu sistema de governo.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Temos uma base comum, uma base que não cede nem se presta a dissídios sobre a estrutura dos regimes políticos vigentes tanto num país