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600 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 211

parte do D. R. I. L. (abreviatura já tristemente conhecida do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação) e atacam na sombra, sinistramente, o próprio país que lhes dá guarida, como se demonstra pelas recentíssimas confissões de um malfeitor, de nacionalidade estrangeira, a quem o D. R. I. L. pagou para praticar actos de terrorismo contra a Embaixada do Brasil em Portugal, com o propósito de perturbar as fraternais relações entre os dois países.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Por aqui poderá ver o Brasil quais são os seus amigos verdadeiros, que lhe dão palmas sinceras, e o j que escondem os punhais para se servirem deles depois das palmas que duo.
Outra nota:
Verifiquei e verifico que se exploram no Brasil e em relação a Portugal estas palavras vazias: ditadura de Salazar.
Eu próprio encontrei aqui e ali, à venda, no Rio de Janeiro, brochuras inflamadas por fora e por dentro contra essa imaginária ditadura.
Mas Portugal tem a sua Constituição, o Poder encontra-se limitado pela moral, existem tribunais que julgam com plena independência, tanto que revogam por vezes decisões do Governo e impedem a execução de outras, anda-se à vontade na rua, trabalha-se em sossego, cada qual pensa como quer, circulam pelo País algumas publicações em que os seus autores discordam do regime, e Salazar, essa decantada figura de ditador, não passe, afinal, de um humaníssimo governante, pleno das dádivas do bom senso e da inteligência, profundamente culto e profundamente cristão...

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - ... tão grande na simplicidade do saber como na bondade do querer.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Se alguns brasileiros tivessem visto Salazar ainda há poucos dias, no meio de dezenas de milhares de portugueses, misturado naturalmente com o povo, quando da chegada do paquete Santa Maria, talvez se convertessem, e uma vez convertidos talvez se penitenciassem.
Que não admitimos a liberdade de perturbar a opinião pública, a licença de promover a desordem nas almas e nas ruas?
Mas isto não é ditadura, ou, melhor, será a natural ditadura das experiências muito caras que temos vivido e não queremos jamais tornar a viver.
Em todo o caso, e seja como for, temos em Portugal uma forte, uma irreprimível ditadura - a ditadura da amizade pelo Brasil.
Outra palavra que está tomando vulto no Brasil é esta de colonialismo.
Mas que espécie de colonialismo?
Sé o Brasil está contra o colonialismo traduzido na opressão 3 exploração das massas nativas - estamos com o Brasil.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Se o Brasil não admite despotismos de uma raça contra outra - não deixamos de estar com o Brasil.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Se o Brasil não tolera privilégios ou realezas de cor - ainda continuamos a estar plenamente com o Brasil.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Mas se o Brasil, por hipótese inadmissível, supusesse que o Portugal da Europa escravizava e explorava as populações do Portugal de além-mar - não concordaríamos com o Brasil.
Mas se o Brasil chegasse a ponto, o que julgo fora de toda a lógica das possibilidades, de apoiar ou de promover a partilha de Portugal pelos inimigos que o atacam - não estaríamos com o Brasil.
E se o Brasil, porventura, contra todas as previsões, preferisse negar-se a si próprio, como o melhor exemplo dos processos de colonização portuguesa - então o Brasil é que não estaria consigo próprio.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Sr. Presidente: contei alguns factos, algumas certezas, e fiz algumas reflexões.
Guardei a esperança para o fim.
Espero, na verdade, que o Brasil continue a ser a pujante afirmação de um povo que se repartiu por duas pátrias sem deixar mutilada a árvore comum.
Espero que o Brasil continue a ser tão português como Portugal é tão brasileiro diante dos perigos que sobressaltam o Mundo.
Espero que o Brasil de hoje possa construir livremente o Brasil de amanhã, dominando as suas distâncias como nós dominamos o mar que dele nos separa.
Espero que o Brasil continue, sem embargo, a sua e nossa mensagem étnica, como nós a pretendemos continuar no Portugal do outro lado do mar que povoámos de almas e preces.
Espero que as fronteiras do Brasil permaneçam tão sagradas como as nossas.
Espero que no vasto território do Brasil, na terra aproveitada ou na imensidade a aproveitar, nos meios plenos de civilização ou nos conjuntos populacionais mais atrasados, alguns deles só agora conhecidos, nunca se possa acender qualquer foco de perturbação provocado pela cobiça ou pela inveja alheia.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Espero que o Brasil nunca deixe de distinguir - como disse um grande brasileiro - entre o ideal humano de liberdade para todos os povos e a exploração comunista que transformou a questão do colonialismo em arma de propaganda contra as nações ocidentais.
Espero que o Brasil, em face da presente conjura afro-asiática, sinta, pelas suas raízes ancestrais, pela inteligência dos seus homens do Governo e pela intuição do seu grande povo, que não se trata só de uma guerra movida a Portugal.
Espero que o Brasil jamais possa enfileirar ao lado dos que pretendem aproveitar o momento para servirem a avidez dos seus interesses, pois quem ganharia a partida nas áreas roubadas a Portugal seria a Rússia e a China Vermelha, pelo reforço dos seus princípios ideológicos, militares, étnicos e económicos.
Espero que a política externa brasileira não se deixe seduzir por qualquer processo de imediatismo fácil, quando é certo que hoje e no futuro poderá contar com a presença amiga de Portugal em pontos vitais para a segurança do próprio Brasil, como seja o de Angola,