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3042 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 123

Em todos os continentes aumenta o número de unidades escolares e não chegam, ampliam-se os quadros docentes, e a relação alunos-professor não satisfaz o ensino, afectam-se verbas fabulosas à educação e não cobrem as despesas.
Quem percorra os relatos dos mais variados países, publicados peta U. N. E. S. C. O., encontra por toda a parte a mesma preocupação de alargar a instrução de base, de promover élites cada vez mais numerosas e cultas, de levar mais longe a especialização, diferenciando cursos que valorizem as aptidões das várias etnias, dos sexos, das pessoas, e entrem em concordância com os planos de desenvolvimento das respectivas nações. Donde uma intensa utilização da psicopedagogia, da higiene escolar, da sociologia, das ciências morais, donde o recurso à orientação escolar e profissional.
Se me permite V. Ex.ª, deter-me-ei um pouco sobre o problema da diferenciação escolar dos dois sexos - assunto que, como afirmei, me trouxe especialmente a esta tribuna.
A sua necessidade deriva, a meu ver, da própria igualdade de direitos que nos leva a recusar que metade da população tenha de aceitar escolas concebidas e organizadas em moldes talhados ao jeito das condições mentais e físicas da outra metade.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

A Oradora: - Se é de louvar calorosamente o acesso livre da estudante a todos os ramos da cultura e da técnica, indispensável me parece assegurar uma educação de base que salvaguarde os valores femininos a que atrás me referi, numa intensa colaboração da escola e da família.
Se na verdade, Sr. Presidente, nem sempre é fácil ao rapaz ver no pai a sua imagem futura de homem feito, ainda quando mantida intacta a linha ideológica da- família e conservados os mais sólidos laços afectivos, que dizer, no caso da rapariga, da dificuldade em encontrar a linguagem adequada ao chamado diálogo entre duas gerações?
A geração daquela que preparava o caldo com os recursos da horta, na lareira que agasalhava a família reunida à mesma hora, enquanto tecia, remendava e talhava a roupa, e preparava tisanas, segundo receitas caseiras ... daquela que amealhava- tostões ao canto da gaveta para qualquer eventualidade imprevisível ... E a geração dos supermercados, do equipamento eléctrico, das confecções em série ... dos antibióticos ... dos seguros ... da velocidade ... dos horários desencontrados pelas ocupações exteriores de todos os membros da família ...
Por tudo isto, Sr.. Presidente - assuntos comezinhos que valem muito pura o bem-estar da sociedade - importa que não só se faculte à mulher acesso à cultura e à profissão, mas se dê através da escola ou das actividades circum-escolares, uma autêntica formação feminina, que abranja ensinamentos teóricos e práticos, a ministrar num clima em que as virtudes da mulher se exercitem com simplicidade e alegria.

Vozes: - Muito bem!

A Oradora: - Temos em Portugal uma escola primária, hoje frequentada praticamente por toda a população, onde estão previstas actividades de carácter feminino; não é mistério para ninguém a importância que reveste para a criança a primeira escola que frequenta ao saúdo ambiente familiar; quantas vezes é a única durante a sua vida e deixa nela uma marca indelével.
Creio, portanto, que há riquezas inexploradas que urge aproveitar naquelas salas onde se conversa à volta de um texto como a propósito do caso do dia (entre parênteses, lembro que a Espanha e certos cantões suíços usam um livro diferente nas escolas dos dois sexos) ... onde se aprende a contar e a coser, onde se prepara o presépio e se descobrem valores futuros ... onde se é a Luisinha, a Guida ... e não um número despersonalizado.
Se estes quatro anos apenas esboçam uma formação feminina, seria fácil adquirir uma sólida preparação de nível elementar com os seis anos de escolaridade que se torna indispensável prever.

Vozes: - Muito bem!

A Oradora: - A costura, a higiene, a economia doméstica, a puericultura, encontrariam lá o seu lugar, num ambiente de educação cívica e moral adequado.
A ginástica, os jogos, a música e as artes plásticas poderiam ter papel relevante no desenvolvimento físico e na formação do carácter da criança, como não têm hoje, em horários comprimidos pelas matérias de exame ... Como poderiam então encontrar o necessário zelo nos serviços de inspecção e a mesma exigência de provas.
Uma vez ampliada a escola, poderiam inclusivamente prover-se alguns ajustamentos dos programas nos meios rurais que assegurassem uma melhor integração regional, tão pouco verificada hoje; entre as raparigas de aldeia que obtêm diploma de exame.
Creio não ser necessário encarecer as vantagens que adviriam do uma maior vivência da escola primária; cito como exemplo frisante a possibilidade de aproveitamento integral de medidas que visam a melhoria de nível sanitário e económico da população, tantas vezes decretadas com magníficas intenções e tantas vezes perdidas pela ignorância da mulher rural, insuficientemente preparada para se situar numa sociedade em que vacinas, rastreios, higiene alimentar, seguros, etc., são lugares-comuns.

Vozes: - Muito bem!

A Oradora: - Em qualquer hipótese, suponho que a chave do problema, venha ele a resolver-se concretamente desta ou daquela forma, estaria em consciencializar desde já as alunas das escolas do magistério primário sobre o significado e a importância de uma valorização autenticamente feminina e em prepará-las mais directamente para uma acção educativa nesse sentido; indispensável também proporcionar à professora primária condições sociais prestigiantes, que atraiam a esta nobilíssima profissão uma juventude moderna que esteja à altura de continuar a exercê-la com competência e devoção.

Vozes: - Muito bem!

A Oradora: - Mas ainda subsiste o problema de uma educação feminina mais desenvolvida para toda a rapariga que prossegue os estudos e vive nos anos em que a sua formação se poderia fazer, fortemente atarefada com as disciplinas, «com nota» e «com exame», e lhe enchem os horários, os tempos de estudo ... e a preocupação dos familiares e da escola.
Este problema foi encarado com devoção e clarividência há 25 anos, quando a Mocidade Portuguesa Feminina se entregou carinhosamente à missão de completar a educação da família na formação integral da rapariga; nós, as que frequentamos as actividades domésticas - da culinária aos primeiros socorros -, as físicas, com os seus jogos e danças, as actividades artísticas, do entre as quais sobres-