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19 DE ABRIL DE 1972 3617

Nesses artigos tratou os mais diferentes e variados assuntos, mas todos, ou quase todos, ligados a problemas náuticos, tais como compensação de agulhas, artilharia, construção naval, telegrafia sem fios, navegação à vela e navios de vela.
Em 1899 começa os seus trabalhos como geógrafo, delimitando as fronteiras de Timor, tendo prosseguido nesses tipos de trabalhos até 1918. Percorreu, entre outras regiões, o Norte de Angola, a fronteira de Moçambique com a antiga Niassalândia e a região do Tete. Nesta última, em companhia de Vieira da Rocha, executou a difícil mas notável exploração de Cabora Bassa, no rio Zambeze. Em 1912 já se encontra em Angola nos trabalhos de delimitação da fronteira com o Congo e em 1916 em S. Tomé.
Poucos anos depois dedicou-se ao estudo do sextante e aperfeiçoamento de cálculos de navegação aérea, que lhe permitiram, como já referimos, a realização da grande viagem numa base positivamente científica. Faleceu em 18 de Fevereiro de 1959.
Sacadura Cabral nasceu em Celorico da Beira, em 18 de Junho da 1881. Foi Sacadura Cabral também um homem de ciência, dedicado profundamente a trabalhos de geodesia e topografia, especialmente em África, onde se revelou um observador espantoso, com grande saber e notáveis qualidades de resistência e persistência. Sacadura Cabral, depois de obtido em França o seu breve, desempenhou funções de instrutor na Escola de Aeronáutica Militar de Vila Nova da Rainha, sendo posteriormente um dos organizadores da aviação marítima. Era um homem de nervos equilibrados, de uma excepcional serenidade e força de vontade que lhe permitiram preparar a viagem e pilotar numa das etapas durante doze horas seguidas.
Desapareceu no mar, em missão de serviço, a 15 de Novembro de 1924, quando transportava para Lisboa um de três aviões que a Aeronáutica Naval adquirira na Holanda. A dor no País sentida com a sua morte foi grande, tendo o Governo decretado luto nacional.
Foi, consequentemente, com homens possuidores de tão altas qualidades e tão profundos conhecimentos que se tornou possível realizar essa memorável travessia, ideia que nasceu em Sacadura Cabral durante a visita do Presidente da República Brasileira Dr. Epitáfio Pessoa, em 1919. Pensou ele na enorme importância que teria esse voo feito na data do primeiro centenário da independência do Brasil, em 1982. Levou, portanto, cerca de três anos a sua preparação.
Depois de obtido o apoio do Governo, realizou-se estudo cuidadoso.
Quantos problemas não surgiram ao longo desses anos. Relembremos, entre outros, o tipo do avião a escolher, dificuldade importante a vencer, pois não existia na época nenhum com raio de acção capaz de vencer as enormes distâncias a transpor; a prática viagem aérea de longo curso que se começou a fazer ao trazer para Lisboa, de Inglaterra, dois bimotores para a aviação marítima; os estudos de navegação a que se dedicou especialmente o companheiro que convidou; os instrumentos de navegação que foi necessário imaginar; os métodos de cálculo que houve que aperfeiçoar!
E assim foi possível fazer uma viagem experimental que se realizou em 1921, um ano antes do início da grande aventura, e que os levou de Lisboa a ilha da Madeira. Foi percurso de 540 milhas, onde tudo se experimentou e onde se obtiveram resultados que de longe excederam a expectativa.
Serviu esta viagem de confirmação da possibilidade estudada. Era o princípio da aventura que surge com a beleza de heroicidade, consciente da capacidade de realização, mas na incerteza de a possibilidade da inteligência e conhecimento técnico dominarem a máquina e o tempo. Aventura só é verdadeiramente aventura quando as qualidades intrínsecas do homem, à mais perfeita manifestação da natureza, são utilizadas no domínio de circunstâncias invulgares e na persecução de feitos ainda não praticados.
Se falte ao homem esse estágio consciente, a aventura aproxima-se tanto da insanidade que a transforma em loucura.
Assistiu-se em Sacadura Cabral e Coutinho à mentalização científica resultante do saber, a vontade indómita de fazer mais, ao mesmo desalojo de espírito que haviam levado as caravelas do Infante a dar mundos ao Mundo.
E assim partiram, mar fora, cruzando os ares.
Eram 7 horas na madrugada de 30 de Março de 1923. Pequena aeronave com uma envergadura de 19 m, um motor de 350 c.v. e raio de acção de 1260 milhas, a que foi dado o nome de Lusitânia.
Voou-se de Lisboa a S. Vicente de Cabo Verde, depois de fazer escala nas Canárias, em Lãs Palmas e Ganho, onde, por razões de ordem técnica, houve necessidade de ir.
Este primeiro percurso, preparativo da grande tirada em demanda do Brasil, serviu pura tirar mais algumas conclusões, entre as quais se verificou haver um consumo de gasolina acima do estimado.
Havia que alterar o projecto, e a singradouro programada de S. Vicente de Cabo Verde para Fernando Noronha foi modificada para Santiago - Rochedos de S. Pedro e S. Paulo. Necessário se tornava encurtar distâncias, e mesmo assim, se e encontrassem ventos contrários, poucas ou nenhumas probabilidades existiam de chegar ao destino.
E assim largou, também de madrugada, no dia 18 de Abril, tendo chegado ao término dessa etapa, já significativa de vitória do empreendimento, depois de onze horas e vinte minutos de voo, e note-se, como pormenor curioso, com menos de 5l no depósito de gasolina.
Faz hoje meio século. Espaço de tempo grande na vida do homem, mas bem pequeno na vida de uma nação. Não era ainda a apoteose, mas era já certeza de vitória, a confirmação de ideia, o êxito do projecto.
No somatório das contrariedades verificadas ao longo de todas as tiradas outra se deu, que poderia ter tido as mais graves consequências. Quis a Providência que assim não fosse.
O Lusitânia, ao amarar junto aos penedos, devido à forte ondulação e à sua fragilidade, sofreu um acidente num flutuador, afundou-se e perdeu-se, apesar dos esforços desenvolvidos pelo pessoal do navio da marinha de guerra República que o Governo mandara para aquela paragem para dar assistência aos aviadores, que foram recolhidos, bem como os mais importantes instrumentos e papéis.
Decidiu o Governo, e muito bem, que a viagem fosse levada a seu completo termo e essa era também a vontade do povo português, que a seguia ansioso, acompanhando-a a par e passo. Para isso enviou de Lisboa outro avião que foi desembarcado na ilha de Fernando Noronha e ali preparado. Não havia a mais pequena possibilidade de executar estes trabalhos nos penedos.
Voltaram a descolar desta ilha em 13 de Maio para irem até S. Pedro e S. Paulo, término da anterior travessia, e completar a viagem sem soluções de continuidade.